Home
|
Conheça Tito Damazo
|
Textos
|
Contato
|



Presenteação

Data 14/nov/2003

    Sustos. Depois a contemplação de um inveterado sujeito apaixonado pelas insignificantes grandezas que a natureza incessantemente revela.
    A visão: o canário voando apavorado. Assentando em coisas que não poleiros de gaiola.
    O escritório, a grande gaiola. Um canário, decerto escapado de alguma gaiola displicente. O canário ante o inusitado da portinhola aberta. O espaço aberto, sem os arames feito paredes transparentes para maior ansiedade de quem vê a liberdade que não lhe deixam ter.
    Decerto, ensaiou o vôo. O espaço sem grades. Outro vôo. Mais outros. O quintal das árvores em que pousara. Ao lado, a janela do escritório, ampla, com grade. Lembrou-lhe a gaiola. Assentou na grade. Entrou no escritório. A grande gaiola.
    E então se deu conta do engano. A gaiola mínima não era. Estava dentro de outra muito mais     ampla. Não havia ali alpiste. Ali não havia cocho de água. Tampouco havia ali as folhas de verduras dependuradas. Outras coisas. Impróprias a gaiolas. Podia alçar, isto sim, pequenos vôos mais longos. Assentar em patamares sem que os pés pudessem abarcá-los. Isto o cansava mais. O hábito antigo abruptamente interrompido. Não sabia ao certo que fazer. Parecia-lhe ver uma abertura por onde pudesse passar. Todavia tinha medo, pois ao mesmo tempo lhe parecia também intransponível. Assentou numa haste que mais lhe parecia os seus poleiros habituais. Até pôde envolvê-la com seus pés. E aí gorjeou como se em sua gaiola. Evacuou, como se em sua gaiola. Pôs-se a higienizar-se como todos os pássaros. Quando naquele claro semelhante ao da portinhola de aberta gaiola surgiu um homem que lhe era estranho. Assustou-se. E se pôs a voar pela grande gaiola, sem saber o que representava aquele seu vôo, se medo, se recusa a quaisquer proximidades, se demonstração de não-domesticidade, se desejo de ganhar a completa liberdade. Não sabia, não pensava, apenas voava, voava. E assentava. Voava, voava e assentava. O homem extático na portinholona apenas olhava. Depois passou a agir de forma evidente de quem tentava apanhá-lo, para seu maior desespero.
    Foi apenas aquele susto comum de ter se deparado com mais um pássaro em seu escritório atrelado ao quintal de várias árvores, para o qual a ampla janela se abre. Canário muito caro. Veio-lhe o antigo conhecimento de menino que teve um amigo colecionador desses pássaros de gaiola competidores de prêmios vultuosos em disputas de gorjeios. Canário da Terra. Canário do Reino.
    Era um canário do reino. Soma valiosa perdida para a dor de dólares de seu dono. Ficou na soleira da porta a admirá-lo. Quase exatamente como das outras vezes com os outros que por ali passaram, ou se perderam. Até gorjeio de presente ganhou. Gorjeio lindo. Que nunca mais ouvira. Apenas maculou sua alegria a lembrança de vê-los e ouvi-los assim em gaiolas. Enquanto cogitava sobre o que fazer com canário assim aparecido.
    Reaprisioná-lo para seu desesperado dono que, de porta em porta, passará pela sua porta suspiroso por canário seu de estimação escapado por ocasião de displicente limpeza de gaiola. Receio de pô-lo escritório pra fora, que pássaro de gaiola perde por completo sua essência: ser livre por natureza.
    O canário, entretanto, procedia como procedera o bem-te-vi, como procedera o periquito, como procedera o beija-flor (que mais ainda lhe viria? Quisera Deus que muitos outros!). Voava para todos os lados do escritório. Mal assentava nalgum canto e recomeçava a voar. Tal qual se comportaram os outros curiosos visitantes.
    Então decidiu também ele proceder como procedera com os outros. E o canário acabou agindo exatamente como os outros. Encontrou, por fim, o gradil da janela por onde entrara. Assentou nele. Olhou por instantes para dentro. E voou para o cajueiro.

 


Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003, Poetagem - www.poetagem.com.br

Site Produzido por Espaço Cibernético Espaço Cibernético