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Sobre o ser e estar das flores

Data 26/jun/2003

A presença das flores na sua formação foi constante. Provinha de uma geração atraída pelas flores. Não identificava, concretamente, visíveis, quanto menos notórios traços líricos. Tudo parecia acontecer como por hábito, por código cultural. Como se flores fizessem parte da vida cultivada desde há muito. Flores como o ar que se respira. Como o sol girando o dia. A lua girando a noite. As nuvens construindo chuvas. As estrelas enfeitando a noite. Como os pássaros sonorizando o silêncio. Como as abelhas nelas colhendo o néctar. Como as minhocas subterraneamente fertilizando o solo. Como o trabalho gerando a riqueza corruptamente distribuída. Como a corrupção gerando as profundas e desumanas desigualdades.

Semear, plantar, cultivar flores como cuidar das aves do quintal. Trocar a água dos bebedouros. Adicionar remédio contra as doenças. Visitar os ninhos. Garantir o ovo endez. No terreiro, manhãzinha, tardezinha - elas já estão todas reunidas, galinaceamente barulhando por ele --, arremessar o milho. E, enquanto comem, conferir as presenças, observar o seu estado.

Cultivar flores como se ia ao mangueirão cuidar dos porcos. Como se ia ao chiqueiro. Limpar. Dar de comer. Dar de beber. Observar o estado deles, dedicar especial atenção ao capado próximo para o sacrifício ao alimento da casa. Especial atenção à leitoa sendo para o Natal.

Cultivar flores como se cuida da casa. Remover o pó. Recolocar as coisas no seu lugar. Separar a roupa suja. Recolocar no lugar os sapatos, chinelos espalhados no corre-corre do dia ( As botas do marido, a botinas - e, em sua temporada especial, as botinas, os congas, os chinelos dos netos.). Arrumar as camas (Higienizar os penicos).

As flores. Se jardim se chamasse, porque pés-de-flor o compunham, sempre seria um peculiar jardim. Sua composição se fazia no entorno da casa. Somente as passagens, as entradas e saídas - porta da sala e porta da cozinha - brevemente lacunavam aquele corpo heterovegetal serpeando a calçada da casa. Iam-no compondo margaridas. Sempre-vivas. Lírios. Antúrios. Crisântemos. Rosas. Hibiscos. Damas-da-noite. Cravos.

Manhãs e tardezinhas, o jardim era contornado por rápidas e experientes vistorias. As quais cortavam galhos ou não. Repunham terra ou não. Interrompiam excessivas intromissões entre espécies. Repunha esterco (de galinha, pouco, tido como muito forte, demais podia matar; de gado à vontade, mais suave).Quando o golpe de vista determinava, fazia-se a poda. Aí, vistoria com ou sem intervenções feitas, aí depois, se fazia a aguada.

Esse modo próprio de jardinagem ficou dela nas filhas. Destas foi para as filhas. A semelhante forma de compor jardim. Jardins que se remetem mutuamente. Os filhos são homens. Homens apenas olham as flores. Tem-nas como um componente da beleza. E as associam a mulheres. Por isso, com reservas, com elas se relacionam. Excesso de flor é feminismo. É feminilidade.

Ele, entretanto, indiferentemente, contrariava essa axiologia. Contrariava-a por ter com as flores uma relação masculino-feminina. A beleza, a delicadeza, o grácil delas desde a gênese, não apenas flores em si mesmas. Estreitava-se muito com elas. Cultivo, apreciação. Demorado namoro à primeira vista, quando súbito se encontram na rua, na praça, no campo, na estrada, num jardim, no lixo.

Sabe-as delicadas, rudes, másculas, femininas, frágeis, resistentes. Tem especial atenção por aquelas que, filhas unicamente da natureza, rompem as adversidades e se sobrepõem lindas, resplendentes em meio a pastos, cipoais, monturos, matas, matagais. Haja vista as florzinhas de São João aboboramente serpeando cercas, recobrindo barrancos de beira-de-estrada.

Repugna-lhe, todavia, a mórbida placidez das imitações. Seja as de papel, seja as de pano, seja as de plástico. Incomoda-o o cultivo artificial, as coroas de flores. Ama-as vivas, sutilmente nascidas num canto de monturo na calçada. Alegremente pendentes de um muro dando para rua. Bandeirosamente em canteiros de quintais expostos. Flores devotadas à fecundação da vida.

 



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