Amar os bichos decerto também
começa do berço. O infante em meio a imagens
afáveis de gente vê, em concomitância,
outras. Não-gente que a ele estende olhares igualmente
fixos e demorados dizendo carinhos como os demais.
Os animais domésticos. Quando
a roça era lar, esse convívio dava-se tão
largo, que, muita vez, beirava o exotismo. Na roça,
nos seus quintais sem muro, espécies animais conviviam
em sua civilização livre. As aves várias
comiam do mesmo milho; bebiam do mesmo cocho; pastavam sua
esperteza para a infelicidade dos insetos. E pelas proximidades,
nos recantos do quintal, construíam seu ninho. Nos
pés de árvores, seus poleiros. E cães
e gatos entre elas.
As crianças por entre eles
cresciam. Com eles mantinham longas conversas. Tinham os seus
bichos de estimação. As crianças amavam
seus animais tanto quanto a seus pais. Miguilim, que tinha
um sem fim de amor pela mãe, tão menos não
amava os cachorros da fazenda: o Gigão, Caráter,
Rio-Belo e, especialmente, a Pingo de Ouro, uma cachorra
bondosa e pertencida de ninguém que sempre com
ele queria ficar. Quando não podia, tinha de, coração
partindo, ralhar firme. Ela ficava, ou tornava. Rabinho enfiado,
orelhinhas murchas. Amor de criança e de cão
se atraem e mais que quaisquer outros se doam. O menino mais
velho levou um cocorote da mãe. Saiu indignado para
chorar debaixo das catingueiras murchas. Lá, atrás
dele, se foi Baleia. E ficou a dar pulinhos diante dele, a
balançar o rabo, a dar latidos amigos. Então
o pequeno enterneceu-se, tomou-a no colo e pôs-se a
acariciá-la, enquanto ganhava lambidas consoladoras.
Os animais domésticos. Quando
as cidades tinham quintais eles eram comuns. Casas com suas
cercas de balaústre. Ou cercas em arame farpado. Quintais-viveiros.
Plantavam-se mandioca, milho, batata doce. Faziam jardim à
frente. Flores. As rosas principalmente. Em meio a isso, em
convivência, os bichos domésticos. As aves. Galinhas
com sua prole ali suficientemente bem criada. O quintal cultivado
se tornava para elas um lugar de também complementarem
seu alimento.
Mas os quintais foram se encurtando.
Casas cada vez mais. E para os quintais foram faltando espaços.
E ainda quando os houvesse, havia o caríssimo imposto
territorial urbano; havia a maior vulnerabilidade aos assaltos.
Quintal em cidade tornara-se dispendioso; perigoso; trabalhoso.
Quintal em cidade foi ficando sinônimo de supérfluo.
Feitas as contas, convinha não tê-lo. O que fora
auxílio orçamentário, paisagem restrita,
terapia natural, agora podia ser desassossego, estresse, despesas.
Ele, porém, compunha o anônimo
e independente grupo de pessoas que ainda não desistira
de quintais. Já não quintais para a mandioca,
para o milho, para a batata doce. Quintais apenas para se
ter e ver o verde; podar o verde; revolver a terra. E ter
os muitos pássaros. Os de morada e os de passagem.
Ter cães. Ter gatos. Que no quintal reinem. Um convívio
leve, benfazejo. Pássaros residindo nos galhos das
árvores. Como aquele querido bem-te-vi que de seu galho
toda manhã anuncia. Vê-lo toda noite no galho
próximo todo arrupiado em seu sono, é um doce
hábito. Latem os cães, roncam os motores dos
automóveis na rua , na garagem. E o bom bem-te-vi nem
aí. Entregue a seu sono solto de pássaro em
seu poleiro. Confiante de que a casa é com ele. Então
nada daquilo o atingirá. Coisas de gente cujo ritmo
é distinto. Mas que o respeitam. Que a poucos palmos
dele, tem-no como ente sacro.
Às vezes passa a noite fora
(coisa de seres livres). Mas torna. Quando aconteceu de ausentar-se
mais prolongadamente e numa manhã aparecer um bem-te-vi
morto ao pé do cajueiro em que ele reside, a casa ficou
em consternação de luto. Foi enterrado no cemitério
dos animais da casa: o recanto da acácia onde hoje
ela própria compõe o quadro dos mortos ali enterrados.
E naquela mesma noite, ao chegar em
casa com a madrugada, depois de tudo posto no seu lugar, de
hábito, olhou para o galho em que ele dormia e, pasmo,
olhando, reolhando, convenceu-se de que ele lá estava
e que o morto não era ele, teve uma vontade e acordar
a casa e anunciar a alegria. Mas reteve-se para o momento
adequado. E foi dormir feliz, mas pensando que de qualquer
modo era um bem-te-vi a menos no mundo.