Seria breve. Tudo muito breve. Não demorariam. Fora
feliz ao perceber isso. Seria outro. Não diria que
conquistaria a fama. Mas teria seu quinhão de notoriedade.
O país o trataria com as distinções próprias
que a tais feitos são destinadas. Afinal, ganharia
a posição de um condecorado por heróicos
serviços prestados à pátria. Talvez nem
precisaria mais voltar aos bancos escolares. Ou às
escolas voltaria não como estudante. A elas, para palestras
na qualidade de herói combatente. Relatos do front
com os inimigos. Os inimigos da paz mundial. Os que atentavam
diuturnamente contra a vida humana. Os que por causas torpes,
grotescos e bárbaros motivos andam, súbito,
explodindo-se em meio a multidões, matando inocentes;
matando quem na rua está indo em busca da construção
de sua vida e, abruptamente, é mortalmente interrompido
por alguém que, ao arrebentar-se, instila seu letal
veneno aos que o circundam. Países atrasados, ainda
na Idade da Pedra. Ditadores guerreando contra ditadores.
Uma multiplicidade de seitas mescladas a multíplices
tribos, cada qual querendo a supremacia do poder. E o mundo
civilizado pagando com a vida as conseqüências
dessas estupidezes humanas.
Não. O presidente da República estava com razão.
Havia que pôr fim, dar um basta definitivo a esses resquícios
de barbárie emperrando a evolução do
homem. Seria breve: Cheguei. Vi. Venci. Tal o poderio bélico
do seu país. Os E.U.A. escorraçariam aquele
Hitler oriental. Cadeia a pão, água e cobertor
comum.
A invasão não encontraria obstáculos
relevantes. Os suicidas certamente atentariam com suas performances
espetaculares, circenses. Acontece que eles estariam devidamente
preparados para anular quaisquer conseqüências
de maior gravidade. Aparatos bélicos sofisticados e
eficientes, com os quais estavam muito bem familiarizados.
Iriam. Colocariam a casa em ordem. Havia uma pesquisa fidedigna
confirmando a grande vontade dos iraquianos ávidos
de paz e civilidade e de que eles fizessem logo e bem feito
o serviço.
Tornaria a casa com promoção certa e outros
pressupostos. Uma vertiginosa carreira militar numa caserna
mundialmente respeitadíssima. É certo que, às
vezes, o incomodava a história da guerra contra o Vietnan.
Uma guerra de que os norte-americanos não gostam de
se lembrar. Que causou inumeráveis traumatismos até
hoje vivos. Que se tornou vivo filão a filmes que obtiveram
grandes sucessos, tal a variedade de leituras gerou a complexidade
de uma guerra que também era para ser uma rápida
invasão e ocupação.
Não. Décadas depois, a situação
é outra. O povo americano, naquela ocasião,
muito divido, hoje é quase unânime a favor. Hoje
a hegemonia americana de poder é absoluta. Não
havia dúvida: ir, vencer e tornar sendo um herói
de guerra. Sabia e tinha fé de que era um rapaz bem
mais acima do que apenas amar os Beatles e os Rolling Stones.
Foram. Poderosos. Invadiram. Ocuparam. Ovacionados. Hostilizados.
Instalaram-se. Patrulhamentos. Os atentados. A vigilância.
As baixas maiores do que esperadas nas fileiras anglo-americanas.
O patrulhamento sob tensão. Muita atenção.
Não podiam se deixar surpreender pelos suicidas.
Um episódio. Súbito veio vindo de encontro ao
comboio uma pessoa. Era uma mulher. Determinou que fizessem
alto. Os patrulheiros, arma em riste esperando. Uma bela mulher
iraquiana avançando lentamente. Em alto e bom som acompanhado
do gesto de mão, ordenou-lhe que se detivesse. A bela
iraquiana estendendo diante de si uma estampa de Gandhi. O
velho truque! Tornou a gritar-lhe stop! Avançava, porém,
a iraquiana bela indelevelmente. Agora, já podia vê-la
melhor. Linda. Linda como sua mãe! Linda, como sua
noiva. Naquele instante, era um comandante completamente nevrose
e dever. Era o velho truque!
Berrou outra vez stop! Linda como sua noiva! Linda como a
serenidade de sua mãe! Era o velho truque! O velho
truque! Cerrou os olhos. Rilhou os dentes e urrou que fizessem
fogo. Fogo! Fogo! Depois, viu a moça estendida e sobre
ela a mortalha de Gandhi. Gritou que prosseguissem!
A saudade. Há meses lá estavam. Precisava ir
embora. Os iraquianos iam vietnamizando aquela pós-ocupação.
Os traumatismos como o de há pouco. Não queria
mais condecoração nenhuma. Queria muito, urgentemente,
queria voltar ao conforto do protecionismo de sua mãe.
Queria os carinhos, a ternura de seu amor.