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Relances

Data 31/out/2003

    Menino, ia à caça. Pelos cafezais. Onde perseguia pássaros de árvores. Pássaros de porte médio e médio-grande. Nas roças de milho ou de arroz, ou de feijão. Roças em estado de pós-colheita. Ali a caça predileta era os nambus, as codornas. E a esperançosa vontade de um dia topar com uma rara perdiz. Esta nem conhecia. Apenas ouvira descrições e dela guardava uma figura que um jornal dos que o avô assinava um dia trouxera. Soube que se tratava, aquele pássaro, de uma perdiz. Meio aparentada com a codorna. Achou-a bonita. E acordou-lhe o desejo intenso de encontrá-la, como às codornas e nambus naquelas roças de pós-colheita.
    A arma era o estilingue. Forquilha de pé-de-leiteiro, a preferida. Os projéteis, pelotas de argila que fabricava e armazenava. Por mais que procurasse não esperdiçá-las, elas acabavam. A temporada de férias eram as de fim de ano principalmente. Então o adolescente, predador, devassava o pomar para abastecer seu arsenal. Munia-se de goiabinhas e limões galegos em fase de formação. Que a caça se dava em fazenda que o avô administrasse.
    A caça se fazia à mercê do acaso. A intuição e a experiência levavam o mirim-caçador aos lugares mais prováveis em que se concentravam pombas, rolinhas, nambus, codornas (ah! uma perdiz). A caça, muitos mais que a obsessão esmerada em matar e tornar com significativa quantidade, aval indiscutível à perícia do caçador, facultava a ele a solidão e solicitude quase plena para o seu eu aberto ao seu mundo. Isso muito mais movia o caçador para o cafezal, para o campo, para as roças entre matas.
    Aquele ermo mundo o arrebatava. Os vários cantos e pios. Muitos que aos pouco aprendera a conhecer. Sabia-os. Deleitava-se em ouvi-los, vê-los, em ver os riachos com os aromas que o campo emanava pelo ar. E repelia os maus cheiros de carniças de bicho morto na mata, no pasto. Visitava suas duas ou três arapucas postas em pontos mais esconsos dos roçados. E os pássaros, eventualmente presos, soltava-os. Que no fundo no fundo queria era aprisionar uma perdiz para tê-la por alguns momentos como sua. Apreciar seu acarijozado, seu porte elegante e, satisfeito, decerto, deixá-la ir embora.
    Toda vez, para sempre, que um gavião vê, lembra-se da comovente cena. Enorme árvore no meio da roça. Havia nela três ou quatro dela. Fora, a seu modo, escondendo-se até aproximar-se do permitido pela grande juriti que já nervosa oscilava o pescoço, sentindo o perigo. Mas fê-lo suspender o tiro e a pomba pôr-se embora o grito estridente de um grande gavião-carcará dando vôos circulares no mesmo lugar-espaço. Depois, deu um rasante à roça, como se um bimotor aterrissando. E mal tocando o solo, decolou tendo numa das garras um animal. Era um preá. Que bem pôde ver, porque a decolagem se fez sobre ele. Voltou para casa com aquilo. Que nunca mais o deixou.
    Os filhos pequenos. Em suas brincadeiras com eles, contava-lhe estórias. E uma predileta deles, que o pai contava no início e no fim da série das mesmas, tinha de ser a do gavião Pinhé-Pinhé que uma vez pegou um preá com o pé. A cada contagem, nova roupagem.
    Desapareceu o administrador de fazenda. Os filhos de tornaram pais. E daí a pouco começaram a vir os netos. Não era um avô administrador de fazenda. Todavia sempre mantivera um quintal povoado de árvores frutíferas e jardim, onde os filhos brincaram e pássaros residem ou se recreiam. Em seus cismares ante o quintal de pomares, e flores, e relvas, e pássaros pensa no mundo que será dos netos.

 


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