Ao pé do rochedo uma árvore.
Enorme árvore. Sua grandeza, todavia, ficava ínfima,
dada a descomunal altivez do rochedo. Rochedo que parecia
ter sido fendido ao meio, tão enegrecido paredão
subia em sua íngreme verticalidade aos confins do seu
topo. Muito lá em cima dele seria outro mundo, a impressão
que dava. Uma mal vista, de nitidez precária, vegetação
se entrevia. A ilusão em tudo estampada queria o bom
senso que se admitisse estar vendo. Não se via o real.
Via-se o que as interferências do percurso espácio-temporal
que dele ia até o topo. E do topo até ele vinha.
Notara serem esvanecentes as flores
de lá reclinando. De lá sobrevoando. Flores
espantosamente não-flores que, entretanto, insistiam
em fazer tê-las como flores. Havia naquilo uma avassaladora
lembrança de que se tratava de flores. Não flores
do campo. Conquanto a inítida impressão do que
lá de cima chegava era a de vasto campo; mágico.
Como se o éden adormecido, cumprindo o destino de se
esconder dos homens ingratos até quando o inquestionável
despotismo de Deus desejasse.
Voláteis flores. Evolando pedúnculos
gigantescos que serpeiam em mobilidades heteromórficas
perpendiculares, retilíneas, encurvantes, espiralantes,
diagonalizantes. E as flores não-estando, estando neles,
despregadas, mal pregadas ululando suas cores. Como se astros
em átomos, mas muito nítidos, imiscuindo seus
aspectos, intrincados matizes não sendo azul, nem sendo
verde, evocando o roxo, rechaçando o vermelho, alaranjando
o negro, turvando o branco, cegando de amarelo. Ululantes
flores uivando estrepitosamente seus odores edênicos.
E o pânico disparado pela súbita
possibilidade estabelecida pela luta contra o pecado de que
se tratava, na verdade, de odores eróticos de sensualíssima
serpente maligna desejando de novo pôr tudo a perder.
Seria, por certo, a sereia de lá
do ansiado paraíso provocando frágeis, e inseguros,
e amedrontados, e abandonados homens (Pai, por que assim nos
tornastes, se sabíeis que não mais seríamos
Adão e Eva, mas que também pior ainda o em que
acabamos: predadores vorazes, capazes de a Vós mesmo
arrasarmos, não fosse vosso despotismo superior?!)
Amargurados e perdidos homens em sua inútil sabedoria
teimosa em fazer da terra o paraíso de que a ditadura
divina os escorraçara.
Todavia, maior era mesmo a ilusão.
E nada daquilo podia ser. Tudo não passava do insatisfeito
desejo de apossar-se do que figurava riqueza ainda inatingível
e desafiante à conquista. O topo era a meta. O topo
significava extensão do mando. Ali reorganizar a condição
humana. Abolir, ou melhor, começar sem que se permitissem
vadiagens; sem que se criassem MSTs; sem que fazendeiros estaquiassem
latifúndios estapafúrdios e ficassem a se achar
senhores feudais. Desmobilizar a possibilidade de megaempresários
donatários dominarem as urbes e com aqueles e com os
banqueiros, absolutos senhores manipuladores de todos os dinheiros;
sem que...; sem que...
Depois, pôs-se em sossego. O
topo era mais que sua utopia. E se às utopias não
se devem dispensar pressas, muito menos ao que além
delas fosse. As mágicas encantatórias persistiam
irresistivelmente sedutoras. Bastava relancear um olhar cobiçoso.
Mas aprendera com suas vitórias e derrotas que conquistas
são prêmios aos que fazem por efetivamente obtê-los,
quando tão-somente do senhorio conquistador dependem.
E aquele topo era o caso. Não
queria um novo paraíso. Não queria uma outra
ilusão divina: já existia a cada esquina. Não
queria a reconstrução do inacabado que continua
sendo. Não queria o que não fosse sua própria
passagem, brevíssima, como a de todos os que passaram
e hão de passar. Passagem que se inscrevesse na intrínseca
história de si mesmo. E que dela constasse: Foi homem.
Combateu pela vida, nela amou e por tais esteve até
findar-se.