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Destelurização

Data 03/out/2003

    Amar os bichos decerto também começa do berço. O infante em meio a imagens afáveis de gente vê, em concomitância, outras. Não-gente que a ele estende olhares igualmente fixos e demorados dizendo carinhos como os demais.
    Os animais domésticos. Quando a roça era lar, esse convívio dava-se tão largo, que, muita vez, beirava o exotismo. Na roça, nos seus quintais sem muro, espécies animais conviviam em sua civilização livre. As aves várias comiam do mesmo milho; bebiam do mesmo cocho; pastavam sua esperteza para a infelicidade dos insetos. E pelas proximidades, nos recantos do quintal, construíam seu ninho. Nos pés de árvores, seus poleiros. E cães e gatos entre elas.
    As crianças por entre eles cresciam. Com eles mantinham longas conversas. Tinham os seus bichos de estimação. As crianças amavam seus animais tanto quanto a seus pais. Miguilim, que tinha um sem fim de amor pela mãe, tão menos não amava os cachorros da fazenda: o Gigão, Caráter, Rio-Belo e, especialmente, a Pingo de Ouro, “uma cachorra bondosa e pertencida de ninguém” que sempre com ele queria ficar. Quando não podia, tinha de, coração partindo, ralhar firme. Ela ficava, ou tornava. Rabinho enfiado, orelhinhas murchas. Amor de criança e de cão se atraem e mais que quaisquer outros se doam. O menino mais velho levou um cocorote da mãe. Saiu indignado para chorar debaixo das catingueiras murchas. Lá, atrás dele, se foi Baleia. E ficou a dar pulinhos diante dele, a balançar o rabo, a dar latidos amigos. Então o pequeno enterneceu-se, tomou-a no colo e pôs-se a acariciá-la, enquanto ganhava lambidas consoladoras.
    Os animais domésticos. Quando as cidades tinham quintais eles eram comuns. Casas com suas cercas de balaústre. Ou cercas em arame farpado. Quintais-viveiros. Plantavam-se mandioca, milho, batata doce. Faziam jardim à frente. Flores. As rosas principalmente. Em meio a isso, em convivência, os bichos domésticos. As aves. Galinhas com sua prole ali suficientemente bem criada. O quintal cultivado se tornava para elas um lugar de também complementarem seu alimento.
    Mas os quintais foram se encurtando. Casas cada vez mais. E para os quintais foram faltando espaços. E ainda quando os houvesse, havia o caríssimo imposto territorial urbano; havia a maior vulnerabilidade aos assaltos. Quintal em cidade tornara-se dispendioso; perigoso; trabalhoso. Quintal em cidade foi ficando sinônimo de supérfluo. Feitas as contas, convinha não tê-lo. O que fora auxílio orçamentário, paisagem restrita, terapia natural, agora podia ser desassossego, estresse, despesas.
    Ele, porém, compunha o anônimo e independente grupo de pessoas que ainda não desistira de quintais. Já não quintais para a mandioca, para o milho, para a batata doce. Quintais apenas para se ter e ver o verde; podar o verde; revolver a terra. E ter os muitos pássaros. Os de morada e os de passagem. Ter cães. Ter gatos. Que no quintal reinem. Um convívio leve, benfazejo. Pássaros residindo nos galhos das árvores. Como aquele querido bem-te-vi que de seu galho toda manhã anuncia. Vê-lo toda noite no galho próximo todo arrupiado em seu sono, é um doce hábito. Latem os cães, roncam os motores dos automóveis na rua , na garagem. E o bom bem-te-vi nem aí. Entregue a seu sono solto de pássaro em seu poleiro. Confiante de que a casa é com ele. Então nada daquilo o atingirá. Coisas de gente cujo ritmo é distinto. Mas que o respeitam. Que a poucos palmos dele, tem-no como ente sacro.
    Às vezes passa a noite fora (coisa de seres livres). Mas torna. Quando aconteceu de ausentar-se mais prolongadamente e numa manhã aparecer um bem-te-vi morto ao pé do cajueiro em que ele reside, a casa ficou em consternação de luto. Foi enterrado no cemitério dos animais da casa: o recanto da acácia onde hoje ela própria compõe o quadro dos mortos ali enterrados.
    E naquela mesma noite, ao chegar em casa com a madrugada, depois de tudo posto no seu lugar, de hábito, olhou para o galho em que ele dormia e, pasmo, olhando, reolhando, convenceu-se de que ele lá estava e que o morto não era ele, teve uma vontade e acordar a casa e anunciar a alegria. Mas reteve-se para o momento adequado. E foi dormir feliz, mas pensando que de qualquer modo era um bem-te-vi a menos no mundo.

 


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