Os caminhos, as trilhas, são
meios construídos pelos seres pedestres. Estes animais
bípedes ou quadrúpedes que para sobreviver têm
de vir e vir.
Muitos são os caminhos. E muitas
as formas de caminhar. Há caminhos visíveis
porque o ir e vir de certos animais, para certas ações
vitais, fazem-se exatamente pelo mesmo lugar. É um
remontar, um recalcar de idas e vindas, infindas, sobre si
mesmas.
Reiteradas e simétricas pisadas
sobre o mesmo espaço cujos traços são
capazes de entrever o ritmo, o compasso a quem os queira captá-los.
São capazes de entrever sua performance, seu estado
de ânimo. São mesmo capazes de entrever suas
demandas, sua ambição.
O gado, sua trilha o revela. Nela,
suas patas imprimem sua alma. Vão tão pacatos,
tão mansos e comportados, que se locomovem em ordem
unida. O tamanho da largura da trilha é o da largura
de sua pata. Um estreito trilho por onde vão os imensos
bois em busca da água do rio; em busca do coxo de sal;
em demanda às imediações do curral.
As formigas não agem muito
diferente. Também estreito é o caminho que praticam
em fila indiana. Do formigueiro à provisão.
Da provisão ao formigueiro, que a esse fazer se limitam.
Não vão mansas como o gado. São muito
mais performáticas. Vão em tensão vibratória
de antenados insetos. Todavia perfilham pelo único
rastro. Concomitantemente vão e vêm de encontro,
dando a ilusória aparência a quem as olha de
que parecem estar num caos de cabras cegas.
Sim, os caminhos que não se
fazem trilhos, não deixam impressões no chão,
na relva, parecem descredenciar quaisquer vestígios.
Como se de animais que vão sozinhos e que, se voltam,
vêm contrariados, por isso em desalinho. Ou como se
animais que vão em bando conglomerados e assim tornam,
estando soltos e desuniformes.
Sim, caminhos sem trilho, que não
se digitalizam. Caminhos que são rotas. Por ali passam,
mas não deixam marcas. Ou, se as deixam, o fazem de
outra maneira. E então são várias as
sutilezas. Vão os cães por onde depositaram
sua urina. Os ratos tornam aos lugares em que evacuaram. E
as rotas aéreas. Nada há que permita uma mínima
suspeita de demarcações. Entretanto, bando de
pássaros, aquela solitária garça passam
periodicamente quase pelo mesmo lugar. Assim também
as aeronaves Os aviões rugem sempre daquele lado (Um
dia, foi um bruta susto: rota mudada -- bem por cima de casa
e baixa altura. A fugaz impressão visual foi de que
aquilo vinha por cima. E, som ensurdecedor, passou lento e
pesadonamente para grande alívio - indo embora.)
Mas os caminhos humanos, talvez, quando
ainda não se havia chegado a homo sapiens, fosse semelhante
ao daqueles outros animais. Trilha estreita de passos ao encalço
de passos. Macho à frente, fêmea atrás,
prole atrás (Traços cujos vestígios ainda
se vêem em certas famílias por um caminho indo,
principalmente, se nordestina - Fabiano, Sinha Vitória,
baleia e os meninos retirantes, exemplo vivo, ainda que fictício).
Homem feito, todavia, a trilha, se
houvesse, caminho estreito se rarefez. Fez-se estrada, que
sua necessidade de estreita, limitada, tornou-se larga. Ainda
que ao estágio do trilho de ferro chegado pouco se
alargara, o corpo que nele se trasladava era volumoso, carecendo
de espaço nada acanhado.
E múltiplas se fizeram as necessidades
do homem, que não mais deixou de aprender a saber.
E sabendo aprendeu a poder. E podendo aprendeu a ter. E tendo
aprendeu a prender. E prendendo aprendeu a temer. E temendo
aprendeu a se defender. E alegando defesa aprendeu a fazer
morrer.
Então, bicho complexo e muita
vez complexado, o homem também aprendeu a fazer múltiplos
caminhos. Estradas, vias, vielas, calçadas, corredores,
escadarias, elevadores, passarelas, pontes, viadutos. Caminhos
que o levam e traz a seus destinos. Muitos dos quais são
seus descaminhos.