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O mesmo da desmesmice

Data 05/jun/2003

A mesma manhã de verão, sol e calor não é a mesma. Não é o mesmo o mesmo quintal onde crescem as gramas. Onde espicham os coqueiros que não são os mesmos. Onde as mesmas primaveras que não são as mesmas escorrem seus espinhos e flores pelo muro. Onde cada vez mais menos o mesmo um fim de limoeiro. Onde efêmeras borboletas esvoejam para não ser a pouco as mesmas. Onde os mesmos cajueiros da mesma raiz retorcidos para pontos opostos não são os mesmos. Onde os mesmos proprietários do quintal não são os mesmos.

O mesmo amor renovado a cada beijo, a cada afago, a cada coito não é o mesmo. Não é a mesma a mão que frêmita traçou uma carícia; a mesma mão que cevou o pão, a mesma que fez a incisão, que suturou com precisão. A mesma mão que repartiu o pão, que espargiu a bênção. A mesma mão que escreveu o poema, que traçou os projetos, que limpou os dejetos, que ergueu os prédios. A mesma mão que apascentou o feto, que esboçou muitos gestos. A mão que se entregou ao neto. A mão que apunhala, que dispara, que mata, que espanca, que profana. A mão que tateia, que passeia, que devaneia, que semeia, delineia, que esfaqueia. A mão que se esguelha, que se esmera, que impera. Essas mesmas mãos todas não são as mesmas.

A mesma palavra não é a mesma. A mesma palavra sacra não é a mesma. A palavra mesma não é a mesma. A palavra misericórdia não é a mesma. A palavra amor não é a mesma. A palavra dor não é a mesma. A palavra rancor não é a mesma. A palavra esplendor não é a mesma. Não é a mesma a palavra sucessor. A palavra ordem, a palavra lorde, a palavra recorde, a palavra ode, a palavra explode, a palavra foge, não são as mesmas palavras. A palavra pai, a palavra mãe, a palavra filho, a palavra espírito, não são as mesmas, amém.

O mesmo rio que não é o mesmo corre para o mar que não é o mesmo, nem mesmo quando é o mesmo oceano. O mesmo céu não é o mesmo azul que a memória esquecida guarda. Como não é a mesma a chuva que sobre a terra dele desaba. Como não são as mesmas as estrelas que nele pastam feito uma multidão de ovelhas e cabras. Como mesma não é, a lua, pastora ensimesmada e muda, que com seu sobretudo de lã pura circunvaga a conferir e buscar alguma estrela acaso desgarrada.

A mesma tempestade que devasta o frágil, o precário, o improviso; a mesma tempestade que incomoda e desarranja precauções e fortalezas, essas não são as mesmas. As mesmas cheias cujas águas plufluviais vultuosamente desvairadas rompem as margens, inundam, imundam, desnudam, desmoronam, não são as mesmas.

Os mesmos programas televisivos ousados, abusivos, inventivos, homogeneizando gostos, etiquetas, modas, modos, modelos, sonhos, não são os mesmos. As mesmas novelas cujos enredos são os mesmos não são as mesmas.

As mesmas Igrejas e seitas em que almas requerem do corpo penitências, abstinências, conveniências, não são as mesmas. As mesmas contra-igrejas, as mesmas contra-seitas, as mesmas increnças cujo corpo abole a alma não são as mesmas.

A morte mesmo, impávida e mesma, fechada em seu mesmo mistério, infundindo medos com seu intrínseco segredo não é a mesma. Como não é nunca a mesma a mesma vida severina, a mesma vida desvalida, subdesenvolvida, exposta, extorquida no Sudão, na Somália, aqui pelas esquinas, pelas avenidas, pelas periferias, nas via-crucis nordestinas.

Mesmo as mesmas classificações humanas: direita, esquerda, centro, nobreza, burguesa, rico, pobre, mendigo, socialista, capitalista. Mesmo os mesmos governos, os mesmos partidos, os mesmos operários, os mesmos políticos, os mesmos professores, os mesmos atores, os mesmos artistas, os mesmos críticos, não são os mesmos.

Mesmo essa mesma angustiante necessidade da desmesmice não é a mesma.



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