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Apelo

Data 27/nov/2003

    Senhora dona desta casa, dai-me vossa atenção. Perambulo por estas paragens em busca de muitos sins. E nãos é o que me ofertam em cada porta que bato.
    Senhora Dona desta morada. Peregrino por esse mundo desertado por tantos pais. Não busco clemência. Peço apenas que me deis um sim para que em mim se mostre o homem.
    Senhora dona deste palácio. Ouça a nova que trago. Vossos ancestrais nada se deram ao ofício benefício. Construíram estas paredes com sangues, dores e martírios.
    Senhora dona deste bordel, não repilais este andarilho sujeito. Venho da parte das prostitutas com quem pouco tendes sabido lidar. Firmemos um compromisso: não é porque se obriguem ao prazer orgástico aflorar, tenham que a vossos prazeres escusos sustentar.
    Senhora dona, mãe de Maria, não vos façais de rogada. Vossa filha vive de amores perdida por este devoto que à vossa porta se posta. Não humilhais os amores sãos. Pois todos sabem que são mais ricos do que riquíssimos outros todos. O inebriante de já ter sido amada alguma vez, senhora mãe, vos leve a deixar viva n`alma esta centelha.
    Senhora dona desta fazenda. Acolhei-me por apenas esta noite. Então no avarandado deste casarão, haveis de mim ouvir histórias, que talvez tenham vossa própria mão. Como a que conta que era uma vez uma noite de céu puro estrelas e lua mínima, de primavera outonada com aragem fresca e leve, uma incerta senhora dona, de beleza tamanha à daquele céu, em preparar-se para o amor, no seu quarto, tanto demorou, que ao aproximar-se da rede de finos rendados, onde seu homem à prenda dele, há muito, pronto estaria esperando, o que viu foi a nudez inerte de seu amado morto. Ora, senhora, afinal, por mais que seja assim tanta, não pode uma beleza se fazer excessivamente rogada.
    Senhora dona matrona, que sabeis como com os coronéis quaisquer lidar, intercedei por vossos pupilos pobres que, por mais hábeis pareçam, não conseguem fugir à sina de nas mãos destes camaleões plenipotenciários de poder e arbítrio padecerem. Fazei, com vosso indubitável poder de Maria Regalada sobre tais senhores vidigais, peremptórias admoestações sutis, sedutoras que, certamente, diante de vós, se farão peris servis, e a vosso mando tornar-nos-ão sargentos de milícia desta corte republicana tão madrasta, tão cara, tão sacana.
    Senhoras donas madrinhas, onde estais que permitis haja esses vossos afiliados feitos fossem facínoras, porque completamente abandonados? Órfãos, também se viram sem vossos cuidados tão caros antes, há poucos tempos passados, que tinham eles o dever público de, em declarado, a bênção vos pedir. Vão por aí desescolarizados, tutelados pelo tráfico, pelo crime baixo, pelos comandos que se proliferam e em aberta guerra vão tomando espaço, dos quais se fazem donos, impondo seu estado. E nas trincheiras, esses meninos, senhoras donas madrinhas, causas também de vosso descaso, são os soldados muito mais bem remunerados do que os de vosso falido Estado.
    Senhoras donas procriadoras, ouçai pacientemente o que vos vem dizer, por esta porta, este incansável peregrino, caminhante destas trilhas pedregosas cujos solos, todavia, são férteis a flores, a ipês e jacarandás, a muitas espécies frutíferas. Senhoras donas, não procriai, se Mãe não podeis ser. Praticai seus amores, que vos são de direito, mas não concebais a orfandade que se porá vulnerável à militância desse estado degradador, pois o Estado oficial, senhoras donas, tem sido, desses órfãos, displicentes, omissas madrastas. Atentai, senhoras, para o adágio singelo e milenar: ter filhos é da natureza animal, educá-los é da condição humana.

 


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