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Providência

Data 15/ago/2003

    Sempre o impressionava aquele sem-fim de terra deserta. O olhar abrangia lonjuras. O horizonte selava céu e terra. Pensava muito demorado nas possibilidades do que ali tudo já fora. Não se dava ao trabalho de hipóteses com tempos remotos. Não. Isso seria mais complicado, mais cansativo e requeria conhecimentos e informações que não detinha. Buscava imagens prováveis. Presumia a partir da contextura do solo. Terra mais propendente a areia. Quase sem traços de cor de terra. Terra entregue ao pasto natural. Vastidão de muito poucos bois. Pela longa extensão que percorria, mais de duas centenas, um ou outro magotezinho de bois. Aqui. Bem acolá.
    Nada semelhante àqueles outros pastos que também via, porém, retalhados de bois. Muitos bois. O que gostava de ver. Seus olhos se acendiam ante aquela visão. Um quadro vivo de real beleza. Belo em si mesmo. Nem lhe passava nunca pela cabeça que fosse uma cena bucólica pastoril, que soubera ser assim pelos estudos de literatura na escola. O que tanto prezavam os árcades cuja maioria talvez nunca houvera mesmo presenciado cenas como aquelas.
    Uns bois todos brancos - nelores, decerto --, muitos. Ainda quando de longe já avistados, davam a impressão de um branco único, contínuo. Túnica inconsútil branca revestindo a verde, verde pastagem. Ou então, negros. Bois negros - zebus, decerto, transmutados, por óptica ilusão, a inconsútil túnica negra revestindo pastagem verde.
    Onde isso assim se dava, e ele também comumente via, somente ficava completamente ausente daqueles bois em tempo de estiagem. A chuva sumida. O pasto empalidecido por completo. Os bois ausentes. Decerto seus proprietários, apiedados deles e não menos de si mesmos, lhes dão outro destino onde comer. Confinam-nos e os tratam com as provisões armazenadas para essas ocasiões.
    Não assim era ali. Pasto, faça estio, faça chuva, pasto dado ao nada. Há que não se esquecer também o detalhe de que era pasto sem consistência e anão. Por mais chuva que bebesse, jamais se fazia colonião. Pasto raquítico. Um verde de crônico amarelão. Por mais que se não soubesse de pastagens e demais culturas em geral, se concluía sem demora que era terra para outra lavoura. Mais rentável. Milho. Mandioca. Feijão. Mamona, que ali havia grande cultivo em muitos pequenos pedaços de terra. Ou cana-de-açúcar para álcool, que já em outras regiões cobria extensões imensas tais quais.
    Ouvira de gente informada, às quais, por acaso, fizera tais observações, que ali as terras haviam sido griladas. Rolavam em fóruns demandas. Particulares contra particulares. O Estado e particulares também demandavam. A cartoragem envolvida.
E as terras ficando anos e anos ali do mesmo jeito. Às urtigas. Às formigas. Aos cupins. Pasto nanico natural inútil. Pena! Podiam se prestar a benfeitorias: aos homens; aos animais. A duvidar, por ali nem mesmo répteis se dariam ao trabalho de palmilhar. Pois o que se pode colher em meio a areia e capim nanico verde-catarro?
    Anos conhecendo aquele deserto perdido em si mesmo. E o sentimento incômodo de que tanta terra ao léu era de doer. Aquela imensidão inservível à espera de quem lhe viesse se declarar oficialmente seu dono. Pois que donos disputavam-na há muitos anos decerto nem sabendo ao certo o que fazer com ela. Disputavam a condição de ser o dono dela. Eis a triste pior certeza. Não a queriam para amanhá-la; afagá-la com arados e grades. Fertilizá-la predispondo-a à procriação. Fecundá-la com sementes pródigas e ávidas de frutos aos borbotões; sadios e apetitosos. Não. Queriam tão-somente ter-lhe a posse. O poder de mando, de propriedade, de dono. Por isso batiam-se.
    Um dia por ali deixou de passar. A vida, mutante insofreável, fê-lo ir viver e conviver noutras plagas. E certa feita os jornais de uma certa manhã lhe trouxeram a notícia viva de que aquela terra havia sido ocupada em massa por dezenas de milhares do Movimento dos Sem-Terra. Eles concluíram que ela era improdutiva.

 


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