O tempo e as palavras. Ou certas palavras
e o seu tempo. O universo da linguagem ressoa o do homem com
quem coabita. Homem no qual ela palpita. Linguagem e homem
fazem um consórcio indissociável em que o ciúme
e a exclusividade não suportam contrato. A linguagem
do homem é incapaz de ser única. E por sua vez,
o homem, linguagem, é incapaz de ser somente de uma
linguagem.
Mas não sabem ser um sem a
outra. A linguagem veio do homem. Ao homem constituiu a linguagem
(e o Verbo se fez homem). Então o homem é a
linguagem, que é homem. O homem muito se revela pela
linguagem. Várias são as linguagens de que se
vale um homem. Todavia, uma há que o demarca: o estilo
é o homem.
Então o chavão: não
há homem sem linguagem, tampouco há linguagem
sem homem. Entretanto, passa-se que a liberdade que os arrebata
e não os desencarna os faz dependentes independentes
entre si. E permanentes construtores de si mesmos e entre
si. A linguagem modela e muda o homem. O homem muda e modela
a linguagem. Livres. Cada qual entregue a seu fazer. Empenhados
em seu destino. Presos às suas vontades, aos seus prazeres,
aos seus deveres.
Certas prosódias, certas sintaxes.
Vão tomando espaço. Ganhando os falares, os
dizeres. Estigmatizando e segmentando os grupos. E a linguagem
com seu comando. Certas expressões, certas palavras
categorizando os setores. Surgem, se insurgem, imperam. E
vão. Que como vieram, já outras captam o gosto
necessitado do novo. Cristalizam-se. Esvaziam-se de seus sentidos
para assumir as simultaneidades de sentido que o homem promove
naquele átimo de uso.
O apequenamento do universo que o
desvelou e o desvela; que instaurou e instaura confrontos
sociais, culturais, religiosos; que avizinhou os que tanto
se distanciam; que distanciou e distancia os mais avizinhados;
que efemeriza a perplexidade; que rotiniza e simultaneiza
os acontecimentos, os acontecendos, os acontecerões.
E nisso, a ação da linguagem. A linguagem confluindo
línguas e seus homens. Uma Babel invertida. As línguas
são dadas aos domínios da aparência. E
as linguagens se fazendo os verdadeiros protecionismos. Fala-se,
mas não se diz. Vê-se, mas não se enxerga.
Cada vez mais linguomem. Cada vez
mais o Verbo se faz homem e se habita, e se desabita; se habilita
e se desabilita. O homem na construção obstinada
de um fim, que, por fim, se acaba sendo o seu próprio
fim.
O homem articula projetos. Respaldado
em suas linguagens, o homem faz projeções. O
homem é o projeto. Onde há homens há
articulação de linguagem em torno de um projeto.
E os projetos se fazem e se desfazem. O autêntico documento
de um homem é o seu projeto. Ainda que não passe
de um projeto. E um projeto é a materialização
de uma linguagem. Que, como tal, é o projeto. Que,
posto em execução, é uma linguagem em
ação. Que, como tal, é móvel,
dinâmica e mutável. E o que torna o homem um
eterno projeto. O que torna o homem um projetista de si mesmo
em progressão. Por isso, sua linguagem é o seu
projeto que, enquanto o projeta, se projeta.
Afinal, a linguagem é linguagem
que se faz linguagem incessantemente, tornando o homem o projeto
de outro homem. Então, o homem não passa de
linguagem, o que não é muito, contudo longe
está de ser pouco.