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Flor de porão

Data 12/dez/2003

    Era “tempo de meio silêncio,/ de boca gelada e murmúrio,/ palavra indireta, aviso/ na esquina. Tempo de cinco sentidos/ num só. O espião janta conosco.”
    Aprendia-se a não dizer, embora se quisesse tanto. A equívoca solidão construída como defesa pessoal. E havia a carnificina nazifascista vincada na história. Inglória. Para o acervo das ruínas humanas. Para exemplo inobservado. As tribos civilizatórias invasoras se repetindo, se revezando. A barbárie civilizatória criadora, evolutiva, científica, canibalesca. Mais predadora quanto mais portentosa. A vida humana seguindo a sua sina fantástica, fantasmagórica, maravilhosa, medonha. Depuração, deformação, deificação, demonização: a vida – prenda, prêmio, graça, plenificação de ser. Obtê-la, conquistá-la. E o que parecia, o que deveria ser uma dádiva, que se conquistaria com a prática da perícia em ser humano, se faz muito cara, avara, mercadomeritória, finaceirocapitulatória. E o que sublimaria, subumaniza: as classes indo de super-homens a subomens.
    Era um tempo de divisas, “tempo de gente cortada./ De mãos viajando sem braços,/ obscenos gestos avulsos.” E aos que teimavam à palavra se entregar, o confinamento de toda ordem. Desde a eliminação pura e simples ao aprisionamento amordaçante. E a palavra emparedada havia que buscar sua forma de exercício. Guardar-se afiada para o súbito quando. Desvencilhar-se o quanto possível da imposta ferrugem. Afiar a linguagem cortante impedindo a morbidez projetada. Preservar-lhe o viço do fio ávido em não se entregar aos que se arvoraram donatários do País.
    Então a cela-sala-dormitório se fazia escola. Exercício-passatempo. Exercício: aprendizagem; exercício: engrandecimento e humildade; exercício: reconhecimento, respeito e valorização da diversidade; exercício: auto-estima, autodomínio; autocrítica; exercício: análise crítica apreciativo-reflexiva quanto aos valores, à potencialidade, às qualidades e às fragilidades dos pronunciados adversários.
    Havia planos e cronograma das atividades. Metodologia comumente estabelecida. Procedimentos discursivo e receptivo. Regulamentação às discussões, aos debates, quase sempre acalorados. Um exercício de disciplina inestimável.
    Em meio àquele grupo dado como uma súcia de subversivos, perigosos sublevantes da ordem estabelecida, um desvio. Por quê? à socapa se buscavam para desvelar a intenção do ato. Custava-se a acreditar que fora coisa do acaso.
    O consenso: concluiu-se que os donatários do País não infiltraram nenhum espião. Dinão era um líder habilíssimo de uma grande quadrilha de ladrões de banco (o que o afinara e o simpatizara com o grupo). E, aos assaltantes do País, era o melhor espaço para neutralizá-lo.
    Dinão se fizera excelente companheiro do grupo. Assistia a todas as conferências, conforme ele denominava as exposições dos intelectuais ali com ele presos. Dizia-se um privilegiado. Aprendia como nunca em toda a sua vida. A tudo acompanhava atentamente. Sempre com uma questão a certificar-se de algo. Pois a prática da discussão, de estabelecerem-se certas dúvidas, ponderações, foi que lhe ensinara.
    Decorridas semanas nesse procedimento, sugeriu alguém a idéia de que, como espairecimento ao exercício mental, Dinão poderia relatar suas peripécias nos muitos assaltos aos bancos. Idéia aprovada, inclusive por ele. Mas com o compromisso de que relatasse fatos realmente ocorridos, historicamente comprovados.
    Três vezes por semana, Dinão narrava uma história. E para surpresa e entusiasmo geral, inclusive dele, Dinão revelava-se fino escritor. O manejo do enredo. As situações conflitivas entre os assaltantes; a atmosfera tensiva antes, durante o assalto; os equívocos, as trapaças, os suspenses.
    E foi desse modo, escrevendo romances e contos campeões de venda sob pseudônimo, que Dinão cumpriu sua pena, reduzida pela metade por prestar bons serviços à nação.

 


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