Noventa anos pelo São Pedro.
Último santo comemorado. E já nem se lembra
de quando isso de aniversário em sua vida tornou-se
a rotina de completar anos. A que se comemora com breves e
afáveis cumprimentos e um bolo tão simpático
quanto simples, que a filha nunca deixa de fazer.
Não fora dono de gado e gente.
Mas administrá-los quase a vida toda o tornava um similar.
E pelos seus sãos pedros havia festa com direito a
fogueiras e folguedos. Fagueiros, comemoravam todos, talvez,
a pacata vida sem sobressaltos, mais que propriamente seu
aniversário. Comemoravam o aniversário da vida
que seu aniversário lhes permitia comemorar.
Vida de campo. Vida de roça.
Homens e mulheres e filhos cuidando da terra, dos animais.
Que não fossem seus, embora, mas lhes davam a sensação
da plácida convivência que efetivamente os tornava
mais seus do que de um dono distante e abstrato. Dono cuja
manifestação se dava no ir embora do leite tirado,
do gado engordado; no despacho da colheita ensacada. Mas outros
bois ficavam. Permaneciam as vacas com suas crias. E a terra
que nunca ia.
Iam os produtos colhidos para a engorda
dos bens do dono, porém a terra não ficava.
Ali permanecia para aquela convivência inefável.
Uma relação de amor tácita e indescritível.
Eles tão dela. Ela toda para eles. Na verdade, até
pouco se importavam com o plantio da moda econômica
que movia os negócios lucrativos do abstrato dono.
Plantaram café, quando o café era a moeda tilintante.
Plantaram algodão, quando este passou a moeda da vez.
Assim com o milho, a soja, a cana-de-açúcar.
Embora a lida com cada um deles era menos ou mais gratificante,
mais ou menos danificante.
Estar com a terra. Entregar-se aos
cuidados dela. Amanhá-la mal amanhecia. Sentir dela
o hálito, o bom odor silvestre, com sinais de orvalho
embebido. Ternamente penetrar-lhe a entranha com a ferramenta
apropriada, reiniciar incansavelmente, insaciavelmente a fecunda
relação de amor que lhes confere o bem estar
da vida convivida.
Todavia, isso tudo compõe,
agora, o arquivo da nostalgia de sua vida de ancião
agraciado com a longeva idade em plena saúde. Palavras
de um bisneto querido, filho da cibernética, a quem
roça, mais que um vago olvido de antigos, é
um mero verbete comum à História e à
Economia, para as quais, no entanto, os sentidos ganham enfoques
distintos. E em nenhuma delas consta aquele enfatizado pela
nostálgica e demorada conceituação feita
pelo bisavô, a quem ele pacientemente algumas vezes
ouve, como forma de gratidão e carinho.
A roça era pacata. Calma. Talvez
houvesse, ainda resistente, a teimosia do vírus da
vida idílica. O homem apegado a terra. A terra exercendo
sua irrefutável força sedutora sobre ele. E
o dia-a-dia tecido por aquela feliz harmonia. À tardezinha,
o espairecimento. A contemplação que se estendia
até certa hora da noite de lua e estrelas confortando
a escuridão.
O trabalho era a educação.
A família era a casa e era a roça. Todos ficavam
em casa. Todos iam à roça. Mais que o conformismo,
formava-se a condição humana, a partilha, a
realidade da escassez, a necessidade do trabalho como legitimação
da independência, do respeito e da hombridade. A utopia
como uma conquista a ser construída com vida.
Mas a cidade é que, de repente,
se tornou o mais provável paraíso das ilusões
perdidas. E a vida que parecia o milagre intocável,
o mito, o dom divino por todos repartido, compartido, por
isso naturalmente todos se sentido ungidos, de repente, virou
o fetiche disputado. A vida tornou-se nada. Ficou do tamanho
de uma raiva. Reduzida a coisa competitiva. Às vezes
com valor muitíssimo inferior a um produto de origem
citadina: incertas mercadorias.