Sustos. Depois a contemplação
de um inveterado sujeito apaixonado pelas insignificantes
grandezas que a natureza incessantemente revela.
A visão: o canário voando
apavorado. Assentando em coisas que não poleiros de
gaiola.
O escritório, a grande gaiola.
Um canário, decerto escapado de alguma gaiola displicente.
O canário ante o inusitado da portinhola aberta. O
espaço aberto, sem os arames feito paredes transparentes
para maior ansiedade de quem vê a liberdade que não
lhe deixam ter.
Decerto, ensaiou o vôo. O espaço
sem grades. Outro vôo. Mais outros. O quintal das árvores
em que pousara. Ao lado, a janela do escritório, ampla,
com grade. Lembrou-lhe a gaiola. Assentou na grade. Entrou
no escritório. A grande gaiola.
E então se deu conta do engano.
A gaiola mínima não era. Estava dentro de outra
muito mais ampla. Não havia
ali alpiste. Ali não havia cocho de água. Tampouco
havia ali as folhas de verduras dependuradas. Outras coisas.
Impróprias a gaiolas. Podia alçar, isto sim,
pequenos vôos mais longos. Assentar em patamares sem
que os pés pudessem abarcá-los. Isto o cansava
mais. O hábito antigo abruptamente interrompido. Não
sabia ao certo que fazer. Parecia-lhe ver uma abertura por
onde pudesse passar. Todavia tinha medo, pois ao mesmo tempo
lhe parecia também intransponível. Assentou
numa haste que mais lhe parecia os seus poleiros habituais.
Até pôde envolvê-la com seus pés.
E aí gorjeou como se em sua gaiola. Evacuou, como se
em sua gaiola. Pôs-se a higienizar-se como todos os
pássaros. Quando naquele claro semelhante ao da portinhola
de aberta gaiola surgiu um homem que lhe era estranho. Assustou-se.
E se pôs a voar pela grande gaiola, sem saber o que
representava aquele seu vôo, se medo, se recusa a quaisquer
proximidades, se demonstração de não-domesticidade,
se desejo de ganhar a completa liberdade. Não sabia,
não pensava, apenas voava, voava. E assentava. Voava,
voava e assentava. O homem extático na portinholona
apenas olhava. Depois passou a agir de forma evidente de quem
tentava apanhá-lo, para seu maior desespero.
Foi apenas aquele susto comum de ter
se deparado com mais um pássaro em seu escritório
atrelado ao quintal de várias árvores, para
o qual a ampla janela se abre. Canário muito caro.
Veio-lhe o antigo conhecimento de menino que teve um amigo
colecionador desses pássaros de gaiola competidores
de prêmios vultuosos em disputas de gorjeios. Canário
da Terra. Canário do Reino.
Era um canário do reino. Soma
valiosa perdida para a dor de dólares de seu dono.
Ficou na soleira da porta a admirá-lo. Quase exatamente
como das outras vezes com os outros que por ali passaram,
ou se perderam. Até gorjeio de presente ganhou. Gorjeio
lindo. Que nunca mais ouvira. Apenas maculou sua alegria a
lembrança de vê-los e ouvi-los assim em gaiolas.
Enquanto cogitava sobre o que fazer com canário assim
aparecido.
Reaprisioná-lo para seu desesperado
dono que, de porta em porta, passará pela sua porta
suspiroso por canário seu de estimação
escapado por ocasião de displicente limpeza de gaiola.
Receio de pô-lo escritório pra fora, que pássaro
de gaiola perde por completo sua essência: ser livre
por natureza.
O canário, entretanto, procedia
como procedera o bem-te-vi, como procedera o periquito, como
procedera o beija-flor (que mais ainda lhe viria? Quisera
Deus que muitos outros!). Voava para todos os lados do escritório.
Mal assentava nalgum canto e recomeçava a voar. Tal
qual se comportaram os outros curiosos visitantes.
Então decidiu também
ele proceder como procedera com os outros. E o canário
acabou agindo exatamente como os outros. Encontrou, por fim,
o gradil da janela por onde entrara. Assentou nele. Olhou
por instantes para dentro. E voou para o cajueiro.