Os rios são muito mais que
simples acidentes geográficos. Um rio é um ser
vivo. Respira seu oxigênio. Transpira seus odores. Como
um rio é sempre massa de água, parca ou farta,
sua relação é larga. A imediata é
com suas margens. A imagem clássica que de um rio se
guarda é com elas demarcadas por suas matas. Mata cerrada.
Verde viçoso. Que se colore com as flores cores das
épocas. O rumor dos pássaros em suas várias
espécies nela convivendo. Os vários animais
silvestres, como o gado nos pastos, da água dele se
servem.
Um rio irradia vida. Mantém
vidas. Instiga vidas. Um rio vai túmido e pródigo
de vida. Sua água fértil sacia e fertiliza a
mata parasita que o segue. Um rio acoberta em seu seio complexa
vida de sua fauna. Peixes que comem e são comidos por
outros peixes. Os outros bichos que o habitam. Que nele se
acoitam. Os minerais do seu leito, do seu subsolo, dele precisam,
decerto, conquanto a ele também sirvam. Seus cascalhos
e seixos. Seu lodo, e limo, e areia que em contrastes e combinações
com seu inodoro e incolor o fazem, vez em quando, ser uma
cor. Ora o verde-esmeralda, ora o azul desbotado. Claro, quando
os disparates da chuva o inundam, a peculiar e única
cor de água suja. Mas o sujo que aí se lhe atribui
é aquele sujo universal de rio cheio rodando tudo que
dele não teve tempo de fugir. Rio bravo, com sua cor
meio barro, meio saibro. Não se pense naqueles sujos
dos rios de agora (e isso lhe acontece não de agora).
Essa não é cor de água de rio inundado
por causa das grandes chuvas. É cor de água
imunda. Água invadida a cada cidade por onde o rio
passa pela suas putrescências que nele cada uma despeja.
Esse é rio que incha independente de quaisquer cheias.
Rio que, súbito, sem que lhe dêem a mínima,
se vê entupido de estranhas espumas. Espumas que, sem
que ele queira, escorrem sobre seu dorso. Volumosas, vão
invadindo sua orla, os que próximos a ela moram, residem,
circulam.
O rio na cidade é sempre um
rio de passagem. Não porque queira caprichosamente
por ela passar a passeio, apreciar o que não seria
a rotina de seu habitat: os matagais, as pastagens, as lavouras,
pomares, a periferia de alguns quintais. Não. Um rio
na cidade é verdadeiramente do qual não prescinde
uma cidade. Então, a cidade é que passa pelo.
rio. A cidade é que busca o rio. Sem um rio uma cidade
não sobrevive. Ela depende da dadivosa liquidez de
suas águas; da inesgotável servidão de
suas águas. Um rio, decerto, que a princípio,
com sua inata sina prestativa, se orgulhasse de também
se servir ao grande bicho homem, romperia seu curso d`água
das cidades. A cidade é o seu câncer, a sua aids.
Infectam-no a ponto de nele inocular o irremediável.
Ainda que um rio, como poucos outros entes, tenha a grande
capacidade de regenerar-se. As cidades parecem ser exterminadores
compulsivos, incapazes mesmo de evitar o extermínio
do que lhe é imprescindível. E às vezes,
quando o homem, amedrontado, e a infecção aguda
já vai longe, resolve ir reparar o profundo estrago,
pode ser muito tarde.
Quem vê a extensão do
Tietê em São Paulo, carrega consigo essa terrível
temeridade. Sua água é uma gosma que não
escorre, e sim rola, lenta como uma bola de piche pegajosa.
Há muito não faz jus à cor azul que os
mapas insistem em mentir. Aos menos a parte que cabe representar
sua passagem por São Paulo, o traço correto
é o de tinta preta. Preto de putrefato. Preto do que
por bactérias está tomado. Preto do que está
necrosado. O preto das bexigas que a peste deixa. O preto
do que ao sol apodrece.
E o súbito desespero do homem
por restabelecê-lo parece mais desfigurá-lo.
Dragas lhe desentranham imundas camadas de lama infectas.
São tantas que ali elas se tornaram seu próprio
leito. As margens são depositários dessa mesma
lama que as impregnam e as desfiguram. E aos poucos, de chuva
em chuva, ao seio de seu leito negro tornam. O turbilhão
cúbico de dejetos químicos, orgânicos,
orgásticos, cada vez mais ávidos nele se joga.
E o Tietê segue sendo aquela
estirada macunaímica perna gangrenada na calçada
do Viaduto do Chá cujo sangue insiste pelos escaninhos
mínimos, veias ainda não completamente entupidas.