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Os meninos da rua tinham casa

Data 19/set/2003

    Ficou um pouco recorrendo às instâncias de outrora. Não havia fatos que se configurassem à semelhança dos de agora. A infância tinha cara de infância. Assim ajuizava, quanto mais aprofundava-se nos arquivos da memória.
    Sim, a infância pobre trabalhava. A infância abastada brincava. Sim, a infância pobre acabava arrumando algum tempo em que também pudesse brincar. A infância rica recebia presentes sempre. Pelos aniversários: havia lautas festas. E os infantes amigos, colegas, nenhum pobre, por óbvio, compareciam com a tácita obrigação do presente à mão. Recebiam presentes pelas louváveis promoções escolares. Recebiam presentes pelo Natal. Recebiam presentes por ocasião da Páscoa. Presentes é a mais concreta manifestação de apreço, de elogio, de estímulo que um sujeito doa a outro sujeito.
    É certo que tais presentes objetificados, cuja dimensão está no pressuposto preço valioso, são acompanhados de apertos de mão, abraços, afagos, palavras de aplauso. Atitudes tão presentes quanto aqueles. Talvez, se não apenas acompanhantes, se não apenas adjuvantes, se não apenas convencionas, talvez sejam presente mesmo. Afinal, vistos pelo avesso, tais se estariam fazendo presentes.
    Parecia a seu prisma de infante que os infantes pobres raramente recebiam presentes próximos aos dos infantes ricos. Na conta de presentes computavam os bens de necessidade. Assim, quando compravam um tecido para a confecção de uma camisa, de uma calça nova. A confecção de um vestido, uma saia, uma blusa nova. Quando compravam um par de sapatos, um par de meias.
    Infantes muito pobres residiam na roça. Criados feitos bicho do mato. Encolhidos. Criados para a enxada, para tanger gado, montar burro brabo; tombar terra. Cresciam compondo o enorme contingente de enrustidos analfabetos; de trabalhadores não-trabalhadores. Havia os pobres infantes da cidade. Menos pobres, talvez. Contudo aos presentes (presentes) também não faziam vez. Pais pedreiros, operários, pequenos funcionários. Pelo Natal, pelo menos um presentinho pintava. Boneca de pano. Caminhãozinho de madeira rústica acabavam agradando.
    O avesso do presente, o presente de se fazer presente, na verdade também ficava pela escassez. A pobreza não brutaliza, mas empedernece mais freqüentemente a alma. E a ternura é mais real, muito menos representada. Um afago na cabeça; um tapinha nas costas, no rosto. Um puxãozinho de orelha , no queixo; um sorriso leve e rápido. Afinal, sempre mantêm a forma carinhosa de constatar que somos pobres, mas nos amamos. E tais gestos eram suficientes para que se entendessem assim.
    Nas suas evocações, suas lembranças campeando o largo tempo decorrido não conseguiram captar um maltrato, uma ação violenta. Havia pais severíssimos e excessivos que disso aproximavam-se, quando se punham a aplicar as surras. Muita vez beiravam a violência. Raros, porém, esses eram. A recriminação geral, a desaprovação aberta muitas coerções exerciam sobre tais atos.
    Então, conquanto não houvesse, como não há, a disseminada possibilidade de ter e, portanto, o presente se ausentasse, o infante era filho. O infante sabia a pai, sabia a mãe. A escassez, a pobreza não eram passaporte ao descompromisso, ao descomprometimento. Fosse infante reduzido ao mínimo. Descalço o tempo todo, que calçado custava. Roupa mínima, que tecido custava. Mas as crianças se traziam em casa. O olhar de casa mantinha-as. Quase comum: a filharada. Mas, como crias, asseguradas. Que comessem angu com farinha. Mas para a fome sempre se obtinha.
    A vida pedia pouco. Pouco se pedia à vida: que se pudesse vivê-la com certa sintonia. De menor abandonado não lhe vinha imagem. É que não havia mesmo. Muito menos na roça, tampouco nas cidades. Meninos-trombadinha; meninos-aviõezinhos; meninos-maconha; meninos-cocaína; meninos-assassinos; meninos-exterminadores; exterminadores de meninos. Não. Não havia. Eram meninos pobres. E eram meninos ricos. Que acabavam em pais de família. E, não poucos, tornavam-se Pelé, Mané Garrincha, Rivelino e Ademir da Guia.

 


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