A
presença das flores na sua formação foi
constante. Provinha de uma geração atraída
pelas flores. Não identificava, concretamente, visíveis,
quanto menos notórios traços líricos.
Tudo parecia acontecer como por hábito, por código
cultural. Como se flores fizessem parte da vida cultivada
desde há muito. Flores como o ar que se respira. Como
o sol girando o dia. A lua girando a noite. As nuvens construindo
chuvas. As estrelas enfeitando a noite. Como os pássaros
sonorizando o silêncio. Como as abelhas nelas colhendo
o néctar. Como as minhocas subterraneamente fertilizando
o solo. Como o trabalho gerando a riqueza corruptamente distribuída.
Como a corrupção gerando as profundas e desumanas
desigualdades.
Semear,
plantar, cultivar flores como cuidar das aves do quintal.
Trocar a água dos bebedouros. Adicionar remédio
contra as doenças. Visitar os ninhos. Garantir o ovo
endez. No terreiro, manhãzinha, tardezinha - elas já
estão todas reunidas, galinaceamente barulhando por
ele --, arremessar o milho. E, enquanto comem, conferir as
presenças, observar o seu estado.
Cultivar
flores como se ia ao mangueirão cuidar dos porcos.
Como se ia ao chiqueiro. Limpar. Dar de comer. Dar de beber.
Observar o estado deles, dedicar especial atenção
ao capado próximo para o sacrifício ao alimento
da casa. Especial atenção à leitoa sendo
para o Natal.
Cultivar
flores como se cuida da casa. Remover o pó. Recolocar
as coisas no seu lugar. Separar a roupa suja. Recolocar no
lugar os sapatos, chinelos espalhados no corre-corre do dia
( As botas do marido, a botinas - e, em sua temporada especial,
as botinas, os congas, os chinelos dos netos.). Arrumar as
camas (Higienizar os penicos).
As
flores. Se jardim se chamasse, porque pés-de-flor o
compunham, sempre seria um peculiar jardim. Sua composição
se fazia no entorno da casa. Somente as passagens, as entradas
e saídas - porta da sala e porta da cozinha - brevemente
lacunavam aquele corpo heterovegetal serpeando a calçada
da casa. Iam-no compondo margaridas. Sempre-vivas. Lírios.
Antúrios. Crisântemos. Rosas. Hibiscos. Damas-da-noite.
Cravos.
Manhãs
e tardezinhas, o jardim era contornado por rápidas
e experientes vistorias. As quais cortavam galhos ou não.
Repunham terra ou não. Interrompiam excessivas intromissões
entre espécies. Repunha esterco (de galinha, pouco,
tido como muito forte, demais podia matar; de gado à
vontade, mais suave).Quando o golpe de vista determinava,
fazia-se a poda. Aí, vistoria com ou sem intervenções
feitas, aí depois, se fazia a aguada.
Esse
modo próprio de jardinagem ficou dela nas filhas. Destas
foi para as filhas. A semelhante forma de compor jardim. Jardins
que se remetem mutuamente. Os filhos são homens. Homens
apenas olham as flores. Tem-nas como um componente da beleza.
E as associam a mulheres. Por isso, com reservas, com elas
se relacionam. Excesso de flor é feminismo. É
feminilidade.
Ele,
entretanto, indiferentemente, contrariava essa axiologia.
Contrariava-a por ter com as flores uma relação
masculino-feminina. A beleza, a delicadeza, o grácil
delas desde a gênese, não apenas flores em si
mesmas. Estreitava-se muito com elas. Cultivo, apreciação.
Demorado namoro à primeira vista, quando súbito
se encontram na rua, na praça, no campo, na estrada,
num jardim, no lixo.
Sabe-as
delicadas, rudes, másculas, femininas, frágeis,
resistentes. Tem especial atenção por aquelas
que, filhas unicamente da natureza, rompem as adversidades
e se sobrepõem lindas, resplendentes em meio a pastos,
cipoais, monturos, matas, matagais. Haja vista as florzinhas
de São João aboboramente serpeando cercas, recobrindo
barrancos de beira-de-estrada.
Repugna-lhe,
todavia, a mórbida placidez das imitações.
Seja as de papel, seja as de pano, seja as de plástico.
Incomoda-o o cultivo artificial, as coroas de flores. Ama-as
vivas, sutilmente nascidas num canto de monturo na calçada.
Alegremente pendentes de um muro dando para rua. Bandeirosamente
em canteiros de quintais expostos. Flores devotadas à
fecundação da vida.