As palavras são tão
arbitrárias que nada mais libertário há.
Pouco se importam com o que lhes incumbem. Se ontem foram
futuro, hoje podem não o ser.Tão libertárias,
que não se suportam capazes de ser ou não ser.
Não. Isto de ser ou não ser não é
sua questão. A palavra é são. É
seres. Por exemplo: a palavra porta tantas portas comporta!
A palavras coisa tantas coisas são!
As palavras são dotes que o
homem muito faz por merecer. Há os que mereceriam,
sim, muito tê-los. Há os que os têm, todavia
não fazem por merecê-los. E há os que
os desmerecem por puro demérito.
Um dote de palavras confere virtualidades.
Virtualidades de poder. Virtualidades de fazer. Virtualidades
de saber: são pródigas em semear estas possibilidades.
E, embora não sejam de ninguém, são mais
afeitas com quem se devota em conquistá-las. Se seduzem,
se entregam para que por sua vez seduzam. Se atraem, se entregam
para que por sua vez possam atrair.
Palavras têm paladar. Paladares
inumeráveis. Mas a eles servem denominações
inconciliáveis. Palavras servem a gostos amargos. Subsidiam
inomináveis travos. Dão guarida ao insosso.
Se conformam com o espicaçante. Aturam o salobre. Palavras
não são apenas doces.
A palavra em estado de dicionário
vive sua grande quimera. Se alinha em paradigma, pondo-se
à espera, e para servir à sua escolha, se diz
com outras palavras. Ali permanece não-estagnada. Não-congelada.
Nem tampouco fica para ser escolhida. Fica como fotografia
do que tanto fora. Por isso ficou. Fica para comprovar que
assim se constituiu por tanto assim servir. E que se se obsoletiza,
segundo assim a estigmatizam os filologramatolingüístas,
é em razão do uso da lei da preguiça.
Cujo, verbi gratia, pertence à linha daquelas palavras
avessas às mesmices de quês, quais e quejandos.
Logo, protelada pelo uso apressado-pragmático-finalista
destes tempos refinadamente evolutivo-destrutivos. Lá
fica. Vez em quando um corte de frase crava em seu sintagma
um estranho cujo, ainda que muito bem engastado.
Assim prodecem as palavras. Tampouco
envelhecem, pois que disso não é sinônimo
obsolescer. Verdade que aqueles filologramatolingüístas
eufemisticamente alcunham-nas, quando neste estado, de arcaísmos.
A que a moda civilizatória vigente, com seu pragmatismo
e sua reação hedonista pela longevida, certamente
preferirá denominá-las palavras em terceira
idade.
As palavras são imortais. Não
imortais postiços como o são todas as imortalidades
civis. Sim, que as imortalidades humanas se fixam no imaginário.
Imaginário coletivo-particular das famílias
que emotivo-afetivamente cultivam sua trajetória. Imaginário
público-social, mítico-místico-idólatra,
que todo povo de cada nação cultiva. Imortalidades
que se fazem com vida e morte.
A imortalidade das palavras se dá
em vida. Pois que palavra é vida. As palavras não
perecem: perenizam-se. Ainda quando línguas que as
suportam se escaninham. As línguas mortas não
estão mortas, pois suas palavras estão nas palavras
das línguas vivas. As quais, afinal, não são
absolutamente línguas novas. São línguas
renovadas. Que sobre palavras hedonistas, agora em terceira
idade, se limitam, patriarcas, a dar guarida ao pleno desenvolvimento
da meninada.
Desde os mais remotos, esconsos tempos,
as palavras, feito humano que talvez seu inventor jamais conseguirá
superar, se fizeram este feitiço. E feitiço,
logo tomou a si a comparsa condição de feiticeiras.
E então a palavra se tornou o próprio homem:
um homem são palavras - Ai, palavras, ai, palavras,/
que estranha potência a vossa!/ Todo o sentido da vida/
principia à vossa porta;/ o mel do amor cristaliza/
seu perfume em vossa rosa;/ sois o sonho e sois a audácia,/
calúnia, fúria, derrota.../ A liberdade das
almas,/ ai! Com letras se elabora.../ e dos venenos humanos/
sois a mais fina retorta:/ frágil, frágil como
o vidro/ e mais que o aço poderosa!/ Reis, impérios,
povos, tempos,/ pelo vosso impulso rodam...