Isto: cães anciões dos
quais extraímos esta canção. Nossos cães.
Criados a mercê de nossas mercês. Criaturas marcadas
pelo estigma da selvageria civilizatória. Um cão
por si mesmo é um perdido indivíduo animal.
Confinado a existir do que lhe possibilita a vida do homem.
Os cães. Animais domésticos.
Que ao contrário dos demais vivem contabilmente em
absoluto estado de despesa a seus proprietários. Um
cão não produz divisas. Um cão não
é um boi, uma vaca, um bezerro. Um cão não
é um carneiro, uma cabra. Um cão não
é uma galinha, um galo, um frango. Um cão não
é uma égua, um cavalo, uma mula, um burro. Um
cão não é um capital.
Mas muito menos é um objeto
de arte. Este, se não promove de imediato dividendos
financeiros, institui certos bens culturais. Os quais distinguem
o possuinte. Muito menos é um cão como certas
residências com múltiplas e específicas
dependências, com requintados detalhes arquitetônicos
em seu acabamento; com sua suntuosa fachada, certos alpendres,
avarandados. Não é como um piano exposto num
certo lugar que o destaque na casa. Um cão não
é como um automóvel, desde os modelos populares
aos mais requintados.
Tampouco é um cão como
um orquidário, em que a beleza e o perfume das flores
carregam consigo o sabor do vil metal, cobiça de todos
nós. Mesmo a um aquário não se equipara
um cão. Mesmo o mais belo, não suscita estados
estéticos como os outros mencionados.
Não se assemelha um cão
a um quarto de relicários. Várias e raras coleções.
Dos mais estranhos e estrambóticos objetos tidos por
um alheio: badulaques inúteis, desnecessários
ocupando numerário cujo dispêndio deveria ser
beneficiário.
Um cão não é
como um ajardinado, que este, à água que à
sede insaciável lhe cabe, aos fertilizantes de que
dependerão a desenvoltura, o porte, as cores, os matizes
de seus arbustos e relvas, certamente retribuirá com
sua muito provável vistosa e invejável paisagem
que dá ao ego orgulho.
Um cão não é
como nada. A nada se compara. Um cão é sua própria
peculiaridade. Se cão de rua vive sua assumida exclusão.
Sua solidão de andarilho olvidado. Aí é
o cão em seu mais próximo estado de animal.
Perambula instintiva e agonicamente em busca de sua sobrevivência,
num meio inteiramente hostil. Por onde passa é escorraçado.
A comida, conquanto seja a cidade onde a mesma é farta,
é escassa, é quase nenhuma. Obriga-o a caçá-la
o tempo todo, sujeitando-se a inumeráveis e imprevistos
perigos: a carrocinha, o tráfego, os competidores mais
fortes, a leixemaniose.
Se cão de casa, sua vida transcorre
de conformidade com a concepção que sobre sua
existência ali se professa. Se cão, bicho para
espantar intrusos à casa de quaisquer ordem, come sobra,
mora no quintal abrigando-se como pode. Tem muitos limites
e por dá cá aquela palha leva bronca e, via
de regra, pancada. Se cão de estimação,
a casa é mais ou menos condescendente. Comida balanceada,
asseios de higiene, prevenção contra os parasitas,
contra as doenças endêmicas, com direito a dormitório
próprio e até a conviver dentro de casa. Rarissimamente
leva pancada (e quando sim, leve, leve). Mas as admoestações
são mais freqüentes. Troca carícias, sustenta
brincadeiras. E também se faz guarda-desfesa da casa
nas horas necessárias.
Cães assim parecem, comprovadamente,
terapêuticos. São cães confinados que
acabam requerendo passeios. Todavia, longevos. Morrem por
enfermidades de velhice. Cães assim são escudos
de seu dono contra achaques, caturrices, depressões
de cujo causador se acusa o estresse, que esta vida que se
traduz em simultaneísmo, efemérides e perene
instabilidade estabelece.