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Projeto

Data 05/dez/2003

    O tempo e as palavras. Ou certas palavras e o seu tempo. O universo da linguagem ressoa o do homem com quem coabita. Homem no qual ela palpita. Linguagem e homem fazem um consórcio indissociável em que o ciúme e a exclusividade não suportam contrato. A linguagem do homem é incapaz de ser única. E por sua vez, o homem, linguagem, é incapaz de ser somente de uma linguagem.
    Mas não sabem ser um sem a outra. A linguagem veio do homem. Ao homem constituiu a linguagem (e o Verbo se fez homem). Então o homem é a linguagem, que é homem. O homem muito se revela pela linguagem. Várias são as linguagens de que se vale um homem. Todavia, uma há que o demarca: o estilo é o homem.
    Então o chavão: não há homem sem linguagem, tampouco há linguagem sem homem. Entretanto, passa-se que a liberdade que os arrebata e não os desencarna os faz dependentes independentes entre si. E permanentes construtores de si mesmos e entre si. A linguagem modela e muda o homem. O homem muda e modela a linguagem. Livres. Cada qual entregue a seu fazer. Empenhados em seu destino. Presos às suas vontades, aos seus prazeres, aos seus deveres.
    Certas prosódias, certas sintaxes. Vão tomando espaço. Ganhando os falares, os dizeres. Estigmatizando e segmentando os grupos. E a linguagem com seu comando. Certas expressões, certas palavras categorizando os setores. Surgem, se insurgem, imperam. E vão. Que como vieram, já outras captam o gosto necessitado do novo. Cristalizam-se. Esvaziam-se de seus sentidos para assumir as simultaneidades de sentido que o homem promove naquele átimo de uso.
    O apequenamento do universo que o desvelou e o desvela; que instaurou e instaura confrontos sociais, culturais, religiosos; que avizinhou os que tanto se distanciam; que distanciou e distancia os mais avizinhados; que efemeriza a perplexidade; que rotiniza e simultaneiza os acontecimentos, os acontecendos, os acontecerões. E nisso, a ação da linguagem. A linguagem confluindo línguas e seus homens. Uma Babel invertida. As línguas são dadas aos domínios da aparência. E as linguagens se fazendo os verdadeiros protecionismos. Fala-se, mas não se diz. Vê-se, mas não se enxerga.
    Cada vez mais linguomem. Cada vez mais o Verbo se faz homem e se habita, e se desabita; se habilita e se desabilita. O homem na construção obstinada de um fim, que, por fim, se acaba sendo o seu próprio fim.
    O homem articula projetos. Respaldado em suas linguagens, o homem faz projeções. O homem é o projeto. Onde há homens há articulação de linguagem em torno de um projeto. E os projetos se fazem e se desfazem. O autêntico documento de um homem é o seu projeto. Ainda que não passe de um projeto. E um projeto é a materialização de uma linguagem. Que, como tal, é o projeto. Que, posto em execução, é uma linguagem em ação. Que, como tal, é móvel, dinâmica e mutável. E o que torna o homem um eterno projeto. O que torna o homem um projetista de si mesmo em progressão. Por isso, sua linguagem é o seu projeto que, enquanto o projeta, se projeta.
    Afinal, a linguagem é linguagem que se faz linguagem incessantemente, tornando o homem o projeto de outro homem. Então, o homem não passa de linguagem, o que não é muito, contudo longe está de ser pouco.

 


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