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No princípio era o caos

Data 12/jun/2003

Viagem longa. De ônibus. Não desses contemporâneos: air bus, visão panorâmica; poltrona estofadamente confortável; suportes para água, revistas; cortinas quebra-luz de qualidade; luz individual; tevê-vídeo. Essas coisas.

Não era assim. Tudo ainda estava em estágio anterior. Tampouco a rodovia, que se chamava estrada havia sido pavimentada. A bem dizer, aquela ainda era uma anteestrada. Estrada se fazendo pelo tráfego. As longas chuvas de verão. Os acentuados estios outoninvernos. Desvios acabavam por ficar estrada. Estrada virava pasto. Pasto natural. Que ali, a grande extensão de terra, suscetível a grilagem, era Estado. É certo que a voragem grileira ia a passos largos. Mas a terra de ninguém ainda era muita.

Pastagem natural. Semidesmatamentos. Mata nativa. Animais selvagens. Vaqueiros tangendo gado. Bois longínquos na paisagem pastando dispersamente. Vez em quando, pequenos automóveis driblando buracos, areiões-atoleiros; driblando veículos em sentido contrário; driblando a si mesmos.

Tudo visto através do vidro emperrado da janela. Sempre prefere a poltrona da janela. De onde descortina o pedaço de realidade que a viagem autoriza.

Viagem longa. Feito menino tomado de ansiedade e impaciência. Em viagem primeira de visita a lugar muito desejado. Ou viagem de outra vez a lugar tão querido. Vai em brasas. O tempo é uma lesma. O trem é devagar em seu monótono barulho do atrito rodas contra trilhos. O ônibus é lerdo. Sua gemedeira dorida quando subindo as íngremes ladeiras de terra batida e esburacada. Ele quer logo a fazenda. Os pomares repletos de laranjas. As mangas. Os abacates. As caçadas pelas manhãs no cafezal. O irresistível mamão em meio a pés-de-café. As tardes de banho e brincadeiras no rio. As cavalgadas à tardezinha. Ah! como eram lerdos! Há muito a fazenda inteira assim com todos os seus componentes já o habitava, e aquele ônibus zumbindo monótono pela estrada; aquele trem! Retardatariamente incontroláveis.

Viagem longa. Dois outros passageiros, o do seu lado e o do lado deste, seus interlocutores de viagem. Eram do lugar. Detinham os conhecimentos necessários para atender às incessantes indagações que o acometiam. E elas pareciam dispostas e solícitas às ansiedades suas. Simpáticas. Risonhas. Por vezes riam muito com certas questões que ele fazia.

Longa era a viagem. Duas paradas mais demoradas. A primeira para o almoço. A viagem começava de madrugada. Sua missão talvez fosse multiutil. A si e ao lugar. Sabia haver muito por fazer, embora isso não fosse dito; embora não houvessem solicitado nada; embora isso fosse claro, de certo, a ele tão-somente.

No almoço procurou sondar suas acompanhantes. Duas já não-adolescentes. Na outra parada, uma quase hora de jantar, também tornou a conduzir a conversa àquilo. Não deixavam entrever qualquer indício a respeito. Pensara mesmo que talvez nem se dessem conta disso. Conquanto a viagem fosse longa, até mais incômoda a delicadezas, elas não perdiam a disposição do bom-humor. Nada além.

Todavia, sabia ele o quanto ali esperava por ser feito. Queria, antes de tudo, o que era mais do que esperável, com seus sentidos conhecer. Sabia quase tudo ou tudo o que convencionalmente é dado a saber. Tudo escrito, desenhado, traçado, fotografado, filmado. Isso tudo, porém, não fora ainda visto por seus olhos; cheirado por seu olfato; captado por seus ouvidos; degustado por seu paladar; tateado por suas mãos, seus pés. E mais, tudo de que assim dispunha, não havia sido disposto por seu olhar, por seu juízo, por sua emoção, por seu sentimento.

Chegados. Ia ainda na janela. Agora avidamente já buscando saber do lugar. Mas era noite andada. Quase tudo às escuras. Uns botecos, umas vendas com lampião de gás. Primeira aprendizagem: as colegas de viagem informaram da energia precária gerada a motor diesel.

No ponto apearam (Como elas disseram.). Conduziram-no ao único hotel. Iam em silêncio. E nesse curto trajeto esboçou o seu primeiro e fecundo projeto: as duas recém-amigas poderiam dividir com ele a grande missão.



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