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Espreitoespiação

Data 19/jun/2003

Os homens espiam a mulheres. Mulheres-esposa. Mulheres-filha. Mulheres-mãe. Mulheres-avó. Espiam os homens as mulheres que passam. Mulheres que passam sabendo que são espiadas. Mulheres que passam sensuais, requebrando em ritmos promocionais. Mulheres anunciando-se em seus saltos altos, em seus tamancos, em seu exotismo visual. Mulheres requisintando vistas: estabanam-se, altifalantes, maquiam-se esfusiantes.

Homens espiam mulheres. Mulheres de meia idade. Mulheres que se entregam à cor que a pacatez lhes traz. Certas rugas, tons de grisalhos grassando. O ventre teimando em avolumar-se. O culote. Insinuante papada. Os olhos pedindo óculos, as mãos descobrindo manchas, incertos nódulos. Incômodas palpitações, as nádegas teimando em avolumar.

Os homens espiam mulheres de meia idade que apressam-se em combater as rugas: cremes contra, massagens, acoitam o gris com tinturas discretas umas, buscando jovialidade muitas. Consultam endocrinologista, nutricionistas, receitas populares, artigos em revistas. Entregam-se à guerra das dietas, vão às academias de ginástica, fazem caminhada, freqüentam hidromassagem. Mais do que nunca camuflam sua idade.

Homens mal espiam mulheres idosas. Corcundas insinuando-se numas, visivelmente exposta noutras. Passos curtos. Obesidade insistindo. Reumatismos renitentes, artroses compulsivas. O engelhamento, as rugas indisfarçáveis. Mulheres idosas vaidosas. Vão a massagens. Vão a hidromassagens. Muitas depilagens. Várias plásticas, umas velhotas beldades. Longas caminhadas. Fazem-se dançarinas. Não dispensam as academias. Freqüentam as universidades da terceira idade. A homens que as espiam, mulheres idosas são mãe. São avó. São frágeis texturas dignas de todo cuidado.

Homens há que espreitam gurias. Meninas. Infantes. Adolescentes. Não as perdem de vista. Aproximam-se. Apascentam-nas. Glutões tomados por sua impiedosa pedofilia.

As mulheres espiam os homens. Homens-marido. Homens-filho. Homens-pai. Homens-avô. Homens muitos que não pensam em estar sendo espiados. Homens alguns que se sabem espiados; outros que se pressupõem espiados; outros que fazem por ser espiados.

As mulheres espiam. Espiam mesmo que deveras não desejem espiar. Espiam por compulsão feminil. Espiam homens ainda quando as repugnam. Espiam homens truculentos. Espiam homens sem lenço e sem documento. Espiam homens isentos. Espiam homens sem nenhum talento.

Mulheres espiam homens jovens. Masculinidade exposta: são musculosos, são sem barriga, erectos e bem postos. Cultivam o esporte e outros jogos. Dados a emoções fortes. Muitas vezes puros brutamontes. Jovens bem pensantes, jovens inconstantes, jovens cheios de rompantes, jovens arrogantes, jovens judiciosos.

Mulheres espiam certos homens insuportáveis. Homens inescrupulosos. Dados ao sórdido, com propostas escusas escorrendo por suas mãos sujas. Homens corruptos cheirando a naftalina, cheiradores de cocaína. Obesos que arrotam à mesa, flatulejam estrepitosamente à sobeja.

Mulheres espiam homens com dentes limados a caninos de cães uivantes, famintos babando seus instintos. Homens rotos empestados de cachaça, truculentos indiferentes a desgraças.

Mulheres espreitam homens de meia idade. Homens vaidosos cujo gris se acoberta por tintas pretas, tintas castanhas. Homens cuja barriga insiste na protuberância; cujo colesterol, triglicérides, hipertensão persistem. Homens de meia idade que usam esmalte, protetor solar, raspam barba e bigode, fazem regime, são vegetarianos, tomam poções revigorantes, fazem pedicuro e limpeza de pele. Mulheres espreitam homens de meia idade que se devotam ao esporte, bebem cerveja e apascentam a sorte.

Mulheres mal espiam velhinhos quase pela hora da morte. Têm constantes tosses, pigarras e catarros de cigarros. São friorentos, rabugentos. Mulheres mal espiam homens idosos para os quais a vida é uma eterna consorte.

Homens espiam mulheres que espreitam homens. Homens são com mulheres que espreitam, mulheres que são homens que espiam.

 



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