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Ir e vir

Data 10/out/2003

    Ir. Vir. Ritmo binário opositivo que a tudo e todos conduz. Inescapável medida que o mundo governa. Ficar, por mais durável, é impermanente. Ainda que seja isso o maior anseio. Sobretudo da vida.
    A vida quer ficar. Ficar com o cognoscível. Ficar com o que às mãos atende; ao corpo se estende; à cabeça apazigua. Ficar com o bem-estar. Com o que se produz, se faz e se traduz em felicidade. O lugar que a ancora, a felicidade, se quer, sempre, eternamente. Ali fincar raiz. Derivar o nome. Implementar posses.
    Ficar é a certeza de conservação. Ainda que por vezes assim não seja. O domínio do com que se convive; do que se sabe onde, do quem se sabe que é; dos lugares em que se tem guarida, em que se acumplicia, em que se instrui. Lugar dos que devem estar sempre medindo; ao que não se pode nunca fechar os olhos e ouvidos. Lugares amigos. Lugares inimigos. Demarcados. Territórios consabidos, respeitados.
    Todavia, mesmo quando se fica, não se deixa de ir e vir. Ir e vir é vital. É certo que já sejam preestabelecidos os destinos. É certo, assim, que ao se ir já se tem a certeza do vir. É certo: ir e vir, ir e vir são o mecanismo binário-opositivo para a regra da vida. Ir ao sanitário; ao pote d`água; à mesa de repastos; ao banho do corpo; à cama; ir ao médico, ir ao dentista, ir ao mercado.
    Também ir a bailes; ir ao cinema; ir a bares; ir a restaurantes; ir a festas; ir ao cinema; ir à casa dos amigos; ir à casa dos pais; ir à casa dos filhos; ir em busca do tempo perdido. Mas também ir ao trabalho; ir ao banco; ir à escola; ir à igreja; ir a velório; ir a reuniões; ir ao despachante; ir à delegacia de polícia. Ida, enfim, cuja volta é custosa; ida por cuja volta se anseia ainda na ida.
    Há o ir sem querer e cujo vir suposto é o alento que àquele sustenta. Vir, horizonte possível. Que imanta um ir dilacerante; ir por déspotas imposto. Ir para plagas não-pátria e, no entanto, no instante em que se foi, pátria se faz. Ali, acoitado, apascentando a volta. Que a rejeição não é da pátria, mas de certos truculentos autoproclamados pais da pátria.
    Outro ir também imposto por um Estado. Estado que se circunstancia em um conglomerado de homens. Os quais se arvoram eleitos com direitos de decisão pela vida e morte de concidadão ou não. E estes a mando vão. Quase nunca sabem claro por quê. E se vão, contrariados ou não, alentam-se com o que seja compensação. E vão, não pelo ir, mas pelo vir. A volta é que os faz enfrentar a ida. A razão da ida não é deles. Pertence aos que têm o poder de mandar ir. Mas têm igualmente a astúcia de saber enunciar o vir. Pois sabem muito bem que será um sedutor vir o móvel maior do ir.
    Outro é o ir a que ainda não se foi. O ir inicial. Ir pela vez primeira. Um ir necessário para a condição de ser. Ir ao vácuo do espaço dos primeiros passos; dos primeiros vôos; da primeira caça, do primeiro encontro, do primeiro confronto, do primeiro trabalho, do primeiro nado, do primeiro salto, da primeira incisão, da primeira aplicação, do primeiro assalto, da primeira tragada, dos primeiro assassínio. Ir cujo vir dele está impregnado.
    Ir que implica vir, que implica ir, que implica... eis tudo. Eis o mundo. A noite que implica o dia. A seca que implica a chuva. O novo que implica o velho. O vento que implica a calmaria. A ignorância que implica o saber. A ciência que implica a intuição. A necessidade que implica a invenção.
    Mas há um ir de mendigo, ir de andarilho: ir alienado; um ir sem vir; um ir por ir; um ir que, se acaso, súbito, se faça um vir, é, em verdade, o mesmo ir; é um ir-vir; ir para o não se sabe onde; ir em busca de si mesmo. Um ir em busca de mim, de quem para sempre parece que me perdi. E há o ir que é o fim. O grande paradoxo: o vir que está no princípio e o ir que está no fim.

 


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