Os
homens espiam a mulheres. Mulheres-esposa. Mulheres-filha.
Mulheres-mãe. Mulheres-avó. Espiam os homens
as mulheres que passam. Mulheres que passam sabendo que são
espiadas. Mulheres que passam sensuais, requebrando em ritmos
promocionais. Mulheres anunciando-se em seus saltos altos,
em seus tamancos, em seu exotismo visual. Mulheres requisintando
vistas: estabanam-se, altifalantes, maquiam-se esfusiantes.
Homens
espiam mulheres. Mulheres de meia idade. Mulheres que se entregam
à cor que a pacatez lhes traz. Certas rugas, tons de
grisalhos grassando. O ventre teimando em avolumar-se. O culote.
Insinuante papada. Os olhos pedindo óculos, as mãos
descobrindo manchas, incertos nódulos. Incômodas
palpitações, as nádegas teimando em avolumar.
Os
homens espiam mulheres de meia idade que apressam-se em combater
as rugas: cremes contra, massagens, acoitam o gris com tinturas
discretas umas, buscando jovialidade muitas. Consultam endocrinologista,
nutricionistas, receitas populares, artigos em revistas. Entregam-se
à guerra das dietas, vão às academias
de ginástica, fazem caminhada, freqüentam hidromassagem.
Mais do que nunca camuflam sua idade.
Homens
mal espiam mulheres idosas. Corcundas insinuando-se numas,
visivelmente exposta noutras. Passos curtos. Obesidade insistindo.
Reumatismos renitentes, artroses compulsivas. O engelhamento,
as rugas indisfarçáveis. Mulheres idosas vaidosas.
Vão a massagens. Vão a hidromassagens. Muitas
depilagens. Várias plásticas, umas velhotas
beldades. Longas caminhadas. Fazem-se dançarinas. Não
dispensam as academias. Freqüentam as universidades da
terceira idade. A homens que as espiam, mulheres idosas são
mãe. São avó. São frágeis
texturas dignas de todo cuidado.
Homens
há que espreitam gurias. Meninas. Infantes. Adolescentes.
Não as perdem de vista. Aproximam-se. Apascentam-nas.
Glutões tomados por sua impiedosa pedofilia.
As
mulheres espiam os homens. Homens-marido. Homens-filho. Homens-pai.
Homens-avô. Homens muitos que não pensam em estar
sendo espiados. Homens alguns que se sabem espiados; outros
que se pressupõem espiados; outros que fazem por ser
espiados.
As
mulheres espiam. Espiam mesmo que deveras não desejem
espiar. Espiam por compulsão feminil. Espiam homens
ainda quando as repugnam. Espiam homens truculentos. Espiam
homens sem lenço e sem documento. Espiam homens isentos.
Espiam homens sem nenhum talento.
Mulheres
espiam homens jovens. Masculinidade exposta: são musculosos,
são sem barriga, erectos e bem postos. Cultivam o esporte
e outros jogos. Dados a emoções fortes. Muitas
vezes puros brutamontes. Jovens bem pensantes, jovens inconstantes,
jovens cheios de rompantes, jovens arrogantes, jovens judiciosos.
Mulheres
espiam certos homens insuportáveis. Homens inescrupulosos.
Dados ao sórdido, com propostas escusas escorrendo
por suas mãos sujas. Homens corruptos cheirando a naftalina,
cheiradores de cocaína. Obesos que arrotam à
mesa, flatulejam estrepitosamente à sobeja.
Mulheres
espiam homens com dentes limados a caninos de cães
uivantes, famintos babando seus instintos. Homens rotos empestados
de cachaça, truculentos indiferentes a desgraças.
Mulheres
espreitam homens de meia idade. Homens vaidosos cujo gris
se acoberta por tintas pretas, tintas castanhas. Homens cuja
barriga insiste na protuberância; cujo colesterol, triglicérides,
hipertensão persistem. Homens de meia idade que usam
esmalte, protetor solar, raspam barba e bigode, fazem regime,
são vegetarianos, tomam poções revigorantes,
fazem pedicuro e limpeza de pele. Mulheres espreitam homens
de meia idade que se devotam ao esporte, bebem cerveja e apascentam
a sorte.
Mulheres
mal espiam velhinhos quase pela hora da morte. Têm constantes
tosses, pigarras e catarros de cigarros. São friorentos,
rabugentos. Mulheres mal espiam homens idosos para os quais
a vida é uma eterna consorte.
Homens
espiam mulheres que espreitam homens. Homens são com
mulheres que espreitam, mulheres que são homens que
espiam.