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Canciões

Data 19/dez/2003

    Isto: cães anciões dos quais extraímos esta canção. Nossos cães. Criados a mercê de nossas mercês. Criaturas marcadas pelo estigma da selvageria civilizatória. Um cão por si mesmo é um perdido indivíduo animal. Confinado a existir do que lhe possibilita a vida do homem.
    Os cães. Animais domésticos. Que ao contrário dos demais vivem contabilmente em absoluto estado de despesa a seus proprietários. Um cão não produz divisas. Um cão não é um boi, uma vaca, um bezerro. Um cão não é um carneiro, uma cabra. Um cão não é uma galinha, um galo, um frango. Um cão não é uma égua, um cavalo, uma mula, um burro. Um cão não é um capital.
    Mas muito menos é um objeto de arte. Este, se não promove de imediato dividendos financeiros, institui certos bens culturais. Os quais distinguem o possuinte. Muito menos é um cão como certas residências com múltiplas e específicas dependências, com requintados detalhes arquitetônicos em seu acabamento; com sua suntuosa fachada, certos alpendres, avarandados. Não é como um piano exposto num certo lugar que o destaque na casa. Um cão não é como um automóvel, desde os modelos populares aos mais requintados.
    Tampouco é um cão como um orquidário, em que a beleza e o perfume das flores carregam consigo o sabor do vil metal, cobiça de todos nós. Mesmo a um aquário não se equipara um cão. Mesmo o mais belo, não suscita estados estéticos como os outros mencionados.
    Não se assemelha um cão a um quarto de relicários. Várias e raras coleções. Dos mais estranhos e estrambóticos objetos tidos por um alheio: badulaques inúteis, desnecessários ocupando numerário cujo dispêndio deveria ser beneficiário.
    Um cão não é como um ajardinado, que este, à água que à sede insaciável lhe cabe, aos fertilizantes de que dependerão a desenvoltura, o porte, as cores, os matizes de seus arbustos e relvas, certamente retribuirá com sua muito provável vistosa e invejável paisagem que dá ao ego orgulho.
    Um cão não é como nada. A nada se compara. Um cão é sua própria peculiaridade. Se cão de rua vive sua assumida exclusão. Sua solidão de andarilho olvidado. Aí é o cão em seu mais próximo estado de animal. Perambula instintiva e agonicamente em busca de sua sobrevivência, num meio inteiramente hostil. Por onde passa é escorraçado. A comida, conquanto seja a cidade onde a mesma é farta, é escassa, é quase nenhuma. Obriga-o a caçá-la o tempo todo, sujeitando-se a inumeráveis e imprevistos perigos: a carrocinha, o tráfego, os competidores mais fortes, a leixemaniose.
    Se cão de casa, sua vida transcorre de conformidade com a concepção que sobre sua existência ali se professa. Se cão, bicho para espantar intrusos à casa de quaisquer ordem, come sobra, mora no quintal abrigando-se como pode. Tem muitos limites e por dá cá aquela palha leva bronca e, via de regra, pancada. Se cão de estimação, a casa é mais ou menos condescendente. Comida balanceada, asseios de higiene, prevenção contra os parasitas, contra as doenças endêmicas, com direito a dormitório próprio e até a conviver dentro de casa. Rarissimamente leva pancada (e quando sim, leve, leve). Mas as admoestações são mais freqüentes. Troca carícias, sustenta brincadeiras. E também se faz guarda-desfesa da casa nas horas necessárias.
    Cães assim parecem, comprovadamente, terapêuticos. São cães confinados que acabam requerendo passeios. Todavia, longevos. Morrem por enfermidades de velhice. Cães assim são escudos de seu dono contra achaques, caturrices, depressões de cujo causador se acusa o estresse, que esta vida que se traduz em simultaneísmo, efemérides e perene instabilidade estabelece.

 


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