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Guerra é guerra

Data 20/jul/2003

Seria breve. Tudo muito breve. Não demorariam. Fora feliz ao perceber isso. Seria outro. Não diria que conquistaria a fama. Mas teria seu quinhão de notoriedade. O país o trataria com as distinções próprias que a tais feitos são destinadas. Afinal, ganharia a posição de um condecorado por heróicos serviços prestados à pátria. Talvez nem precisaria mais voltar aos bancos escolares. Ou às escolas voltaria não como estudante. A elas, para palestras na qualidade de herói combatente. Relatos do front com os inimigos. Os inimigos da paz mundial. Os que atentavam diuturnamente contra a vida humana. Os que por causas torpes, grotescos e bárbaros motivos andam, súbito, explodindo-se em meio a multidões, matando inocentes; matando quem na rua está indo em busca da construção de sua vida e, abruptamente, é mortalmente interrompido por alguém que, ao arrebentar-se, instila seu letal veneno aos que o circundam. Países atrasados, ainda na Idade da Pedra. Ditadores guerreando contra ditadores. Uma multiplicidade de seitas mescladas a multíplices tribos, cada qual querendo a supremacia do poder. E o mundo civilizado pagando com a vida as conseqüências dessas estupidezes humanas.

Não. O presidente da República estava com razão. Havia que pôr fim, dar um basta definitivo a esses resquícios de barbárie emperrando a evolução do homem. Seria breve: Cheguei. Vi. Venci. Tal o poderio bélico do seu país. Os E.U.A. escorraçariam aquele Hitler oriental. Cadeia a pão, água e cobertor comum.

A invasão não encontraria obstáculos relevantes. Os suicidas certamente atentariam com suas performances espetaculares, circenses. Acontece que eles estariam devidamente preparados para anular quaisquer conseqüências de maior gravidade. Aparatos bélicos sofisticados e eficientes, com os quais estavam muito bem familiarizados.

Iriam. Colocariam a casa em ordem. Havia uma pesquisa fidedigna confirmando a grande vontade dos iraquianos ávidos de paz e civilidade e de que eles fizessem logo e bem feito o serviço.

Tornaria a casa com promoção certa e outros pressupostos. Uma vertiginosa carreira militar numa caserna mundialmente respeitadíssima. É certo que, às vezes, o incomodava a história da guerra contra o Vietnan. Uma guerra de que os norte-americanos não gostam de se lembrar. Que causou inumeráveis traumatismos até hoje vivos. Que se tornou vivo filão a filmes que obtiveram grandes sucessos, tal a variedade de leituras gerou a complexidade de uma guerra que também era para ser uma rápida invasão e ocupação.

Não. Décadas depois, a situação é outra. O povo americano, naquela ocasião, muito divido, hoje é quase unânime a favor. Hoje a hegemonia americana de poder é absoluta. Não havia dúvida: ir, vencer e tornar sendo um herói de guerra. Sabia e tinha fé de que era um rapaz bem mais acima do que apenas amar os Beatles e os Rolling Stones.

Foram. Poderosos. Invadiram. Ocuparam. Ovacionados. Hostilizados. Instalaram-se. Patrulhamentos. Os atentados. A vigilância. As baixas maiores do que esperadas nas fileiras anglo-americanas. O patrulhamento sob tensão. Muita atenção. Não podiam se deixar surpreender pelos suicidas.

Um episódio. Súbito veio vindo de encontro ao comboio uma pessoa. Era uma mulher. Determinou que fizessem alto. Os patrulheiros, arma em riste esperando. Uma bela mulher iraquiana avançando lentamente. Em alto e bom som acompanhado do gesto de mão, ordenou-lhe que se detivesse. A bela iraquiana estendendo diante de si uma estampa de Gandhi. O velho truque! Tornou a gritar-lhe stop! Avançava, porém, a iraquiana bela indelevelmente. Agora, já podia vê-la melhor. Linda. Linda como sua mãe! Linda, como sua noiva. Naquele instante, era um comandante completamente nevrose e dever. Era o velho truque!

Berrou outra vez stop! Linda como sua noiva! Linda como a serenidade de sua mãe! Era o velho truque! O velho truque! Cerrou os olhos. Rilhou os dentes e urrou que fizessem fogo. Fogo! Fogo! Depois, viu a moça estendida e sobre ela a mortalha de Gandhi. Gritou que prosseguissem!

A saudade. Há meses lá estavam. Precisava ir embora. Os iraquianos iam vietnamizando aquela pós-ocupação. Os traumatismos como o de há pouco. Não queria mais condecoração nenhuma. Queria muito, urgentemente, queria voltar ao conforto do protecionismo de sua mãe. Queria os carinhos, a ternura de seu amor.

 


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