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Utópico topo

Data 12/set/2003

    Ao pé do rochedo uma árvore. Enorme árvore. Sua grandeza, todavia, ficava ínfima, dada a descomunal altivez do rochedo. Rochedo que parecia ter sido fendido ao meio, tão enegrecido paredão subia em sua íngreme verticalidade aos confins do seu topo. Muito lá em cima dele seria outro mundo, a impressão que dava. Uma mal vista, de nitidez precária, vegetação se entrevia. A ilusão em tudo estampada queria o bom senso que se admitisse estar vendo. Não se via o real. Via-se o que as interferências do percurso espácio-temporal que dele ia até o topo. E do topo até ele vinha.
    Notara serem esvanecentes as flores de lá reclinando. De lá sobrevoando. Flores espantosamente não-flores que, entretanto, insistiam em fazer tê-las como flores. Havia naquilo uma avassaladora lembrança de que se tratava de flores. Não flores do campo. Conquanto a inítida impressão do que lá de cima chegava era a de vasto campo; mágico. Como se o éden adormecido, cumprindo o destino de se esconder dos homens ingratos até quando o inquestionável despotismo de Deus desejasse.
    Voláteis flores. Evolando pedúnculos gigantescos que serpeiam em mobilidades heteromórficas perpendiculares, retilíneas, encurvantes, espiralantes, diagonalizantes. E as flores não-estando, estando neles, despregadas, mal pregadas ululando suas cores. Como se astros em átomos, mas muito nítidos, imiscuindo seus aspectos, intrincados matizes não sendo azul, nem sendo verde, evocando o roxo, rechaçando o vermelho, alaranjando o negro, turvando o branco, cegando de amarelo. Ululantes flores uivando estrepitosamente seus odores edênicos.
    E o pânico disparado pela súbita possibilidade estabelecida pela luta contra o pecado de que se tratava, na verdade, de odores eróticos de sensualíssima serpente maligna desejando de novo pôr tudo a perder.
    Seria, por certo, a sereia de lá do ansiado paraíso provocando frágeis, e inseguros, e amedrontados, e abandonados homens (Pai, por que assim nos tornastes, se sabíeis que não mais seríamos Adão e Eva, mas que também pior ainda o em que acabamos: predadores vorazes, capazes de a Vós mesmo arrasarmos, não fosse vosso despotismo superior?!) Amargurados e perdidos homens em sua inútil sabedoria teimosa em fazer da terra o paraíso de que a ditadura divina os escorraçara.
    Todavia, maior era mesmo a ilusão. E nada daquilo podia ser. Tudo não passava do insatisfeito desejo de apossar-se do que figurava riqueza ainda inatingível e desafiante à conquista. O topo era a meta. O topo significava extensão do mando. Ali reorganizar a condição humana. Abolir, ou melhor, começar sem que se permitissem vadiagens; sem que se criassem MSTs; sem que fazendeiros estaquiassem latifúndios estapafúrdios e ficassem a se achar senhores feudais. Desmobilizar a possibilidade de megaempresários donatários dominarem as urbes e com aqueles e com os banqueiros, absolutos senhores manipuladores de todos os dinheiros; sem que...; sem que...
    Depois, pôs-se em sossego. O topo era mais que sua utopia. E se às utopias não se devem dispensar pressas, muito menos ao que além delas fosse. As mágicas encantatórias persistiam irresistivelmente sedutoras. Bastava relancear um olhar cobiçoso. Mas aprendera com suas vitórias e derrotas que conquistas são prêmios aos que fazem por efetivamente obtê-los, quando tão-somente do senhorio conquistador dependem.
    E aquele topo era o caso. Não queria um novo paraíso. Não queria uma outra ilusão divina: já existia a cada esquina. Não queria a reconstrução do inacabado que continua sendo. Não queria o que não fosse sua própria passagem, brevíssima, como a de todos os que passaram e hão de passar. Passagem que se inscrevesse na intrínseca história de si mesmo. E que dela constasse: Foi homem. Combateu pela vida, nela amou e por tais esteve até findar-se.

 


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