Sempre o impressionava aquele sem-fim
de terra deserta. O olhar abrangia lonjuras. O horizonte selava
céu e terra. Pensava muito demorado nas possibilidades
do que ali tudo já fora. Não se dava ao trabalho
de hipóteses com tempos remotos. Não. Isso seria
mais complicado, mais cansativo e requeria conhecimentos e
informações que não detinha. Buscava
imagens prováveis. Presumia a partir da contextura
do solo. Terra mais propendente a areia. Quase sem traços
de cor de terra. Terra entregue ao pasto natural. Vastidão
de muito poucos bois. Pela longa extensão que percorria,
mais de duas centenas, um ou outro magotezinho de bois. Aqui.
Bem acolá.
Nada semelhante àqueles outros
pastos que também via, porém, retalhados de
bois. Muitos bois. O que gostava de ver. Seus olhos se acendiam
ante aquela visão. Um quadro vivo de real beleza. Belo
em si mesmo. Nem lhe passava nunca pela cabeça que
fosse uma cena bucólica pastoril, que soubera ser assim
pelos estudos de literatura na escola. O que tanto prezavam
os árcades cuja maioria talvez nunca houvera mesmo
presenciado cenas como aquelas.
Uns bois todos brancos - nelores,
decerto --, muitos. Ainda quando de longe já avistados,
davam a impressão de um branco único, contínuo.
Túnica inconsútil branca revestindo a verde,
verde pastagem. Ou então, negros. Bois negros - zebus,
decerto, transmutados, por óptica ilusão, a
inconsútil túnica negra revestindo pastagem
verde.
Onde isso assim se dava, e ele também
comumente via, somente ficava completamente ausente daqueles
bois em tempo de estiagem. A chuva sumida. O pasto empalidecido
por completo. Os bois ausentes. Decerto seus proprietários,
apiedados deles e não menos de si mesmos, lhes dão
outro destino onde comer. Confinam-nos e os tratam com as
provisões armazenadas para essas ocasiões.
Não assim era ali. Pasto, faça
estio, faça chuva, pasto dado ao nada. Há que
não se esquecer também o detalhe de que era
pasto sem consistência e anão. Por mais chuva
que bebesse, jamais se fazia colonião. Pasto raquítico.
Um verde de crônico amarelão. Por mais que se
não soubesse de pastagens e demais culturas em geral,
se concluía sem demora que era terra para outra lavoura.
Mais rentável. Milho. Mandioca. Feijão. Mamona,
que ali havia grande cultivo em muitos pequenos pedaços
de terra. Ou cana-de-açúcar para álcool,
que já em outras regiões cobria extensões
imensas tais quais.
Ouvira de gente informada, às
quais, por acaso, fizera tais observações, que
ali as terras haviam sido griladas. Rolavam em fóruns
demandas. Particulares contra particulares. O Estado e particulares
também demandavam. A cartoragem envolvida.
E as terras ficando anos e anos ali do mesmo jeito. Às
urtigas. Às formigas. Aos cupins. Pasto nanico natural
inútil. Pena! Podiam se prestar a benfeitorias: aos
homens; aos animais. A duvidar, por ali nem mesmo répteis
se dariam ao trabalho de palmilhar. Pois o que se pode colher
em meio a areia e capim nanico verde-catarro?
Anos conhecendo aquele deserto perdido
em si mesmo. E o sentimento incômodo de que tanta terra
ao léu era de doer. Aquela imensidão inservível
à espera de quem lhe viesse se declarar oficialmente
seu dono. Pois que donos disputavam-na há muitos anos
decerto nem sabendo ao certo o que fazer com ela. Disputavam
a condição de ser o dono dela. Eis a triste
pior certeza. Não a queriam para amanhá-la;
afagá-la com arados e grades. Fertilizá-la predispondo-a
à procriação. Fecundá-la com sementes
pródigas e ávidas de frutos aos borbotões;
sadios e apetitosos. Não. Queriam tão-somente
ter-lhe a posse. O poder de mando, de propriedade, de dono.
Por isso batiam-se.
Um dia por ali deixou de passar. A
vida, mutante insofreável, fê-lo ir viver e conviver
noutras plagas. E certa feita os jornais de uma certa manhã
lhe trouxeram a notícia viva de que aquela terra havia
sido ocupada em massa por dezenas de milhares do Movimento
dos Sem-Terra. Eles concluíram que ela era improdutiva.