Trazer à tona o fundo indesejável
da dor dilacerante. Nada podia mais que aquela ansiada necessidade
de permanência sem fim. A vontade súplice que
assim fosse até o fim. Somente este era o desejável
fim. O fim mesmo. O fim trazido pelo acabamento da existência.
Pois que somente a existência não podia dele
prescindir.
Todavia essa mesma existência
carregava no bojo o que não lhe era favorável.
A sua história era a de que, posto não fosse
chama, tudo que a compunha, por mais duradoura, atingiria
seu fatídico limite. Ele próprio sabia muito
bem disso. Muito antes que se desabasse ao abismo indevassável
do nada a que o cortejo da morte conduz, o homem, qualquer
homem, contará, em seu currículo impublicável,
vários ou inumeráveis fins. O fim do bebê.
O fim da criança. O fim da adolescência. O fim
da juventude. O fim da maturidade. E o fim da velhice, o definitivo.
Estes são inquestionavelmente, pois que inerentes à
sua própria condição humana. Fins suportáveis,
porque em cada um desses estágios que se vive, se aprende
de sua efemeridade.
Todavia, há fins insuportáveis,
como este que agora não podia admitir (E ressoava-lhe
ao ouvido, quando assim pensava, e assim não parava
de pensar, a frase dramatúrgica de caracterização
sertaneja, bronca, simplória, roceira sim, mas
desgraçadamente atávica, segundo a qual, tudo
que é vivo, morre.)
Então o vívido estampado
vermelho da rosa, logo se finda. O bom frescor do verão,
se extinguirá para as inconveniências do inverno.
O aquecimento bom do café se fará intragavelmente
frio. Os perscrutantes olhos haverão de ressentir aos
óculos. A insaciável virilidade permeará
arrefecimentos. A força máscula identificará
flacidezes. O cão vigilante ganhará compridas
sonolências.
É o rio da vida em seu percurso
irretorquivelmente irrefreável rumo ao mar, fim. Um
rio é um rio e seu fio d`água pouco, caldaloso,
leitoso. Um rio é sua paisagem. Com sua mata ciliar
preservada. Ou devastada. Com seus bichos silvestres e domésticos.
Aos quais dá de beber. Aos quais apascenta com a tepidez
ou frescor de sua águas. Um rio é seus destroços,
seus dejetos que sua gente ribeirinha, que sua gente citadina
lhe imputam. Um rio é seus serviços prestados.
Aos sistemas de irrigação agrícolas.
Aos abastecimentos, às sedes, às limpezas, aos
serviços industrializados, aos banhos e demais higienes,
aos cozimentos.
A tanto se presta e se empresta um
rio. Com tantos e tão diferentes convive um rio enquanto
vive a sua sina. Todo rio é um rio. Cada um com sua
peculiaridade. Com seus caracteres. Todavia, todos vão
à grande vala comum. Todo rio acaba em mar. Um mar
é nenhum e todos os rios.
A perenidade cabe a nada. A eternidade
certamente não existe. Eterno é o instante,
o presente acontecendo. Verdade que certas coisas ficam ou
permanecem. Parecem perenizar porque a comodidade destas certas
coisas exige. O perene aparente. Quando se sabe não
mais o mesmo muitas vezes. Entretanto assim ficam. Certos
ídolos. Certos mitos. Certos deuses. Certas vozes.
Certos hinos. Certas músicas. Certas mulheres. Certos
homens.
Construíra hipóteses.
E a elas traçara possibilidades as quais fora averiguando
uma a uma concomitantemente. Na verdade, resguardava, a certeza
de sua afirmação. E era esta certeza que lhe
requeria a manutenção daquele estado. Nada haveria
de mais certo. Tudo a si ali houvera se concentrado. Seu sumo
bem. Seu sumo mal. O intrincado complexo do mal que faz bem;
do bem que faz mal. Tanger assim. Porque assim acendia-lhe
a luz da vida; o vigor da plenitude de seu ser ômega.
As
causas todas que a vida lhe continuasse trazendo, seriam bem-vindas,
conquanto aquela centelha fosse viva; mantida, permanecesse
aquecendo o fluxo de sua amplexa energia. A que lhe movia
a criação, que lhe incitava a invenção.
A que subsidiava a multiplicidade de seus afazeres. A que
o votava com alma, amor e paixão às causas que
lhe solicitavam. A que o fazia muitos sendo um. A que o destinava,
rio com suas competências prestativas e com seus destroços
e dejetos incômodos, a entregar-se aos outros, mar feitos.