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Relutância

Data 26/set/2003

    Trazer à tona o fundo indesejável da dor dilacerante. Nada podia mais que aquela ansiada necessidade de permanência sem fim. A vontade súplice que assim fosse até o fim. Somente este era o desejável fim. O fim mesmo. O fim trazido pelo acabamento da existência. Pois que somente a existência não podia dele prescindir.
    Todavia essa mesma existência carregava no bojo o que não lhe era favorável. A sua história era a de que, posto não fosse chama, tudo que a compunha, por mais duradoura, atingiria seu fatídico limite. Ele próprio sabia muito bem disso. Muito antes que se desabasse ao abismo indevassável do nada a que o cortejo da morte conduz, o homem, qualquer homem, contará, em seu currículo impublicável, vários ou inumeráveis fins. O fim do bebê. O fim da criança. O fim da adolescência. O fim da juventude. O fim da maturidade. E o fim da velhice, o definitivo. Estes são inquestionavelmente, pois que inerentes à sua própria condição humana. Fins suportáveis, porque em cada um desses estágios que se vive, se aprende de sua efemeridade.
    Todavia, há fins insuportáveis, como este que agora não podia admitir (E ressoava-lhe ao ouvido, quando assim pensava, e assim não parava de pensar, a frase dramatúrgica de caracterização sertaneja, bronca, simplória, roceira – sim, mas desgraçadamente atávica, segundo a qual, “tudo que é vivo, morre”.)
    Então o vívido estampado vermelho da rosa, logo se finda. O bom frescor do verão, se extinguirá para as inconveniências do inverno. O aquecimento bom do café se fará intragavelmente frio. Os perscrutantes olhos haverão de ressentir aos óculos. A insaciável virilidade permeará arrefecimentos. A força máscula identificará flacidezes. O cão vigilante ganhará compridas sonolências.
    É o rio da vida em seu percurso irretorquivelmente irrefreável rumo ao mar, fim. Um rio é um rio e seu fio d`água pouco, caldaloso, leitoso. Um rio é sua paisagem. Com sua mata ciliar preservada. Ou devastada. Com seus bichos silvestres e domésticos. Aos quais dá de beber. Aos quais apascenta com a tepidez ou frescor de sua águas. Um rio é seus destroços, seus dejetos que sua gente ribeirinha, que sua gente citadina lhe imputam. Um rio é seus serviços prestados. Aos sistemas de irrigação agrícolas. Aos abastecimentos, às sedes, às limpezas, aos serviços industrializados, aos banhos e demais higienes, aos cozimentos.
    A tanto se presta e se empresta um rio. Com tantos e tão diferentes convive um rio enquanto vive a sua sina. Todo rio é um rio. Cada um com sua peculiaridade. Com seus caracteres. Todavia, todos vão à grande vala comum. Todo rio acaba em mar. Um mar é nenhum e todos os rios.
    A perenidade cabe a nada. A eternidade certamente não existe. Eterno é o instante, o presente acontecendo. Verdade que certas coisas ficam ou permanecem. Parecem perenizar porque a comodidade destas certas coisas exige. O perene aparente. Quando se sabe não mais o mesmo muitas vezes. Entretanto assim ficam. Certos ídolos. Certos mitos. Certos deuses. Certas vozes. Certos hinos. Certas músicas. Certas mulheres. Certos homens.
    Construíra hipóteses. E a elas traçara possibilidades as quais fora averiguando uma a uma concomitantemente. Na verdade, resguardava, a certeza de sua afirmação. E era esta certeza que lhe requeria a manutenção daquele estado. Nada haveria de mais certo. Tudo a si ali houvera se concentrado. Seu sumo bem. Seu sumo mal. O intrincado complexo do mal que faz bem; do bem que faz mal. Tanger assim. Porque assim acendia-lhe a luz da vida; o vigor da plenitude de seu ser ômega.
    
As causas todas que a vida lhe continuasse trazendo, seriam bem-vindas, conquanto aquela centelha fosse viva; mantida, permanecesse aquecendo o fluxo de sua amplexa energia. A que lhe movia a criação, que lhe incitava a invenção. A que subsidiava a multiplicidade de seus afazeres. A que o votava com alma, amor e paixão às causas que lhe solicitavam. A que o fazia muitos sendo um. A que o destinava, rio com suas competências prestativas e com seus destroços e dejetos incômodos, a entregar-se aos outros, mar feitos.

 


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