O
desconforto não é uniforme, como tudo. Por isso,
como tudo, quanto mais, mais dramático. Poucos, talvez
se conformariam com o pouco, ou com o quase. E a vida os semeia.
São capins brotando do nada.
Se
destino é nada, senão o que se faz, também
o que não se faz acaba dando em destino. Restou ao
homem pensar, a si, o mais. E condenar a outrem o menos. Os
bichos, não. Pensem ou não. Não querem
nem mais, nem menos.
Certos
recintos reconfortam. Dignificam. Vai ali o sujeito como quem
ao encontro de sua mãe. Como quem ao encontro de sua
amada. Ou como quem se põe perigosamente a enfrentar
a astúcia. Astúcia que é poderosa, que
lhe concede, num suposto jogo democrático, sentir-se
capaz, não de vencê-la, mas de convencê-la.
O
que reconforta um homem não reconforta outro homem.
Mas todo homem quer seu conforto. E o que não se admite
em tese, se faz em terra: conforto implica desconforto. Conforto
seduz. Conforto relaxa. Conforto embriaga. Isto quando demanda
ao superuso. Isto quando fomenta a abundância. Isto
quando oblitera o juízo. Isto quando demanda a desperdício.
Mas
tanto fez o homem que tanto complicou o conceito. Muito maior
complexidade do que deveria tomar por arquétipo: o
Paraíso. E se foi e se vem substituindo o que era nível,
por muitos e múltiplos desníveis. O que era
passageiro, pelo que muda, mas não passa. O que era
estágio, para o que é sempre.
Impossível,
se é que se deva, conter essa marcha. Há o gérmen-motor
que fustiga, e inquieta, e angustia, e insacia, e endeusa,
e inferniza, e atemoriza, e fragiliza, e ensoberba, e adoece.
Ah! o homem padecente. Quando a natureza era natureza e sua
carne, dele, extensão da terra. Das árvores.
Da relva. Dos rios. Do barro. Da lama. Dos animais. Dos pássaros.
Ainda quando não mais fosse índio, nativo. Mas
carregava viva a chama, o sangue do chão que por um
nada o atraía, por um nada o comovia. Carregava vivo
o complexo sol, brisa, aromas, chuva, tempestade, céu
azul, inazul; rios correndo, chilreando; animais mugindo,
berrando, ganindo, uivando; pássaros. Quando esta natureza
sem incomodá-lo, sem cerceá-lo, olhava-o comovidamente
amorosa, estoicamente impávida e dizia, olá!,
meu filho; olá!, meu irmão. Quando assim era,
quando assim fora, o complexo era outro.
Deus
havia sido elegido eterno no céu, e a natureza na terra,
o cosmo, universo em que o Sol teceria a o dia e a Lua e as
estrelas teceriam a noite. Todavia, talvez, o atávico
pulso humano de querer o onde, de, por isso, escavar o imponderável,
de marchar obsessivamente para a verdade única, que
não se conforma ter de admitir que, desde que surgiu,
já a trouxe consigo, o atávico pulso humano
de querer o onde, se disse, conduziu este homem, quase completamente
desnaturado, a ir, ele, construindo a sua natureza. Natureza
não-irmã.
E
onde havia mata, ele construiu cidades. Onde havia árvores,
ele construiu ambientares. E os rios tornaram-se esgotos.
Aos pássaros, pudessem aventurar-se como citadinos.
Aos animais, confinarem-se, em espécimes de espécies
em zoológicos. As árvores, ornamentos, desde
que não-importunas.
E,
por vezes, talvez ainda compulsões de traços,
resquícios de ancestralidade, toma-o o irrefreável
desejo de à natureza primeira entregar-se. Por isso
preserva (comercialmente) certas reservas a que possa de vez
em quando, como um dos recursos para o seu descanso. Isso
por enquanto, que substitutivos vão sendo feitos. Até
que a Terra se torne uma pura crosta, invisível base
de uma absoluta civilização natureza.