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Um rio

Data 01/ago/2003

    Os rios são muito mais que simples acidentes geográficos. Um rio é um ser vivo. Respira seu oxigênio. Transpira seus odores. Como um rio é sempre massa de água, parca ou farta, sua relação é larga. A imediata é com suas margens. A imagem clássica que de um rio se guarda é com elas demarcadas por suas matas. Mata cerrada. Verde viçoso. Que se colore com as flores cores das épocas. O rumor dos pássaros em suas várias espécies nela convivendo. Os vários animais silvestres, como o gado nos pastos, da água dele se servem.
    Um rio irradia vida. Mantém vidas. Instiga vidas. Um rio vai túmido e pródigo de vida. Sua água fértil sacia e fertiliza a mata parasita que o segue. Um rio acoberta em seu seio complexa vida de sua fauna. Peixes que comem e são comidos por outros peixes. Os outros bichos que o habitam. Que nele se acoitam. Os minerais do seu leito, do seu subsolo, dele precisam, decerto, conquanto a ele também sirvam. Seus cascalhos e seixos. Seu lodo, e limo, e areia que em contrastes e combinações com seu inodoro e incolor o fazem, vez em quando, ser uma cor. Ora o verde-esmeralda, ora o azul desbotado. Claro, quando os disparates da chuva o inundam, a peculiar e única cor de água suja. Mas o sujo que aí se lhe atribui é aquele sujo universal de rio cheio rodando tudo que dele não teve tempo de fugir. Rio bravo, com sua cor meio barro, meio saibro. Não se pense naqueles sujos dos rios de agora (e isso lhe acontece não de agora). Essa não é cor de água de rio inundado por causa das grandes chuvas. É cor de água imunda. Água invadida a cada cidade por onde o rio passa pela suas putrescências que nele cada uma despeja. Esse é rio que incha independente de quaisquer cheias. Rio que, súbito, sem que lhe dêem a mínima, se vê entupido de estranhas espumas. Espumas que, sem que ele queira, escorrem sobre seu dorso. Volumosas, vão invadindo sua orla, os que próximos a ela moram, residem, circulam.
    O rio na cidade é sempre um rio de passagem. Não porque queira caprichosamente por ela passar a passeio, apreciar o que não seria a rotina de seu habitat: os matagais, as pastagens, as lavouras, pomares, a periferia de alguns quintais. Não. Um rio na cidade é verdadeiramente do qual não prescinde uma cidade. Então, a cidade é que passa pelo. rio. A cidade é que busca o rio. Sem um rio uma cidade não sobrevive. Ela depende da dadivosa liquidez de suas águas; da inesgotável servidão de suas águas. Um rio, decerto, que a princípio, com sua inata sina prestativa, se orgulhasse de também se servir ao grande bicho homem, romperia seu curso d`água das cidades. A cidade é o seu câncer, a sua aids. Infectam-no a ponto de nele inocular o irremediável. Ainda que um rio, como poucos outros entes, tenha a grande capacidade de regenerar-se. As cidades parecem ser exterminadores compulsivos, incapazes mesmo de evitar o extermínio do que lhe é imprescindível. E às vezes, quando o homem, amedrontado, e a infecção aguda já vai longe, resolve ir reparar o profundo estrago, pode ser muito tarde.
    Quem vê a extensão do Tietê em São Paulo, carrega consigo essa terrível temeridade. Sua água é uma gosma que não escorre, e sim rola, lenta como uma bola de piche pegajosa. Há muito não faz jus à cor azul que os mapas insistem em mentir. Aos menos a parte que cabe representar sua passagem por São Paulo, o traço correto é o de tinta preta. Preto de putrefato. Preto do que por bactérias está tomado. Preto do que está necrosado. O preto das bexigas que a peste deixa. O preto do que ao sol apodrece.
    E o súbito desespero do homem por restabelecê-lo parece mais desfigurá-lo. Dragas lhe desentranham imundas camadas de lama infectas. São tantas que ali elas se tornaram seu próprio leito. As margens são depositários dessa mesma lama que as impregnam e as desfiguram. E aos poucos, de chuva em chuva, ao seio de seu leito negro tornam. O turbilhão cúbico de dejetos químicos, orgânicos, orgásticos, cada vez mais ávidos nele se joga.
    E o Tietê segue sendo aquela estirada macunaímica perna gangrenada na calçada do Viaduto do Chá cujo sangue insiste pelos escaninhos mínimos, veias ainda não completamente entupidas.

 


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