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A comunização do divino

Data 05/set/2003

    Quase modorrentamente percorria as páginas dos jornais. Entre o hábito,e a necessida de compulsão. Impossível não se dedicar àquela “ação”. Não os ver era a incompletude. A natureza cobrava, como à comida, à bebida, à caminhada, ao banho, ao amor.
    Mas ali o mecânico talvez fosse mais incidente. E freqüente. Interceptava-o, todavia, alguns articulistas habituais e os não, principalmente. A uns dedicava leitura obrigatória, ainda que ao término os tomasse por desinteressantes, frouxos.
    Domingo. Conquanto muitas vezes assim não seja, espera-se sempre mais dos jornais aos domingos. Não apenas as obviedades propagandísticas, os volumosos cadernos do “anuncie aqui”. Há a expectativa sobre a clareza deles de que, na preguiça de domingo até quem não se dá ao hábito diário do jornal bota bermuda, camiseta somente para domingos e feriados, chinelos para o esparramamento dos pés e vai à banca, de braços dados com a mulher ou não; com cachorro de estimação à coleira ou não; pedalando sua bicicleta ou não; de mãos dadas com o neto (ou no colo, pois que o malandro logo amua de fingido cansaço) ou não; em seu automóvel, desta vez a 15, 20 km por hora, mulher, geralmente ao lado, conversando desestressantes bobagens, olhando a paisagem diária, de repente vendo o que ali há tempo já existe, mas que durante a semana não enxerga.
    Ou então, numa miscelânea destes procedimentos, vai à banca de jornal. Circunvaga aquele cubículo-síntese do mundo anunciado muito mais em imagens. Imagens supersensuais várias. Imagens escabrosas de explosões, de atentados, massacres, assassinatos, etc. Mas se depara também, se perscrutar o não visível, com imagens de céu, astros, regatos, matas, rios, mar, cães, gatos. E muitos, muitos esportes: a grande moda que a sedentários crônicos muito incomoda.
    Às vezes, ali mesmo, a manchete chamativa o pega. Leva um ou dois, ou ainda outros, os principais. Torna a casa. Que o espera o esperto vinho, ou a gelada cerveja, na expectativa da boa mesa domingueira. E o jornal acompanha o bom vinho ou a saborosa cerveja. Ou a saborosa cerveja e ou o vinho bom acompanham o jornal, enquanto o cheiro apetitoso que vai tomando a casa é uma promessa de também e daqui a pouco prazeroso repasto.
    Depois, fará a merecida sesta. Verá o futebol ou um programa de domingo na tevê que não as mesmices mecânicas emburrecedoras dos líderes de audiência (o que será uma aventura conseguir). Se não, torna a algum resto de jornal preterido na escolha, porém nem de todo desinteressante, ou deixado pela hora do almoço já estourada.
    À noite, cinema, raramente, e cama; ou sofá e tevê, antecedentes com que já se vai antecipadamente acostumando com a pressuposta e entediante segunda-feira vinda. Que logo amanhecerá com sua fisionomia de carrancuda disciplina para a longa semana de trabalho.
    Domingo desses, quando já ia pela segunda cerveja e a casa começava a cogitar o início do almoço, deu com uma notícia no caderno de esportes esfusiante.
    Palmeirense nato e descendente, assustou-se ao se deparar com aquela foto estrambótica na primeira página do jornal. O “Divino” do Parque Antártica, o ídolo incontestável da nação alvi-verde, portando uma camisa vermelha. Quando a camisa que o imortalizara ao futebol palmeirense, brasileiro e mundial, era a verde. A verde sui generis. Aquele tradicional. Um verde meio claro, gola olímpica branca, arremate das mangas branco, o distintivo e a numeração brancos.
    Dizia a matéria, no entanto, que Ademir da Guia filiara-se ao PC do B. A foto-montagem trazia no vermelho da camisa o distintivo em foice e martelo. O maestro da bola do grandioso Palmeiras fora convencido por um deputado a tal procedimento.
    Não se dissipara a sensação de estranhamento do fato, mas tranqüilizara-se. E a memória logo lhe trouxe, após o sossego, que o pai, vivo, ficaria ainda mais defensor perpétuo da supremacia de Ademir. Vira e acompanhara a história de glórias palmeirenses. A passagens de astros incríveis. Todavia, sentenciava, ninguém superara o talento, a habilidade estupenda, mas simples e respeitosa, sem firulas; a mágica cadência e elegância que imprimia ao jogo.
    E agora Ademir da Guia apresentava um outro aspecto que o tornaria perfeitíssimo aos olhos do pai: “pertencer a um partido cuja tese política originária é corrigir todas as desigualdades sociais humanas possíveis e perduráveis”.
    Para ele era o partido perfeito. Decerto como o Ademir da Guia futebolista. Certamente diria que o futebol de Ademir era de fato comunista.

 


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