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O salteador de astros ressurge

Data 28/ago/2003

    Noite fria. Tornava a casa. Agosto. O inseguro inverno incapaz de se sustentar. Todavia certas massas frias ficam um pouco. Como naquele dia que estava se levando ao fim. Frio acentuado.
    Pegou um cinema no shopping. A sessão última. Preferia. Pouquíssimas pessoas. Só a tela falava, fazia barulho. E naquele, meia dúzia. Com ele. Filme artístico. Mais silêncio ainda. Gostou. Iam se rarefazendo tais películas. Não dão bilheteria. Quase nenhuma ação motora. Muita fotografia. Simbologias. Músicas sutis, suaves. Avessas ao mercado. O mercado retribuía com profunda aversão. Pouco mais de dezena por sessão. Na última, menos de uma.
    Quando assim, quando raríssimo, desde logo, os cinéfilos da moda iam ao MacDonald; às praças de alimentação; às choperias; às boates; às danceterias. Desdenhavam cinema na ocasião. Filmes têm de ser para curtir. Nada de ficar ruminando mentalmente sobre. Quando então os cinéfilos avis-rara folgavam. Todavia tão raro, que em certos cine-lugarejos um ou outro, se tanto, antes da morte.
    O proprietário, embora mal sustentassem tais filmes durante uma semana, afligiam-se com a dispersão de seus recursos potenciais aplicados naqueles lugares, senão concorrentes, participantes na absorção dos mesmos clientes. Exibir fita artística não lhe fazia bem.
    A noite fria ia escura como de fato devia de ser as noites de inverno. Frias e escuras. Quando os astros estão mais plenos no céu negro. A lua fica mais translúcida em prata. Parece mais aconchegante. Escoimada decerto das nuvens, que o vento invernal as rarefazem.
É certo que o inverno - o vento incômodo de agosto - impõe a suspensão de hábitos. Então não sai à calçada com sua deliciosa cachaça onde na espreguiçadeira põe-se no confortável prazer de entre ler os jornais e contemplar os astros.
    No inverno gosta de dar-se àquele procedimento. Dispensa a cachaça, a cadeira de preguiça, os jornais. Noite a meio põe-se em sua jornada. Vai de ponto em ponto. Como se um ônibus-circular; como se o antigo trem passageiro. Seus pontos: três campos de bocha; três bares de bons bilhares; três botecos em que o truco faz sua algazarra.
    Em nenhum compete. Chega. Cumprimentos generalizados. Adere aos irônicos chistes, pois têm-no na conta de maníaco, andarilho aluado, lobsomem de inverno, corujão. Entre risos e tapinhas afetivos, beberica um cálice de vinho tinto. Despede-se ainda sob os ditos chistosos e vai ter a outra praça. E nesta estando, semelhante à anterior se dão os atos; e outras e outra vezes. E assim a sua noite culmina.
    Então, a parte de que mais gosta. A parte a que se entrega com unção. Apenas ele e a madrugada fria que se inicia. Os bares, e bochas, e trucos, e bilhares vão descansar-se para o dia seguinte; que todos cumprem a sua sina, a sua mania, o seu vício de rotina.
    Ele e a madrugada. Ele, a madrugada, a calçada e a rua negra e nua. Ele, a madrugada, a calçada mal iluminada, a rua, negra e nua, e o céu negro com seus astros e estrelas luminosos inteiramente à mostra. A lua, sua cara lua desembalsamada, límpida, inteira em sua nudez a se lhe dizer sua: tua, tua, toda tua!
    Vai confortavelmente agasalhado. Mãos nos bolsos. Passos mansos. Degustados. Vai como quem não tem nenhum encontro marcado. Vai. Leve, de braços dados com suas namoradas. Companheiras silenciosas que com ele afetuosamente estão. Pára em certa praça. Sobe ao coreto solitário. Palco solícito a seu dispor. Dali de cima contempla a cidade adormecida. Ainda sob os efeitos das luzes elétricas. Os neons esquecidos dizendo a mais ninguém.
    E foi naquele agosto findo em que assim cumpria seu notívago destino que se estupidificou com o tamanho de marte. Descomunal! Aquele discreto filão aurífero em leste, súbito surge feito um sol noturno singular. Ouro-jóia que à vista não fere.
    Ficou tomado. Depois, era hora. Foi-se. E enquanto caminhava com os olhos em marte presos, começava a cogitar as estratégias necessárias para arrebatá-lo para presente a seu amor.

 


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