Ficou um pouco recorrendo às
instâncias de outrora. Não havia fatos que se
configurassem à semelhança dos de agora. A infância
tinha cara de infância. Assim ajuizava, quanto mais
aprofundava-se nos arquivos da memória.
Sim, a infância pobre trabalhava.
A infância abastada brincava. Sim, a infância
pobre acabava arrumando algum tempo em que também pudesse
brincar. A infância rica recebia presentes sempre. Pelos
aniversários: havia lautas festas. E os infantes amigos,
colegas, nenhum pobre, por óbvio, compareciam com a
tácita obrigação do presente à
mão. Recebiam presentes pelas louváveis promoções
escolares. Recebiam presentes pelo Natal. Recebiam presentes
por ocasião da Páscoa. Presentes é a
mais concreta manifestação de apreço,
de elogio, de estímulo que um sujeito doa a outro sujeito.
É certo que tais presentes
objetificados, cuja dimensão está no pressuposto
preço valioso, são acompanhados de apertos de
mão, abraços, afagos, palavras de aplauso. Atitudes
tão presentes quanto aqueles. Talvez, se não
apenas acompanhantes, se não apenas adjuvantes, se
não apenas convencionas, talvez sejam presente mesmo.
Afinal, vistos pelo avesso, tais se estariam fazendo presentes.
Parecia a seu prisma de infante que
os infantes pobres raramente recebiam presentes próximos
aos dos infantes ricos. Na conta de presentes computavam os
bens de necessidade. Assim, quando compravam um tecido para
a confecção de uma camisa, de uma calça
nova. A confecção de um vestido, uma saia, uma
blusa nova. Quando compravam um par de sapatos, um par de
meias.
Infantes muito pobres residiam na
roça. Criados feitos bicho do mato. Encolhidos. Criados
para a enxada, para tanger gado, montar burro brabo; tombar
terra. Cresciam compondo o enorme contingente de enrustidos
analfabetos; de trabalhadores não-trabalhadores. Havia
os pobres infantes da cidade. Menos pobres, talvez. Contudo
aos presentes (presentes) também não faziam
vez. Pais pedreiros, operários, pequenos funcionários.
Pelo Natal, pelo menos um presentinho pintava. Boneca de pano.
Caminhãozinho de madeira rústica acabavam agradando.
O avesso do presente, o presente de
se fazer presente, na verdade também ficava pela escassez.
A pobreza não brutaliza, mas empedernece mais freqüentemente
a alma. E a ternura é mais real, muito menos representada.
Um afago na cabeça; um tapinha nas costas, no rosto.
Um puxãozinho de orelha , no queixo; um sorriso leve
e rápido. Afinal, sempre mantêm a forma carinhosa
de constatar que somos pobres, mas nos amamos. E tais gestos
eram suficientes para que se entendessem assim.
Nas suas evocações,
suas lembranças campeando o largo tempo decorrido não
conseguiram captar um maltrato, uma ação violenta.
Havia pais severíssimos e excessivos que disso aproximavam-se,
quando se punham a aplicar as surras. Muita vez beiravam a
violência. Raros, porém, esses eram. A recriminação
geral, a desaprovação aberta muitas coerções
exerciam sobre tais atos.
Então, conquanto não
houvesse, como não há, a disseminada possibilidade
de ter e, portanto, o presente se ausentasse, o infante era
filho. O infante sabia a pai, sabia a mãe. A escassez,
a pobreza não eram passaporte ao descompromisso, ao
descomprometimento. Fosse infante reduzido ao mínimo.
Descalço o tempo todo, que calçado custava.
Roupa mínima, que tecido custava. Mas as crianças
se traziam em casa. O olhar de casa mantinha-as. Quase comum:
a filharada. Mas, como crias, asseguradas. Que comessem angu
com farinha. Mas para a fome sempre se obtinha.
A vida pedia pouco. Pouco se pedia
à vida: que se pudesse vivê-la com certa sintonia.
De menor abandonado não lhe vinha imagem. É
que não havia mesmo. Muito menos na roça, tampouco
nas cidades. Meninos-trombadinha; meninos-aviõezinhos;
meninos-maconha; meninos-cocaína; meninos-assassinos;
meninos-exterminadores; exterminadores de meninos. Não.
Não havia. Eram meninos pobres. E eram meninos ricos.
Que acabavam em pais de família. E, não poucos,
tornavam-se Pelé, Mané Garrincha, Rivelino e
Ademir da Guia.