Ir. Vir. Ritmo binário opositivo
que a tudo e todos conduz. Inescapável medida que o
mundo governa. Ficar, por mais durável, é impermanente.
Ainda que seja isso o maior anseio. Sobretudo da vida.
A vida quer ficar. Ficar com o cognoscível.
Ficar com o que às mãos atende; ao corpo se
estende; à cabeça apazigua. Ficar com o bem-estar.
Com o que se produz, se faz e se traduz em felicidade. O lugar
que a ancora, a felicidade, se quer, sempre, eternamente.
Ali fincar raiz. Derivar o nome. Implementar posses.
Ficar é a certeza de conservação.
Ainda que por vezes assim não seja. O domínio
do com que se convive; do que se sabe onde, do quem se sabe
que é; dos lugares em que se tem guarida, em que se
acumplicia, em que se instrui. Lugar dos que devem estar sempre
medindo; ao que não se pode nunca fechar os olhos e
ouvidos. Lugares amigos. Lugares inimigos. Demarcados. Territórios
consabidos, respeitados.
Todavia, mesmo quando se fica, não
se deixa de ir e vir. Ir e vir é vital. É certo
que já sejam preestabelecidos os destinos. É
certo, assim, que ao se ir já se tem a certeza do vir.
É certo: ir e vir, ir e vir são o mecanismo
binário-opositivo para a regra da vida. Ir ao sanitário;
ao pote d`água; à mesa de repastos; ao banho
do corpo; à cama; ir ao médico, ir ao dentista,
ir ao mercado.
Também ir a bailes; ir ao cinema;
ir a bares; ir a restaurantes; ir a festas; ir ao cinema;
ir à casa dos amigos; ir à casa dos pais; ir
à casa dos filhos; ir em busca do tempo perdido. Mas
também ir ao trabalho; ir ao banco; ir à escola;
ir à igreja; ir a velório; ir a reuniões;
ir ao despachante; ir à delegacia de polícia.
Ida, enfim, cuja volta é custosa; ida por cuja volta
se anseia ainda na ida.
Há o ir sem querer e cujo vir
suposto é o alento que àquele sustenta. Vir,
horizonte possível. Que imanta um ir dilacerante; ir
por déspotas imposto. Ir para plagas não-pátria
e, no entanto, no instante em que se foi, pátria se
faz. Ali, acoitado, apascentando a volta. Que a rejeição
não é da pátria, mas de certos truculentos
autoproclamados pais da pátria.
Outro ir também imposto por
um Estado. Estado que se circunstancia em um conglomerado
de homens. Os quais se arvoram eleitos com direitos de decisão
pela vida e morte de concidadão ou não. E estes
a mando vão. Quase nunca sabem claro por quê.
E se vão, contrariados ou não, alentam-se com
o que seja compensação. E vão, não
pelo ir, mas pelo vir. A volta é que os faz enfrentar
a ida. A razão da ida não é deles. Pertence
aos que têm o poder de mandar ir. Mas têm igualmente
a astúcia de saber enunciar o vir. Pois sabem muito
bem que será um sedutor vir o móvel maior do
ir.
Outro é o ir a que ainda não
se foi. O ir inicial. Ir pela vez primeira. Um ir necessário
para a condição de ser. Ir ao vácuo do
espaço dos primeiros passos; dos primeiros vôos;
da primeira caça, do primeiro encontro, do primeiro
confronto, do primeiro trabalho, do primeiro nado, do primeiro
salto, da primeira incisão, da primeira aplicação,
do primeiro assalto, da primeira tragada, dos primeiro assassínio.
Ir cujo vir dele está impregnado.
Ir que implica vir, que implica ir,
que implica... eis tudo. Eis o mundo. A noite que implica
o dia. A seca que implica a chuva. O novo que implica o velho.
O vento que implica a calmaria. A ignorância que implica
o saber. A ciência que implica a intuição.
A necessidade que implica a invenção.
Mas há um ir de mendigo, ir
de andarilho: ir alienado; um ir sem vir; um ir por ir; um
ir que, se acaso, súbito, se faça um vir, é,
em verdade, o mesmo ir; é um ir-vir; ir para o não
se sabe onde; ir em busca de si mesmo. Um ir em busca de mim,
de quem para sempre parece que me perdi. E há o ir
que é o fim. O grande paradoxo: o vir que está
no princípio e o ir que está no fim.