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"Inomedonome"

Data 29/mai/2003

O desconforto não é uniforme, como tudo. Por isso, como tudo, quanto mais, mais dramático. Poucos, talvez se conformariam com o pouco, ou com o quase. E a vida os semeia. São capins brotando do nada.

Se destino é nada, senão o que se faz, também o que não se faz acaba dando em destino. Restou ao homem pensar, a si, o mais. E condenar a outrem o menos. Os bichos, não. Pensem ou não. Não querem nem mais, nem menos.

Certos recintos reconfortam. Dignificam. Vai ali o sujeito como quem ao encontro de sua mãe. Como quem ao encontro de sua amada. Ou como quem se põe perigosamente a enfrentar a astúcia. Astúcia que é poderosa, que lhe concede, num suposto jogo democrático, sentir-se capaz, não de vencê-la, mas de convencê-la.

O que reconforta um homem não reconforta outro homem. Mas todo homem quer seu conforto. E o que não se admite em tese, se faz em terra: conforto implica desconforto. Conforto seduz. Conforto relaxa. Conforto embriaga. Isto quando demanda ao superuso. Isto quando fomenta a abundância. Isto quando oblitera o juízo. Isto quando demanda a desperdício.

Mas tanto fez o homem que tanto complicou o conceito. Muito maior complexidade do que deveria tomar por arquétipo: o Paraíso. E se foi e se vem substituindo o que era nível, por muitos e múltiplos desníveis. O que era passageiro, pelo que muda, mas não passa. O que era estágio, para o que é sempre.

Impossível, se é que se deva, conter essa marcha. Há o gérmen-motor que fustiga, e inquieta, e angustia, e insacia, e endeusa, e inferniza, e atemoriza, e fragiliza, e ensoberba, e adoece. Ah! o homem padecente. Quando a natureza era natureza e sua carne, dele, extensão da terra. Das árvores. Da relva. Dos rios. Do barro. Da lama. Dos animais. Dos pássaros. Ainda quando não mais fosse índio, nativo. Mas carregava viva a chama, o sangue do chão que por um nada o atraía, por um nada o comovia. Carregava vivo o complexo sol, brisa, aromas, chuva, tempestade, céu azul, inazul; rios correndo, chilreando; animais mugindo, berrando, ganindo, uivando; pássaros. Quando esta natureza sem incomodá-lo, sem cerceá-lo, olhava-o comovidamente amorosa, estoicamente impávida e dizia, olá!, meu filho; olá!, meu irmão. Quando assim era, quando assim fora, o complexo era outro.

Deus havia sido elegido eterno no céu, e a natureza na terra, o cosmo, universo em que o Sol teceria a o dia e a Lua e as estrelas teceriam a noite. Todavia, talvez, o atávico pulso humano de querer o onde, de, por isso, escavar o imponderável, de marchar obsessivamente para a verdade única, que não se conforma ter de admitir que, desde que surgiu, já a trouxe consigo, o atávico pulso humano de querer o onde, se disse, conduziu este homem, quase completamente desnaturado, a ir, ele, construindo a sua natureza. Natureza não-irmã.

E onde havia mata, ele construiu cidades. Onde havia árvores, ele construiu ambientares. E os rios tornaram-se esgotos. Aos pássaros, pudessem aventurar-se como citadinos. Aos animais, confinarem-se, em espécimes de espécies em zoológicos. As árvores, ornamentos, desde que não-importunas.

E, por vezes, talvez ainda compulsões de traços, resquícios de ancestralidade, toma-o o irrefreável desejo de à natureza primeira entregar-se. Por isso preserva (comercialmente) certas reservas a que possa de vez em quando, como um dos recursos para o seu descanso. Isso por enquanto, que substitutivos vão sendo feitos. Até que a Terra se torne uma pura crosta, invisível base de uma absoluta civilização natureza.



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