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Palavras

Data 21/ago/2003

    As palavras são tão arbitrárias que nada mais libertário há. Pouco se importam com o que lhes incumbem. Se ontem foram futuro, hoje podem não o ser.Tão libertárias, que não se suportam capazes de ser ou não ser. Não. Isto de ser ou não ser não é sua questão. A palavra é são. É seres. Por exemplo: a palavra porta tantas portas comporta! A palavras coisa tantas coisas são!
    As palavras são dotes que o homem muito faz por merecer. Há os que mereceriam, sim, muito tê-los. Há os que os têm, todavia não fazem por merecê-los. E há os que os desmerecem por puro demérito.
    Um dote de palavras confere virtualidades. Virtualidades de poder. Virtualidades de fazer. Virtualidades de saber: são pródigas em semear estas possibilidades. E, embora não sejam de ninguém, são mais afeitas com quem se devota em conquistá-las. Se seduzem, se entregam para que por sua vez seduzam. Se atraem, se entregam para que por sua vez possam atrair.
    Palavras têm paladar. Paladares inumeráveis. Mas a eles servem denominações inconciliáveis. Palavras servem a gostos amargos. Subsidiam inomináveis travos. Dão guarida ao insosso. Se conformam com o espicaçante. Aturam o salobre. Palavras não são apenas doces.
    A palavra em estado de dicionário vive sua grande quimera. Se alinha em paradigma, pondo-se à espera, e para servir à sua escolha, se diz com outras palavras. Ali permanece não-estagnada. Não-congelada. Nem tampouco fica para ser escolhida. Fica como fotografia do que tanto fora. Por isso ficou. Fica para comprovar que assim se constituiu por tanto assim servir. E que se se obsoletiza, segundo assim a estigmatizam os filologramatolingüístas, é em razão do uso da lei da preguiça. Cujo, verbi gratia, pertence à linha daquelas palavras avessas às mesmices de quês, quais e quejandos. Logo, protelada pelo uso apressado-pragmático-finalista destes tempos refinadamente evolutivo-destrutivos. Lá fica. Vez em quando um corte de frase crava em seu sintagma um estranho cujo, ainda que muito bem engastado.
    Assim prodecem as palavras. Tampouco envelhecem, pois que disso não é sinônimo obsolescer. Verdade que aqueles filologramatolingüístas eufemisticamente alcunham-nas, quando neste estado, de arcaísmos. A que a moda civilizatória vigente, com seu pragmatismo e sua reação hedonista pela longevida, certamente preferirá denominá-las palavras em terceira idade.
    As palavras são imortais. Não imortais postiços como o são todas as imortalidades civis. Sim, que as imortalidades humanas se fixam no imaginário. Imaginário coletivo-particular das famílias que emotivo-afetivamente cultivam sua trajetória. Imaginário público-social, mítico-místico-idólatra, que todo povo de cada nação cultiva. Imortalidades que se fazem com vida e morte.
    A imortalidade das palavras se dá em vida. Pois que palavra é vida. As palavras não perecem: perenizam-se. Ainda quando línguas que as suportam se escaninham. As línguas mortas não estão mortas, pois suas palavras estão nas palavras das línguas vivas. As quais, afinal, não são absolutamente línguas novas. São línguas renovadas. Que sobre palavras hedonistas, agora em terceira idade, se limitam, patriarcas, a dar guarida ao pleno desenvolvimento da meninada.
    Desde os mais remotos, esconsos tempos, as palavras, feito humano que talvez seu inventor jamais conseguirá superar, se fizeram este feitiço. E feitiço, logo tomou a si a comparsa condição de feiticeiras. E então a palavra se tornou o próprio homem: um homem são palavras - “Ai, palavras, ai, palavras,/ que estranha potência a vossa!/ Todo o sentido da vida/ principia à vossa porta;/ o mel do amor cristaliza/ seu perfume em vossa rosa;/ sois o sonho e sois a audácia,/ calúnia, fúria, derrota.../ A liberdade das almas,/ ai! Com letras se elabora.../ e dos venenos humanos/ sois a mais fina retorta:/ frágil, frágil como o vidro/ e mais que o aço poderosa!/ Reis, impérios, povos, tempos,/ pelo vosso impulso rodam...”

 


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