Noite fria. Tornava a casa. Agosto.
O inseguro inverno incapaz de se sustentar. Todavia certas
massas frias ficam um pouco. Como naquele dia que estava se
levando ao fim. Frio acentuado.
Pegou um cinema no shopping. A sessão
última. Preferia. Pouquíssimas pessoas. Só
a tela falava, fazia barulho. E naquele, meia dúzia.
Com ele. Filme artístico. Mais silêncio ainda.
Gostou. Iam se rarefazendo tais películas. Não
dão bilheteria. Quase nenhuma ação motora.
Muita fotografia. Simbologias. Músicas sutis, suaves.
Avessas ao mercado. O mercado retribuía com profunda
aversão. Pouco mais de dezena por sessão. Na
última, menos de uma.
Quando assim, quando raríssimo,
desde logo, os cinéfilos da moda iam ao MacDonald;
às praças de alimentação; às
choperias; às boates; às danceterias. Desdenhavam
cinema na ocasião. Filmes têm de ser para curtir.
Nada de ficar ruminando mentalmente sobre. Quando então
os cinéfilos avis-rara folgavam. Todavia tão
raro, que em certos cine-lugarejos um ou outro, se tanto,
antes da morte.
O proprietário, embora mal
sustentassem tais filmes durante uma semana, afligiam-se com
a dispersão de seus recursos potenciais aplicados naqueles
lugares, senão concorrentes, participantes na absorção
dos mesmos clientes. Exibir fita artística não
lhe fazia bem.
A noite fria ia escura como de fato
devia de ser as noites de inverno. Frias e escuras. Quando
os astros estão mais plenos no céu negro. A
lua fica mais translúcida em prata. Parece mais aconchegante.
Escoimada decerto das nuvens, que o vento invernal as rarefazem.
É certo que o inverno - o vento incômodo de agosto
- impõe a suspensão de hábitos. Então
não sai à calçada com sua deliciosa cachaça
onde na espreguiçadeira põe-se no confortável
prazer de entre ler os jornais e contemplar os astros.
No inverno gosta de dar-se àquele
procedimento. Dispensa a cachaça, a cadeira de preguiça,
os jornais. Noite a meio põe-se em sua jornada. Vai
de ponto em ponto. Como se um ônibus-circular; como
se o antigo trem passageiro. Seus pontos: três campos
de bocha; três bares de bons bilhares; três botecos
em que o truco faz sua algazarra.
Em nenhum compete. Chega. Cumprimentos
generalizados. Adere aos irônicos chistes, pois têm-no
na conta de maníaco, andarilho aluado, lobsomem de
inverno, corujão. Entre risos e tapinhas afetivos,
beberica um cálice de vinho tinto. Despede-se ainda
sob os ditos chistosos e vai ter a outra praça. E nesta
estando, semelhante à anterior se dão os atos;
e outras e outra vezes. E assim a sua noite culmina.
Então, a parte de que mais
gosta. A parte a que se entrega com unção. Apenas
ele e a madrugada fria que se inicia. Os bares, e bochas,
e trucos, e bilhares vão descansar-se para o dia seguinte;
que todos cumprem a sua sina, a sua mania, o seu vício
de rotina.
Ele e a madrugada. Ele, a madrugada,
a calçada e a rua negra e nua. Ele, a madrugada, a
calçada mal iluminada, a rua, negra e nua, e o céu
negro com seus astros e estrelas luminosos inteiramente à
mostra. A lua, sua cara lua desembalsamada, límpida,
inteira em sua nudez a se lhe dizer sua: tua, tua, toda tua!
Vai confortavelmente agasalhado. Mãos
nos bolsos. Passos mansos. Degustados. Vai como quem não
tem nenhum encontro marcado. Vai. Leve, de braços dados
com suas namoradas. Companheiras silenciosas que com ele afetuosamente
estão. Pára em certa praça. Sobe ao coreto
solitário. Palco solícito a seu dispor. Dali
de cima contempla a cidade adormecida. Ainda sob os efeitos
das luzes elétricas. Os neons esquecidos dizendo a
mais ninguém.
E foi naquele agosto findo em que
assim cumpria seu notívago destino que se estupidificou
com o tamanho de marte. Descomunal! Aquele discreto filão
aurífero em leste, súbito surge feito um sol
noturno singular. Ouro-jóia que à vista não
fere.
Ficou tomado. Depois, era hora. Foi-se.
E enquanto caminhava com os olhos em marte presos, começava
a cogitar as estratégias necessárias para arrebatá-lo
para presente a seu amor.