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Monólogo

Data 21/nov/2003

    Noventa anos pelo São Pedro. Último santo comemorado. E já nem se lembra de quando isso de aniversário em sua vida tornou-se a rotina de completar anos. A que se comemora com breves e afáveis cumprimentos e um bolo tão simpático quanto simples, que a filha nunca deixa de fazer.
    Não fora dono de gado e gente. Mas administrá-los quase a vida toda o tornava um similar. E pelos seus sãos pedros havia festa com direito a fogueiras e folguedos. Fagueiros, comemoravam todos, talvez, a pacata vida sem sobressaltos, mais que propriamente seu aniversário. Comemoravam o aniversário da vida que seu aniversário lhes permitia comemorar.
    Vida de campo. Vida de roça. Homens e mulheres e filhos cuidando da terra, dos animais. Que não fossem seus, embora, mas lhes davam a sensação da plácida convivência que efetivamente os tornava mais seus do que de um dono distante e abstrato. Dono cuja manifestação se dava no ir embora do leite tirado, do gado engordado; no despacho da colheita ensacada. Mas outros bois ficavam. Permaneciam as vacas com suas crias. E a terra que nunca ia.
    Iam os produtos colhidos para a engorda dos bens do dono, porém a terra não ficava. Ali permanecia para aquela convivência inefável. Uma relação de amor tácita e indescritível. Eles tão dela. Ela toda para eles. Na verdade, até pouco se importavam com o plantio da moda econômica que movia os negócios lucrativos do abstrato dono. Plantaram café, quando o café era a moeda tilintante. Plantaram algodão, quando este passou a moeda da vez. Assim com o milho, a soja, a cana-de-açúcar. Embora a lida com cada um deles era menos ou mais gratificante, mais ou menos danificante.
    Estar com a terra. Entregar-se aos cuidados dela. Amanhá-la mal amanhecia. Sentir dela o hálito, o bom odor silvestre, com sinais de orvalho embebido. Ternamente penetrar-lhe a entranha com a ferramenta apropriada, reiniciar incansavelmente, insaciavelmente a fecunda relação de amor que lhes confere o bem estar da vida convivida.
    Todavia, isso tudo compõe, agora, o arquivo da nostalgia de sua vida de ancião agraciado com a longeva idade em plena saúde. Palavras de um bisneto querido, filho da cibernética, a quem roça, mais que um vago olvido de antigos, é um mero verbete comum à História e à Economia, para as quais, no entanto, os sentidos ganham enfoques distintos. E em nenhuma delas consta aquele enfatizado pela nostálgica e demorada conceituação feita pelo bisavô, a quem ele pacientemente algumas vezes ouve, como forma de gratidão e carinho.
    A roça era pacata. Calma. Talvez houvesse, ainda resistente, a teimosia do vírus da vida idílica. O homem apegado a terra. A terra exercendo sua irrefutável força sedutora sobre ele. E o dia-a-dia tecido por aquela feliz harmonia. À tardezinha, o espairecimento. A contemplação que se estendia até certa hora da noite de lua e estrelas confortando a escuridão.
    O trabalho era a educação. A família era a casa e era a roça. Todos ficavam em casa. Todos iam à roça. Mais que o conformismo, formava-se a condição humana, a partilha, a realidade da escassez, a necessidade do trabalho como legitimação da independência, do respeito e da hombridade. A utopia como uma conquista a ser construída com vida.
    Mas a cidade é que, de repente, se tornou o mais provável paraíso das ilusões perdidas. E a vida que parecia o milagre intocável, o mito, o dom divino por todos repartido, compartido, por isso naturalmente todos se sentido ungidos, de repente, virou o fetiche disputado. A vida tornou-se nada. Ficou do tamanho de uma raiva. Reduzida a coisa competitiva. Às vezes com valor muitíssimo inferior a um produto de origem citadina: incertas mercadorias.

 


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