Lá
vinha ela. Quase como das outras vezes. Indefectível.
Tarde mal apagada. Ainda carregada das marcas de amor que
custavam um pouco a desaparecer. Tal a impetuosidade de um
Sol insaciável. E o diabo é que ela marcada
assim de amor ficava ainda mais linda. Fazer o quê?
O Sol era o Sol.
Cadeira
de preguiça (desde sua bisavó) na calçada.
Uma banqueta almofadada. Pequena mesa. Scotch e gelo. Bebericando.
E bebendo-a. Ela ia subindo. Linda. lua de Luiz, sertaneja
luz, meu imenso chafariz. Balão de São João!
Um
pouco mais e se faria absoluta. Luz de luar. Luminosidade
que de sol se esquecia. Pairando à parte. O inconsútil
rendado de estrelas acima fazendo-lhe cenário.
Não
era esse um seu procedimento mecânico. Havia sempre
uma particularidade. A possessão que o acometeu, quando,
súbitos ventos temporais roubaram a sua só lua.
A ocasião, reincidente, sim, mas singular, as sombras
montanhosas sempre de um jeito peculiar. Nítidas. Nitidez
palpável. Esmaecidas, quase fiapos. A aberta recusa
à referência da mãe enfatizando a mística
de São Jorge em seu cavalo combatendo o dragão.
Montanhas. Contornos de montanhas. O que cientificamente a
lua santo nenhum habita.
Vezes
houve - algumas - nuvens incômodas se lhe sobrepondo.
Certa feita, foi de dar nos nervos. Chusma de nuvens negras.
Suficientes de tamanho para apagá-la inteira. Era lancinante.
Nuvens sucediam nuvens. Um sem fim. Parecia enfileirarem-se.
Cada uma por esperar. Lua perdida. Perdida noite.
Contudo,
nada. Trazia na palma da mão sua hora. Não perdia
por nada. E acompanhava até sem desinteresse as fases
antes. Seu desmanche irreversível. De cara metade àquela
foice prateada com a estrela Vênus dependurada como
se largo e único brinco brilhante. Depois a barcarola
conduzindo ao seu refazimento.
Estava
estupenda. Céu límpido. Sua roda gigante girando
sobre si mesma sua fulgurante majestade. Um prateado inigualável.
Então pintou a idéia. Ficou eufórico.
Nenhum presente sequer se poria a seus pés. Pronto!
Capturá-la para dar de presente de aniversário
ao seu amor. Nada mais, nada menos!
Ficara
em estado de graça. Tão dadivosa fora a escolha.
Somente um plenilúnio assim à grandeza de seu
amor. Todavia, idéia outra desalentadora tomou-o. Havia
para o último dia dela um eclipse. O mundo se preparava
para ele. Um eclipse lunar justo quando a lua justa para presente
ao seu amor! Não podia! Aquela, especialmente, era
a sua lua dela.
Todavia,
capturá-la? Poria o mundo em pânico: súbito,
não haverá lua, quanto mais eclipse. Toda a
sociedade mundial frustrada. Egoísta, desumano e não-solidário.
Tomar a si o que estaria particularmente naquele dia para
quase todos. Estaria ainda contrariando princípios
pessoais tidos e havidos.
Ah!
mas aquela lua - nenhuma outra quisera tanto - havia de ser
embrulhada para presente sem igual para pessoa sem igual sem
pôr em pânico, em profunda frustração
o mundo. E soube como. Tratava-se ele de premiado balonista
joanino e que tais. Ganhara quantos participara. Construir
um balão-lua em tempo recorde, com programação
de durabilidade de flutuação estática
com folga em relação ao tempo mínimo
para início e máximo para o fim do eclipse.
E
fez. Soberba lua-balão. Papel laminado macerado em
alguns pontos com efeito montanhas lunares. Pôs fogo.
E foi. Fez a troca devida. Afagou muito a lua. Carícias
palavras. E com ela veio. Se vissem (ainda era muito cedo
para o eclipse) pensariam em estrela cadente.
Descido
no quintal de sua casa. Cobriu-a de imediato. Conversaram
algum tempo. Depois foi pôr-se a ver o eclipse como
as gentes. Ficou orgulhoso de si. A lua-balão era ver
a sua, dela. A humanidade em paz curtiu e estudou o eclipse.
No
dia seguinte de aniversário, com a mãe, pasma,
incrédula, embrulharam a lua para presente. Enviou-a
com um cartão-bilhete cujos dizeres pediam sigilo e
descrição, pois a lua poderia se ofender: Esta
inigualável formosura de lua para sempre tua. P.S.:
Você é muito mais bonita do que ela.