Era tempo de meio silêncio,/
de boca gelada e murmúrio,/ palavra indireta, aviso/
na esquina. Tempo de cinco sentidos/ num só. O espião
janta conosco.
Aprendia-se a não dizer, embora
se quisesse tanto. A equívoca solidão construída
como defesa pessoal. E havia a carnificina nazifascista vincada
na história. Inglória. Para o acervo das ruínas
humanas. Para exemplo inobservado. As tribos civilizatórias
invasoras se repetindo, se revezando. A barbárie civilizatória
criadora, evolutiva, científica, canibalesca. Mais
predadora quanto mais portentosa. A vida humana seguindo a
sua sina fantástica, fantasmagórica, maravilhosa,
medonha. Depuração, deformação,
deificação, demonização: a vida
prenda, prêmio, graça, plenificação
de ser. Obtê-la, conquistá-la. E o que parecia,
o que deveria ser uma dádiva, que se conquistaria com
a prática da perícia em ser humano, se faz muito
cara, avara, mercadomeritória, finaceirocapitulatória.
E o que sublimaria, subumaniza: as classes indo de super-homens
a subomens.
Era um tempo de divisas, tempo
de gente cortada./ De mãos viajando sem braços,/
obscenos gestos avulsos. E aos que teimavam à
palavra se entregar, o confinamento de toda ordem. Desde a
eliminação pura e simples ao aprisionamento
amordaçante. E a palavra emparedada havia que buscar
sua forma de exercício. Guardar-se afiada para o súbito
quando. Desvencilhar-se o quanto possível da imposta
ferrugem. Afiar a linguagem cortante impedindo a morbidez
projetada. Preservar-lhe o viço do fio ávido
em não se entregar aos que se arvoraram donatários
do País.
Então a cela-sala-dormitório
se fazia escola. Exercício-passatempo. Exercício:
aprendizagem; exercício: engrandecimento e humildade;
exercício: reconhecimento, respeito e valorização
da diversidade; exercício: auto-estima, autodomínio;
autocrítica; exercício: análise crítica
apreciativo-reflexiva quanto aos valores, à potencialidade,
às qualidades e às fragilidades dos pronunciados
adversários.
Havia planos e cronograma das atividades.
Metodologia comumente estabelecida. Procedimentos discursivo
e receptivo. Regulamentação às discussões,
aos debates, quase sempre acalorados. Um exercício
de disciplina inestimável.
Em meio àquele grupo dado como
uma súcia de subversivos, perigosos sublevantes da
ordem estabelecida, um desvio. Por quê? à socapa
se buscavam para desvelar a intenção do ato.
Custava-se a acreditar que fora coisa do acaso.
O consenso: concluiu-se que os donatários
do País não infiltraram nenhum espião.
Dinão era um líder habilíssimo de uma
grande quadrilha de ladrões de banco (o que o afinara
e o simpatizara com o grupo). E, aos assaltantes do País,
era o melhor espaço para neutralizá-lo.
Dinão se fizera excelente companheiro
do grupo. Assistia a todas as conferências, conforme
ele denominava as exposições dos intelectuais
ali com ele presos. Dizia-se um privilegiado. Aprendia como
nunca em toda a sua vida. A tudo acompanhava atentamente.
Sempre com uma questão a certificar-se de algo. Pois
a prática da discussão, de estabelecerem-se
certas dúvidas, ponderações, foi que
lhe ensinara.
Decorridas semanas nesse procedimento,
sugeriu alguém a idéia de que, como espairecimento
ao exercício mental, Dinão poderia relatar suas
peripécias nos muitos assaltos aos bancos. Idéia
aprovada, inclusive por ele. Mas com o compromisso de que
relatasse fatos realmente ocorridos, historicamente comprovados.
Três vezes por semana, Dinão
narrava uma história. E para surpresa e entusiasmo
geral, inclusive dele, Dinão revelava-se fino escritor.
O manejo do enredo. As situações conflitivas
entre os assaltantes; a atmosfera tensiva antes, durante o
assalto; os equívocos, as trapaças, os suspenses.
E foi desse modo, escrevendo romances
e contos campeões de venda sob pseudônimo, que
Dinão cumpriu sua pena, reduzida pela metade por prestar
bons serviços à nação.