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O cara que roubou um plenilúnio

Data 22/mai/2003

Lá vinha ela. Quase como das outras vezes. Indefectível. Tarde mal apagada. Ainda carregada das marcas de amor que custavam um pouco a desaparecer. Tal a impetuosidade de um Sol insaciável. E o diabo é que ela marcada assim de amor ficava ainda mais linda. Fazer o quê? O Sol era o Sol.

Cadeira de preguiça (desde sua bisavó) na calçada. Uma banqueta almofadada. Pequena mesa. Scotch e gelo. Bebericando. E bebendo-a. Ela ia subindo. Linda. lua de Luiz, sertaneja luz, meu imenso chafariz. Balão de São João!

Um pouco mais e se faria absoluta. Luz de luar. Luminosidade que de sol se esquecia. Pairando à parte. O inconsútil rendado de estrelas acima fazendo-lhe cenário.

Não era esse um seu procedimento mecânico. Havia sempre uma particularidade. A possessão que o acometeu, quando, súbitos ventos temporais roubaram a sua só lua. A ocasião, reincidente, sim, mas singular, as sombras montanhosas sempre de um jeito peculiar. Nítidas. Nitidez palpável. Esmaecidas, quase fiapos. A aberta recusa à referência da mãe enfatizando a mística de São Jorge em seu cavalo combatendo o dragão. Montanhas. Contornos de montanhas. O que cientificamente a lua santo nenhum habita.

Vezes houve - algumas - nuvens incômodas se lhe sobrepondo. Certa feita, foi de dar nos nervos. Chusma de nuvens negras. Suficientes de tamanho para apagá-la inteira. Era lancinante. Nuvens sucediam nuvens. Um sem fim. Parecia enfileirarem-se. Cada uma por esperar. Lua perdida. Perdida noite.

Contudo, nada. Trazia na palma da mão sua hora. Não perdia por nada. E acompanhava até sem desinteresse as fases antes. Seu desmanche irreversível. De cara metade àquela foice prateada com a estrela Vênus dependurada como se largo e único brinco brilhante. Depois a barcarola conduzindo ao seu refazimento.

Estava estupenda. Céu límpido. Sua roda gigante girando sobre si mesma sua fulgurante majestade. Um prateado inigualável. Então pintou a idéia. Ficou eufórico. Nenhum presente sequer se poria a seus pés. Pronto! Capturá-la para dar de presente de aniversário ao seu amor. Nada mais, nada menos!

Ficara em estado de graça. Tão dadivosa fora a escolha. Somente um plenilúnio assim à grandeza de seu amor. Todavia, idéia outra desalentadora tomou-o. Havia para o último dia dela um eclipse. O mundo se preparava para ele. Um eclipse lunar justo quando a lua justa para presente ao seu amor! Não podia! Aquela, especialmente, era a sua lua dela.

Todavia, capturá-la? Poria o mundo em pânico: súbito, não haverá lua, quanto mais eclipse. Toda a sociedade mundial frustrada. Egoísta, desumano e não-solidário. Tomar a si o que estaria particularmente naquele dia para quase todos. Estaria ainda contrariando princípios pessoais tidos e havidos.

Ah! mas aquela lua - nenhuma outra quisera tanto - havia de ser embrulhada para presente sem igual para pessoa sem igual sem pôr em pânico, em profunda frustração o mundo. E soube como. Tratava-se ele de premiado balonista joanino e que tais. Ganhara quantos participara. Construir um balão-lua em tempo recorde, com programação de durabilidade de flutuação estática com folga em relação ao tempo mínimo para início e máximo para o fim do eclipse.

E fez. Soberba lua-balão. Papel laminado macerado em alguns pontos com efeito montanhas lunares. Pôs fogo. E foi. Fez a troca devida. Afagou muito a lua. Carícias palavras. E com ela veio. Se vissem (ainda era muito cedo para o eclipse) pensariam em estrela cadente.

Descido no quintal de sua casa. Cobriu-a de imediato. Conversaram algum tempo. Depois foi pôr-se a ver o eclipse como as gentes. Ficou orgulhoso de si. A lua-balão era ver a sua, dela. A humanidade em paz curtiu e estudou o eclipse.

No dia seguinte de aniversário, com a mãe, pasma, incrédula, embrulharam a lua para presente. Enviou-a com um cartão-bilhete cujos dizeres pediam sigilo e descrição, pois a lua poderia se ofender: Esta inigualável formosura de lua para sempre tua. P.S.: Você é muito mais bonita do que ela.



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