Programava sua atuação.
Tornou-se assim muito cedo. Algum tempo relutou contra essa
compulsão amalucada a seu ver. Depois aceitou. Aquietou-lhe
o fato de que não se deixara pelo menos escravizar-se
por seus projetos. Mudou-os e os muda quase sempre. Recompõe-os
tanto que acabam sendo completamente outros. Eliminou vários
por estar rumando na contramão. Mas erigiu outro em
função do rumo novo.
Isso era tudo. Desvencilhar-se, porém,
desta compulsão em elaborar um projeto que traçasse
suas ações próximas impossível.
Modificá-las no percurso, sim. Recompô-las por
adequações ao instante que as desenvolvia, sim.
Eximi-las por completo, porque obsoletas já, ou porque
o que se enunciava não se fazia conforme, sim.
Tal se tornara sua forma de conduta.
Os que lhe tinham intimidade se acostumaram em tê-lo
assim. Nada mais havia de estranhável. Aliás,
o estranhável seria, agora, uma abrupta ruptura naquela
rotina. Tudo dele se sabia projetado.
Então, em suas projeções,
a sua morte também era categoria contábil. Estabelecera
que ela aconteceria na década entre os setenta e os
oitenta anos. Resultado de ponderações em que
fatores como longevidade familiar, doenças genéticas,
qualidade de vida e que tais se inter-relacionavam.
E um dos planos para esse período,
setenta entrado, fora posto em prática. Consistia ele
em presentear filhos, sobrinhos, netos, bisnetos e demais
parentes e amigos com seus bens conservados livros. Era dono
de uma biblioteca invejável. Costumava dizer que seus
bens eram de prateleiras. Aniversários. Homenagens.
Promoções. Aprovações e distinções.
Todos dignos de um livro devido de sua estante. Em cada presente
constava da dedicatória a lapidar frase Para
você sempre se lembrar de mim.
Findando os setenta de sua vida
dez anos presenteando com seus livros as prateleiras
estavam vazias. Continuava, contudo, leitor voraz. Agora lia
descompromissadamente. Lia o que absolutamente deliberasse
ler. Sentia-se um leitor completamente livre. Somente agora
sua leitura deixara efetivamente de ser obrigatória.
Sempre dissera que toda leitura era obrigatória. Que
muito pouco se lê por livre escolha. Ler poesia, ler
romances, somente a furtos, pois que os compêndios técnicos
aos borbotões produzidos se enfileiram exigindo leitura.
Setentão entregue a sua liberdade.
Doía-lhe apenas que para tanto lhe restasse tão
pouco. Que para isso precisou atingir a velhice com boa saúde.
Enfim, Deus fosse louvado. Entregava-se a Borges, a João
Guimarães, a Dostoiévski, a Proust, a Kafka,
a Drummond, a Saramago, a Tomas Man, a Shakespeare, a Cervantes.
E os novos. Muito bons escritores, poetas no mercado, dos
quais mal ouvira dizer. Lia-os. Lia-os. Passeava. Ir por aí
ver a rua. Conferir um show musical.
Euforicamente vivendo. Estava assim
tão entregue, que, súbito, um dia constatou
outra singularidade. É que desde então não
mais planejara sua vida. Vivia completamente a seu sabor.
E outro espanto: mal havia dado conta de que os oitenta avançavam.
E a morte não viera. Sequer acenara-lhe numa ocasião
qualquer. Continuava inteiramente tomado de vida. A velhice
era sua plenitude. É certo que as coisas ocorriam num
ritmo apropriado a ancião. Todavia, era uma raríssima
situação
E em que daria aquela vida? As doenças
não vinham. A morte vinha. Mas longe estava de ser
sozinho pro mundo. Netos, livros, passeios. Estremeceu, quando
começou a sentir-se invadido pela idéia de reorganizar
sua vida. Planejar-se! Estabelecer os horários. Agendar
o cabeleireiro. A roupa à lavanderia. As compras básicas
da semana. Os horários à academia de exercícios.
E em meio a essas repentinas preocupações imiscuiu-se
uma fala persistente a dizer-lhe que a morte começara
a lhe fazer ronda.