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Excentricidade

Data 17/out/2003

    Programava sua atuação. Tornou-se assim muito cedo. Algum tempo relutou contra essa compulsão amalucada a seu ver. Depois aceitou. Aquietou-lhe o fato de que não se deixara pelo menos escravizar-se por seus projetos. Mudou-os e os muda quase sempre. Recompõe-os tanto que acabam sendo completamente outros. Eliminou vários por estar rumando na contramão. Mas erigiu outro em função do rumo novo.
    Isso era tudo. Desvencilhar-se, porém, desta compulsão em elaborar um projeto que traçasse suas ações próximas impossível. Modificá-las no percurso, sim. Recompô-las por adequações ao instante que as desenvolvia, sim. Eximi-las por completo, porque obsoletas já, ou porque o que se enunciava não se fazia conforme, sim.
    Tal se tornara sua forma de conduta. Os que lhe tinham intimidade se acostumaram em tê-lo assim. Nada mais havia de estranhável. Aliás, o estranhável seria, agora, uma abrupta ruptura naquela rotina. Tudo dele se sabia projetado.
    Então, em suas projeções, a sua morte também era categoria contábil. Estabelecera que ela aconteceria na década entre os setenta e os oitenta anos. Resultado de ponderações em que fatores como longevidade familiar, doenças genéticas, qualidade de vida e que tais se inter-relacionavam.
    E um dos planos para esse período, setenta entrado, fora posto em prática. Consistia ele em presentear filhos, sobrinhos, netos, bisnetos e demais parentes e amigos com seus bens conservados livros. Era dono de uma biblioteca invejável. Costumava dizer que seus bens eram de prateleiras. Aniversários. Homenagens. Promoções. Aprovações e distinções. Todos dignos de um livro devido de sua estante. Em cada presente constava da dedicatória a lapidar frase “Para você sempre se lembrar de mim”.
    Findando os setenta de sua vida – dez anos presenteando com seus livros – as prateleiras estavam vazias. Continuava, contudo, leitor voraz. Agora lia descompromissadamente. Lia o que absolutamente deliberasse ler. Sentia-se um leitor completamente livre. Somente agora sua leitura deixara efetivamente de ser obrigatória. Sempre dissera que toda leitura era obrigatória. Que muito pouco se lê por livre escolha. Ler poesia, ler romances, somente a furtos, pois que os compêndios técnicos aos borbotões produzidos se enfileiram exigindo leitura.
    Setentão entregue a sua liberdade. Doía-lhe apenas que para tanto lhe restasse tão pouco. Que para isso precisou atingir a velhice com boa saúde. Enfim, Deus fosse louvado. Entregava-se a Borges, a João Guimarães, a Dostoiévski, a Proust, a Kafka, a Drummond, a Saramago, a Tomas Man, a Shakespeare, a Cervantes. E os novos. Muito bons escritores, poetas no mercado, dos quais mal ouvira dizer. Lia-os. Lia-os. Passeava. Ir por aí ver a rua. Conferir um show musical.
    Euforicamente vivendo. Estava assim tão entregue, que, súbito, um dia constatou outra singularidade. É que desde então não mais planejara sua vida. Vivia completamente a seu sabor. E outro espanto: mal havia dado conta de que os oitenta avançavam. E a morte não viera. Sequer acenara-lhe numa ocasião qualquer. Continuava inteiramente tomado de vida. A velhice era sua plenitude. É certo que as coisas ocorriam num ritmo apropriado a ancião. Todavia, era uma raríssima situação
    E em que daria aquela vida? As doenças não vinham. A morte vinha. Mas longe estava de ser sozinho pro mundo. Netos, livros, passeios. Estremeceu, quando começou a sentir-se invadido pela idéia de reorganizar sua vida. Planejar-se! Estabelecer os horários. Agendar o cabeleireiro. A roupa à lavanderia. As compras básicas da semana. Os horários à academia de exercícios. E em meio a essas repentinas preocupações imiscuiu-se uma fala persistente a dizer-lhe que a morte começara a lhe fazer ronda.

 


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