Senhora dona desta casa, dai-me vossa
atenção. Perambulo por estas paragens em busca
de muitos sins. E nãos é o que me ofertam em
cada porta que bato.
Senhora Dona desta morada. Peregrino
por esse mundo desertado por tantos pais. Não busco
clemência. Peço apenas que me deis um sim para
que em mim se mostre o homem.
Senhora dona deste palácio.
Ouça a nova que trago. Vossos ancestrais nada se deram
ao ofício benefício. Construíram estas
paredes com sangues, dores e martírios.
Senhora dona deste bordel, não
repilais este andarilho sujeito. Venho da parte das prostitutas
com quem pouco tendes sabido lidar. Firmemos um compromisso:
não é porque se obriguem ao prazer orgástico
aflorar, tenham que a vossos prazeres escusos sustentar.
Senhora dona, mãe de Maria,
não vos façais de rogada. Vossa filha vive de
amores perdida por este devoto que à vossa porta se
posta. Não humilhais os amores sãos. Pois todos
sabem que são mais ricos do que riquíssimos
outros todos. O inebriante de já ter sido amada alguma
vez, senhora mãe, vos leve a deixar viva n`alma esta
centelha.
Senhora dona desta fazenda. Acolhei-me
por apenas esta noite. Então no avarandado deste casarão,
haveis de mim ouvir histórias, que talvez tenham vossa
própria mão. Como a que conta que era uma vez
uma noite de céu puro estrelas e lua mínima,
de primavera outonada com aragem fresca e leve, uma incerta
senhora dona, de beleza tamanha à daquele céu,
em preparar-se para o amor, no seu quarto, tanto demorou,
que ao aproximar-se da rede de finos rendados, onde seu homem
à prenda dele, há muito, pronto estaria esperando,
o que viu foi a nudez inerte de seu amado morto. Ora, senhora,
afinal, por mais que seja assim tanta, não pode uma
beleza se fazer excessivamente rogada.
Senhora dona matrona, que sabeis como
com os coronéis quaisquer lidar, intercedei por vossos
pupilos pobres que, por mais hábeis pareçam,
não conseguem fugir à sina de nas mãos
destes camaleões plenipotenciários de poder
e arbítrio padecerem. Fazei, com vosso indubitável
poder de Maria Regalada sobre tais senhores vidigais, peremptórias
admoestações sutis, sedutoras que, certamente,
diante de vós, se farão peris servis, e a vosso
mando tornar-nos-ão sargentos de milícia desta
corte republicana tão madrasta, tão cara, tão
sacana.
Senhoras donas madrinhas, onde estais
que permitis haja esses vossos afiliados feitos fossem facínoras,
porque completamente abandonados? Órfãos, também
se viram sem vossos cuidados tão caros antes, há
poucos tempos passados, que tinham eles o dever público
de, em declarado, a bênção vos pedir.
Vão por aí desescolarizados, tutelados pelo
tráfico, pelo crime baixo, pelos comandos que se proliferam
e em aberta guerra vão tomando espaço, dos quais
se fazem donos, impondo seu estado. E nas trincheiras, esses
meninos, senhoras donas madrinhas, causas também de
vosso descaso, são os soldados muito mais bem remunerados
do que os de vosso falido Estado.
Senhoras donas procriadoras, ouçai
pacientemente o que vos vem dizer, por esta porta, este incansável
peregrino, caminhante destas trilhas pedregosas cujos solos,
todavia, são férteis a flores, a ipês
e jacarandás, a muitas espécies frutíferas.
Senhoras donas, não procriai, se Mãe não
podeis ser. Praticai seus amores, que vos são de direito,
mas não concebais a orfandade que se porá vulnerável
à militância desse estado degradador, pois o
Estado oficial, senhoras donas, tem sido, desses órfãos,
displicentes, omissas madrastas. Atentai, senhoras, para o
adágio singelo e milenar: ter filhos é da natureza
animal, educá-los é da condição
humana.