Que
se lembra, assim de desemprego e subemprego vem envelhecendo
este País. Não soube quando emprego fosse coisa
de escolha. Como numa loja se escolhia a camisa. O vestido.
As calças. Ou o tecido para o subemprego da costureira.
A quem o alfaiate fazia nariz torcido. O sapato que sob medida
se encomendava ao sapateiro. Que reinava, se bom, de empregador.
Microempresário. Como o seleiro fazia o mesmo. Possuíam
seus aprendizes. Seus oficiais. O sapato masculino. O sapato
feminino. Botas. Botinas. Sapatão. Selas. Não.
Nunca se soube que emprego se escolhesse. Como de depois a
agora se vai a uma loja. Shopping center. Em que tudo há
até o em que não se pense. Tudo pronto. Tudo
não-único. O mercado se diz o grande Senhor
do emprego. O mercado gera milhões de emprego. O mercado
emprega. Que seria dos desempregados, não fosse o mercado?
Todavia, mercado se agasta muito com quem não gasta.
Protetor dos homens da era moderna, neomoderna, o mercado
paterno se esfalfa vinte e quatro horas por dia para o absoluto
e sumo bem de sua prole. O mercado paterno é a natural
evolução do patronato mandonário desde
o seu início com as feudarias, as sesmarias, as capitanias,
os coronelatos até o empresariado: miscelânea
do antes cujo eixo único e indelével fora e
é a paternidade capitania.
Então,
se se desfazem da impoluta boa vontade do mercado, os filhos
relapsos pagam, porque a lei corregedora dele é irredutível:
a corda arrebenta mesmo do lado dos ingratos.
Desemprego.
Modernidade. Desemprego. Longevidade. Desemprego. Tecnologias
inimagináveis. Desemprego. Superproduções
industriais, agrícolas, agrícolas, agrícolas
inenarráveis. E o desemprego é mais.
E
a fome. Fome infame. Fome funda. Fome fóssil. Fome
febril. Fome frenética. Fome fuzilante. Fome felina.
Fome fenomenal. Fome fulminante. Fome fatídica. Fome
fomentada. Fome financeira. Fome financiada. Fome filantrópica.
Fome federal. Fome filial. Fome fiscalizada. Fome fodida.
Fome fedida. Fome furibunda. Fome filho-da-puta. Fome fescenina.
Fome fálica. Fome fogosa. Fome fetal. Fome fulgural.
Fome fantasmagórica. Fome feérica. Fome infinda.
Fome fênix. A famélica fome universal. A fome
nas periferias. A fome na favela. A fome em famílias.
A fome enrustida nas frestas das cidades. A fome perambulante.
Pelas estradas. Pelas ruas. A fome rondando. A fome assombrando.
A fome encorajando. A fome convertendo desespero em assaltos,
em assassinatos. A fome produzindo viciados. Produzindo a
legião de pedintes.
O
cara no portão de sua casa. Portão eletrônico
de bem empregado. Trabalhador cumpridor dos seus muitos impostos.
O cara no interfone. Pede o favor de uma palavrinha. Uma palavrinha.
Não é ladrão, não. Desempregado
obrigado a essa humilhação, senhor. Nada de
dinheiro. Alguma coisa de comer. Nada se comeu ainda hoje
lá em casa. Uma fome doida, dona. Não é
assaltante não, dona. Desempregado sem ninguém.
Os filhos, lá, feito filhotes no ninho esperando o
que vai chegar. Nada de dinheiro. Comida, comida, dona. Já
fui isso. Já fui aquilo. Tive aquilo. Trajei bons vestidos.
Até sonhei pros meninos futuro de doutores bem sucedidos.
Agora essa humilhação que não se acaba.
A senhora não imagina. Só não me mato,
porque não acredito que isso não vá ter
fim. Quero voltar a ter a cabeça erguida pra me orgulhar
do brilho dos olhos dos meus filhos, dona.
Dotor.
Não me maltrate, não. Eu ainda tô meio
bêbado. Não é droga, não. Desculpe.
É desespero. Tô com uma fome que o senhor não
sabe. Parece que tão comendo meu estômago. Por
amor de Deus. O senhor não leve a mal. Mas, desculpe,
dá pra ser uma colher? Deus lhe pague. Desculpe essa
incomodação, dotor, mas o senhor pode me arrumar
o que beber?... Sem abuso, dotor, mas coca-cola é melhor
pro meu estômago estragado. Pobrema de ursra. Isso,
úrcera. Incomodo de novo, Deus seja louvado pela sua
paciência. Mas seu cachorro bonito assim... Fica no
meu buraco dois cachorrinhos que apareceram, se engraçaram
com minha pessoa... É muito, e abuso, eu sei, perdão,
dotor, mas arranja um poquinho de ração pros
dois. Desculpe abusar, dotor. Deus acrescente tudo em dobro.