Menino, ia à caça. Pelos
cafezais. Onde perseguia pássaros de árvores.
Pássaros de porte médio e médio-grande.
Nas roças de milho ou de arroz, ou de feijão.
Roças em estado de pós-colheita. Ali a caça
predileta era os nambus, as codornas. E a esperançosa
vontade de um dia topar com uma rara perdiz. Esta nem conhecia.
Apenas ouvira descrições e dela guardava uma
figura que um jornal dos que o avô assinava um dia trouxera.
Soube que se tratava, aquele pássaro, de uma perdiz.
Meio aparentada com a codorna. Achou-a bonita. E acordou-lhe
o desejo intenso de encontrá-la, como às codornas
e nambus naquelas roças de pós-colheita.
A arma era o estilingue. Forquilha
de pé-de-leiteiro, a preferida. Os projéteis,
pelotas de argila que fabricava e armazenava. Por mais que
procurasse não esperdiçá-las, elas acabavam.
A temporada de férias eram as de fim de ano principalmente.
Então o adolescente, predador, devassava o pomar para
abastecer seu arsenal. Munia-se de goiabinhas e limões
galegos em fase de formação. Que a caça
se dava em fazenda que o avô administrasse.
A caça se fazia à mercê
do acaso. A intuição e a experiência levavam
o mirim-caçador aos lugares mais prováveis em
que se concentravam pombas, rolinhas, nambus, codornas (ah!
uma perdiz). A caça, muitos mais que a obsessão
esmerada em matar e tornar com significativa quantidade, aval
indiscutível à perícia do caçador,
facultava a ele a solidão e solicitude quase plena
para o seu eu aberto ao seu mundo. Isso muito mais movia o
caçador para o cafezal, para o campo, para as roças
entre matas.
Aquele ermo mundo o arrebatava. Os
vários cantos e pios. Muitos que aos pouco aprendera
a conhecer. Sabia-os. Deleitava-se em ouvi-los, vê-los,
em ver os riachos com os aromas que o campo emanava pelo ar.
E repelia os maus cheiros de carniças de bicho morto
na mata, no pasto. Visitava suas duas ou três arapucas
postas em pontos mais esconsos dos roçados. E os pássaros,
eventualmente presos, soltava-os. Que no fundo no fundo queria
era aprisionar uma perdiz para tê-la por alguns momentos
como sua. Apreciar seu acarijozado, seu porte elegante e,
satisfeito, decerto, deixá-la ir embora.
Toda vez, para sempre, que um gavião
vê, lembra-se da comovente cena. Enorme árvore
no meio da roça. Havia nela três ou quatro dela.
Fora, a seu modo, escondendo-se até aproximar-se do
permitido pela grande juriti que já nervosa oscilava
o pescoço, sentindo o perigo. Mas fê-lo suspender
o tiro e a pomba pôr-se embora o grito estridente de
um grande gavião-carcará dando vôos circulares
no mesmo lugar-espaço. Depois, deu um rasante à
roça, como se um bimotor aterrissando. E mal tocando
o solo, decolou tendo numa das garras um animal. Era um preá.
Que bem pôde ver, porque a decolagem se fez sobre ele.
Voltou para casa com aquilo. Que nunca mais o deixou.
Os filhos pequenos. Em suas brincadeiras
com eles, contava-lhe estórias. E uma predileta deles,
que o pai contava no início e no fim da série
das mesmas, tinha de ser a do gavião Pinhé-Pinhé
que uma vez pegou um preá com o pé. A cada contagem,
nova roupagem.
Desapareceu o administrador de fazenda.
Os filhos de tornaram pais. E daí a pouco começaram
a vir os netos. Não era um avô administrador
de fazenda. Todavia sempre mantivera um quintal povoado de
árvores frutíferas e jardim, onde os filhos
brincaram e pássaros residem ou se recreiam. Em seus
cismares ante o quintal de pomares, e flores, e relvas, e
pássaros pensa no mundo que será dos netos.