Quase modorrentamente percorria as
páginas dos jornais. Entre o hábito,e a necessida
de compulsão. Impossível não se dedicar
àquela ação. Não os
ver era a incompletude. A natureza cobrava, como à
comida, à bebida, à caminhada, ao banho, ao
amor.
Mas ali o mecânico talvez fosse
mais incidente. E freqüente. Interceptava-o, todavia,
alguns articulistas habituais e os não, principalmente.
A uns dedicava leitura obrigatória, ainda que ao término
os tomasse por desinteressantes, frouxos.
Domingo. Conquanto muitas vezes assim
não seja, espera-se sempre mais dos jornais aos domingos.
Não apenas as obviedades propagandísticas, os
volumosos cadernos do anuncie aqui. Há
a expectativa sobre a clareza deles de que, na preguiça
de domingo até quem não se dá ao hábito
diário do jornal bota bermuda, camiseta somente para
domingos e feriados, chinelos para o esparramamento dos pés
e vai à banca, de braços dados com a mulher
ou não; com cachorro de estimação à
coleira ou não; pedalando sua bicicleta ou não;
de mãos dadas com o neto (ou no colo, pois que o malandro
logo amua de fingido cansaço) ou não; em seu
automóvel, desta vez a 15, 20 km por hora, mulher,
geralmente ao lado, conversando desestressantes bobagens,
olhando a paisagem diária, de repente vendo o que ali
há tempo já existe, mas que durante a semana
não enxerga.
Ou então, numa miscelânea
destes procedimentos, vai à banca de jornal. Circunvaga
aquele cubículo-síntese do mundo anunciado muito
mais em imagens. Imagens supersensuais várias. Imagens
escabrosas de explosões, de atentados, massacres, assassinatos,
etc. Mas se depara também, se perscrutar o não
visível, com imagens de céu, astros, regatos,
matas, rios, mar, cães, gatos. E muitos, muitos esportes:
a grande moda que a sedentários crônicos muito
incomoda.
Às vezes, ali mesmo, a manchete
chamativa o pega. Leva um ou dois, ou ainda outros, os principais.
Torna a casa. Que o espera o esperto vinho, ou a gelada cerveja,
na expectativa da boa mesa domingueira. E o jornal acompanha
o bom vinho ou a saborosa cerveja. Ou a saborosa cerveja e
ou o vinho bom acompanham o jornal, enquanto o cheiro apetitoso
que vai tomando a casa é uma promessa de também
e daqui a pouco prazeroso repasto.
Depois, fará a merecida sesta.
Verá o futebol ou um programa de domingo na tevê
que não as mesmices mecânicas emburrecedoras
dos líderes de audiência (o que será uma
aventura conseguir). Se não, torna a algum resto de
jornal preterido na escolha, porém nem de todo desinteressante,
ou deixado pela hora do almoço já estourada.
À noite, cinema, raramente,
e cama; ou sofá e tevê, antecedentes com que
já se vai antecipadamente acostumando com a pressuposta
e entediante segunda-feira vinda. Que logo amanhecerá
com sua fisionomia de carrancuda disciplina para a longa semana
de trabalho.
Domingo desses, quando já ia
pela segunda cerveja e a casa começava a cogitar o
início do almoço, deu com uma notícia
no caderno de esportes esfusiante.
Palmeirense nato e descendente, assustou-se
ao se deparar com aquela foto estrambótica na primeira
página do jornal. O Divino do Parque Antártica,
o ídolo incontestável da nação
alvi-verde, portando uma camisa vermelha. Quando a camisa
que o imortalizara ao futebol palmeirense, brasileiro e mundial,
era a verde. A verde sui generis. Aquele tradicional. Um verde
meio claro, gola olímpica branca, arremate das mangas
branco, o distintivo e a numeração brancos.
Dizia a matéria, no entanto,
que Ademir da Guia filiara-se ao PC do B. A foto-montagem
trazia no vermelho da camisa o distintivo em foice e martelo.
O maestro da bola do grandioso Palmeiras fora convencido por
um deputado a tal procedimento.
Não se dissipara a sensação
de estranhamento do fato, mas tranqüilizara-se. E a memória
logo lhe trouxe, após o sossego, que o pai, vivo, ficaria
ainda mais defensor perpétuo da supremacia de Ademir.
Vira e acompanhara a história de glórias palmeirenses.
A passagens de astros incríveis. Todavia, sentenciava,
ninguém superara o talento, a habilidade estupenda,
mas simples e respeitosa, sem firulas; a mágica cadência
e elegância que imprimia ao jogo.
E agora Ademir da Guia apresentava
um outro aspecto que o tornaria perfeitíssimo aos olhos
do pai: pertencer a um partido cuja tese política
originária é corrigir todas as desigualdades
sociais humanas possíveis e perduráveis.
Para ele era o partido perfeito. Decerto
como o Ademir da Guia futebolista. Certamente diria que o
futebol de Ademir era de fato comunista.