A
mesma manhã de verão, sol e calor não
é a mesma. Não é o mesmo o mesmo quintal
onde crescem as gramas. Onde espicham os coqueiros que não
são os mesmos. Onde as mesmas primaveras que não
são as mesmas escorrem seus espinhos e flores pelo
muro. Onde cada vez mais menos o mesmo um fim de limoeiro.
Onde efêmeras borboletas esvoejam para não ser
a pouco as mesmas. Onde os mesmos cajueiros da mesma raiz
retorcidos para pontos opostos não são os mesmos.
Onde os mesmos proprietários do quintal não
são os mesmos.
O
mesmo amor renovado a cada beijo, a cada afago, a cada coito
não é o mesmo. Não é a mesma a
mão que frêmita traçou uma carícia;
a mesma mão que cevou o pão, a mesma que fez
a incisão, que suturou com precisão. A mesma
mão que repartiu o pão, que espargiu a bênção.
A mesma mão que escreveu o poema, que traçou
os projetos, que limpou os dejetos, que ergueu os prédios.
A mesma mão que apascentou o feto, que esboçou
muitos gestos. A mão que se entregou ao neto. A mão
que apunhala, que dispara, que mata, que espanca, que profana.
A mão que tateia, que passeia, que devaneia, que semeia,
delineia, que esfaqueia. A mão que se esguelha, que
se esmera, que impera. Essas mesmas mãos todas não
são as mesmas.
A
mesma palavra não é a mesma. A mesma palavra
sacra não é a mesma. A palavra mesma não
é a mesma. A palavra misericórdia não
é a mesma. A palavra amor não é a mesma.
A palavra dor não é a mesma. A palavra rancor
não é a mesma. A palavra esplendor não
é a mesma. Não é a mesma a palavra sucessor.
A palavra ordem, a palavra lorde, a palavra recorde, a palavra
ode, a palavra explode, a palavra foge, não são
as mesmas palavras. A palavra pai, a palavra mãe, a
palavra filho, a palavra espírito, não são
as mesmas, amém.
O
mesmo rio que não é o mesmo corre para o mar
que não é o mesmo, nem mesmo quando é
o mesmo oceano. O mesmo céu não é o mesmo
azul que a memória esquecida guarda. Como não
é a mesma a chuva que sobre a terra dele desaba. Como
não são as mesmas as estrelas que nele pastam
feito uma multidão de ovelhas e cabras. Como mesma
não é, a lua, pastora ensimesmada e muda, que
com seu sobretudo de lã pura circunvaga a conferir
e buscar alguma estrela acaso desgarrada.
A
mesma tempestade que devasta o frágil, o precário,
o improviso; a mesma tempestade que incomoda e desarranja
precauções e fortalezas, essas não são
as mesmas. As mesmas cheias cujas águas plufluviais
vultuosamente desvairadas rompem as margens, inundam, imundam,
desnudam, desmoronam, não são as mesmas.
Os
mesmos programas televisivos ousados, abusivos, inventivos,
homogeneizando gostos, etiquetas, modas, modos, modelos, sonhos,
não são os mesmos. As mesmas novelas cujos enredos
são os mesmos não são as mesmas.
As
mesmas Igrejas e seitas em que almas requerem do corpo penitências,
abstinências, conveniências, não são
as mesmas. As mesmas contra-igrejas, as mesmas contra-seitas,
as mesmas increnças cujo corpo abole a alma não
são as mesmas.
A
morte mesmo, impávida e mesma, fechada em seu mesmo
mistério, infundindo medos com seu intrínseco
segredo não é a mesma. Como não é
nunca a mesma a mesma vida severina, a mesma vida desvalida,
subdesenvolvida, exposta, extorquida no Sudão, na Somália,
aqui pelas esquinas, pelas avenidas, pelas periferias, nas
via-crucis nordestinas.
Mesmo
as mesmas classificações humanas: direita, esquerda,
centro, nobreza, burguesa, rico, pobre, mendigo, socialista,
capitalista. Mesmo os mesmos governos, os mesmos partidos,
os mesmos operários, os mesmos políticos, os
mesmos professores, os mesmos atores, os mesmos artistas,
os mesmos críticos, não são os mesmos.
Mesmo
essa mesma angustiante necessidade da desmesmice não
é a mesma.