Home
|
Conheça Tito Damazo
|
Textos
|
Contato
|



Encantamento

Data 08/mai/2003

A lagoa. Uma grande redoma d`água em plena área urbana. Certo, não nascera na cidade. A cidade é que a foi tomando para si. Envolveu-a. Pois o seu campo lugar foi ficando cidade. Árvores cedendo às casas. As relvas. Os arbustos. As muitas silvas das Campinas cedendo a ruas. A calçadas.

Campo, a lagoa, decerto, era outra. Vazava-a trazendo-lhe algum quinhão: regato. Regatos. Corriam leves, mansos para ela.

Lagoas são olho d`água empreendedor de vidas. As lagoas de fazendas. Algumas mínimas. Todavia também vivas. Outras largas. Quase redondas. Oblongas umas.

Taboas: multíplices canudos verdoengos com a extremidade feito manopla aveludada reunidos numa parte dela. Ali, residem espécies de répteis. Jacarés. Cobras. Cobra d`água. Sucuris.

Conta o homem de lugar assim. E conta ainda histórias cujo palco, espaço, cenário é a lagoa e seus constituintes. Que são muito mais que as taboas. São os aguapés: corrente vegetativa à flor d`água. Sói de raízes livres de cova de terra. Agrupados permanecem leves ao sabor do imperceptível movimento de água parada: "O aguapé, lá na lagoa,/sobre a água nada./E deixa a borda da canoa."

Conta o homem do lugar sobre certos habitantes da lagoa, não-peixes, não-répteis. Que esperam horas solitárias. Tardes quase apagadas. Noites de lua. A pessoa distraída na fisgada funda da traíra. Do bagre matreiro. Mal ouve um canto. Sumido a princípio. Vem do meio, do fundo do tabual. Um canto leve, acariciante. O pescador esquece a traíra. Não sente os repuxões do bagre.

A vara esquecida na mão. O coração pulsando em descompasso. Os olhos atrás de quem, dona de acalanto arrebatador. Canto despertando cantiga de Zefa para fazê-lo dormir ao compasso do ranger da rede. Era ver a voz de Zefa. Suas canções iluminadas abrindo sonhos incríveis.

Diziam que se tratava de mãe d`água. O lugar mais sem se saber como abrigava-a Diziam as coisas mais desencontradas dela. Coisas mesmo de quem reconta, o conto acrescenta o seu ponto. Também a imagem dela. Havia tantas, que se ficava crendo ser mesmo coisa de pescador. Algumas até esqueciam do tamanho da lagoa para o tamanho dela.

O certo intocável mesmo, sim, que todos os olhos viam, era a beleza da lagoa. Muito mais que aguapés e taboas. As múltiplas singelas flores nas bordas. As borboletas ampliando o enfeite delas. O espelho d`água refletindo o céu, as nuvens, a passagem do pássaros de vôo alto.

Nela residindo, os pássaros precisos de peixe. Deles a elegância da garça. E a garça vive a caça de lagoa, quando decerto a em que fica não está para peixes.

Aquela lagoa urbana se reduzia a água. Nada de aguapés. Nada de taboas. De mãe d`água. De flores e borboletas. Mas aquela solitária garça ali ia sempre. A primeira vez que a viu ficou deslumbrado. Garça daquelas de lagoa de cafundó de campo. Belíssima brancura espetando seu elegante e aprumado pescoço.

Desde então passou a vê-la espargindo beleza à completa nudez da lagoa reduzida à sua circunferência de água turva escancarada. Certa feita, ela desapareceu. Ficou pesarosamente triste. Seu contentamento tornou com a malvada também uma certa vez, depois de já ter acreditado em ausência definitiva.

Tornou, então, a rotina não-rotina daquela belezura enfeitando a lagoa com sua elegância. Numa borda. Vez em quando voando de uma borda a outra. Enchendo o espaço da lagoa com sua envergadura colossal. E veio outra vez o dia do desaparecimento. Outra ausência tão ou mais triste que a outra. Mas a volta primeira avivava a esperança de uma volta outra.

E, custosamente, ela veio. E veio trazendo-lhe um fato de comoção maior. Várias (quantas!?) garçazinhas. As bordas desagradáveis da lagoa ficaram cheias de alegres risos brancos. E já sugerindo, as pequeninas, o futuro porte da mãe (?). Um quadro. O que lhe doía era a presumida partida.



Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003, Poetagem - www.poetagem.com.br

Site Produzido por Espaço Cibernético Espaço Cibernético