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Caminhos

Data 08/ago/2003

    Os caminhos, as trilhas, são meios construídos pelos seres pedestres. Estes animais bípedes ou quadrúpedes que para sobreviver têm de vir e vir.
    Muitos são os caminhos. E muitas as formas de caminhar. Há caminhos visíveis porque o ir e vir de certos animais, para certas ações vitais, fazem-se exatamente pelo mesmo lugar. É um remontar, um recalcar de idas e vindas, infindas, sobre si mesmas.
    Reiteradas e simétricas pisadas sobre o mesmo espaço cujos traços são capazes de entrever o ritmo, o compasso a quem os queira captá-los. São capazes de entrever sua performance, seu estado de ânimo. São mesmo capazes de entrever suas demandas, sua ambição.
    O gado, sua trilha o revela. Nela, suas patas imprimem sua alma. Vão tão pacatos, tão mansos e comportados, que se locomovem em ordem unida. O tamanho da largura da trilha é o da largura de sua pata. Um estreito trilho por onde vão os imensos bois em busca da água do rio; em busca do coxo de sal; em demanda às imediações do curral.
    As formigas não agem muito diferente. Também estreito é o caminho que praticam em fila indiana. Do formigueiro à provisão. Da provisão ao formigueiro, que a esse fazer se limitam. Não vão mansas como o gado. São muito mais performáticas. Vão em tensão vibratória de antenados insetos. Todavia perfilham pelo único rastro. Concomitantemente vão e vêm de encontro, dando a ilusória aparência a quem as olha de que parecem estar num caos de cabras cegas.
    Sim, os caminhos que não se fazem trilhos, não deixam impressões no chão, na relva, parecem descredenciar quaisquer vestígios. Como se de animais que vão sozinhos e que, se voltam, vêm contrariados, por isso em desalinho. Ou como se animais que vão em bando conglomerados e assim tornam, estando soltos e desuniformes.
    Sim, caminhos sem trilho, que não se digitalizam. Caminhos que são rotas. Por ali passam, mas não deixam marcas. Ou, se as deixam, o fazem de outra maneira. E então são várias as sutilezas. Vão os cães por onde depositaram sua urina. Os ratos tornam aos lugares em que evacuaram. E as rotas aéreas. Nada há que permita uma mínima suspeita de demarcações. Entretanto, bando de pássaros, aquela solitária garça passam periodicamente quase pelo mesmo lugar. Assim também as aeronaves Os aviões rugem sempre daquele lado (Um dia, foi um bruta susto: rota mudada -- bem por cima de casa e baixa altura. A fugaz impressão visual foi de que aquilo vinha por cima. E, som ensurdecedor, passou lento e pesadonamente para grande alívio - indo embora.)
    Mas os caminhos humanos, talvez, quando ainda não se havia chegado a homo sapiens, fosse semelhante ao daqueles outros animais. Trilha estreita de passos ao encalço de passos. Macho à frente, fêmea atrás, prole atrás (Traços cujos vestígios ainda se vêem em certas famílias por um caminho indo, principalmente, se nordestina - Fabiano, Sinha Vitória, baleia e os meninos retirantes, exemplo vivo, ainda que fictício).
    Homem feito, todavia, a trilha, se houvesse, caminho estreito se rarefez. Fez-se estrada, que sua necessidade de estreita, limitada, tornou-se larga. Ainda que ao estágio do trilho de ferro chegado pouco se alargara, o corpo que nele se trasladava era volumoso, carecendo de espaço nada acanhado.
    E múltiplas se fizeram as necessidades do homem, que não mais deixou de aprender a saber. E sabendo aprendeu a poder. E podendo aprendeu a ter. E tendo aprendeu a prender. E prendendo aprendeu a temer. E temendo aprendeu a se defender. E alegando defesa aprendeu a fazer morrer.
    Então, bicho complexo e muita vez complexado, o homem também aprendeu a fazer múltiplos caminhos. Estradas, vias, vielas, calçadas, corredores, escadarias, elevadores, passarelas, pontes, viadutos. Caminhos que o levam e traz a seus destinos. Muitos dos quais são seus descaminhos.

 


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