Viagem
longa. De ônibus. Não desses contemporâneos:
air bus, visão panorâmica; poltrona estofadamente
confortável; suportes para água, revistas; cortinas
quebra-luz de qualidade; luz individual; tevê-vídeo.
Essas coisas.
Não
era assim. Tudo ainda estava em estágio anterior. Tampouco
a rodovia, que se chamava estrada havia sido pavimentada.
A bem dizer, aquela ainda era uma anteestrada. Estrada se
fazendo pelo tráfego. As longas chuvas de verão.
Os acentuados estios outoninvernos. Desvios acabavam por ficar
estrada. Estrada virava pasto. Pasto natural. Que ali, a grande
extensão de terra, suscetível a grilagem, era
Estado. É certo que a voragem grileira ia a passos
largos. Mas a terra de ninguém ainda era muita.
Pastagem
natural. Semidesmatamentos. Mata nativa. Animais selvagens.
Vaqueiros tangendo gado. Bois longínquos na paisagem
pastando dispersamente. Vez em quando, pequenos automóveis
driblando buracos, areiões-atoleiros; driblando veículos
em sentido contrário; driblando a si mesmos.
Tudo
visto através do vidro emperrado da janela. Sempre
prefere a poltrona da janela. De onde descortina o pedaço
de realidade que a viagem autoriza.
Viagem
longa. Feito menino tomado de ansiedade e impaciência.
Em viagem primeira de visita a lugar muito desejado. Ou viagem
de outra vez a lugar tão querido. Vai em brasas. O
tempo é uma lesma. O trem é devagar em seu monótono
barulho do atrito rodas contra trilhos. O ônibus é
lerdo. Sua gemedeira dorida quando subindo as íngremes
ladeiras de terra batida e esburacada. Ele quer logo a fazenda.
Os pomares repletos de laranjas. As mangas. Os abacates. As
caçadas pelas manhãs no cafezal. O irresistível
mamão em meio a pés-de-café. As tardes
de banho e brincadeiras no rio. As cavalgadas à tardezinha.
Ah! como eram lerdos! Há muito a fazenda inteira assim
com todos os seus componentes já o habitava, e aquele
ônibus zumbindo monótono pela estrada; aquele
trem! Retardatariamente incontroláveis.
Viagem
longa. Dois outros passageiros, o do seu lado e o do lado
deste, seus interlocutores de viagem. Eram do lugar. Detinham
os conhecimentos necessários para atender às
incessantes indagações que o acometiam. E elas
pareciam dispostas e solícitas às ansiedades
suas. Simpáticas. Risonhas. Por vezes riam muito com
certas questões que ele fazia.
Longa
era a viagem. Duas paradas mais demoradas. A primeira para
o almoço. A viagem começava de madrugada. Sua
missão talvez fosse multiutil. A si e ao lugar. Sabia
haver muito por fazer, embora isso não fosse dito;
embora não houvessem solicitado nada; embora isso fosse
claro, de certo, a ele tão-somente.
No
almoço procurou sondar suas acompanhantes. Duas já
não-adolescentes. Na outra parada, uma quase hora de
jantar, também tornou a conduzir a conversa àquilo.
Não deixavam entrever qualquer indício a respeito.
Pensara mesmo que talvez nem se dessem conta disso. Conquanto
a viagem fosse longa, até mais incômoda a delicadezas,
elas não perdiam a disposição do bom-humor.
Nada além.
Todavia,
sabia ele o quanto ali esperava por ser feito. Queria, antes
de tudo, o que era mais do que esperável, com seus
sentidos conhecer. Sabia quase tudo ou tudo o que convencionalmente
é dado a saber. Tudo escrito, desenhado, traçado,
fotografado, filmado. Isso tudo, porém, não
fora ainda visto por seus olhos; cheirado por seu olfato;
captado por seus ouvidos; degustado por seu paladar; tateado
por suas mãos, seus pés. E mais, tudo de que
assim dispunha, não havia sido disposto por seu olhar,
por seu juízo, por sua emoção, por seu
sentimento.
Chegados.
Ia ainda na janela. Agora avidamente já buscando saber
do lugar. Mas era noite andada. Quase tudo às escuras.
Uns botecos, umas vendas com lampião de gás.
Primeira aprendizagem: as colegas de viagem informaram da
energia precária gerada a motor diesel.
No
ponto apearam (Como elas disseram.). Conduziram-no ao único
hotel. Iam em silêncio. E nesse curto trajeto esboçou
o seu primeiro e fecundo projeto: as duas recém-amigas
poderiam dividir com ele a grande missão.