A
lagoa. Uma grande redoma d`água em plena área
urbana. Certo, não nascera na cidade. A cidade é
que a foi tomando para si. Envolveu-a. Pois o seu campo lugar
foi ficando cidade. Árvores cedendo às casas.
As relvas. Os arbustos. As muitas silvas das Campinas cedendo
a ruas. A calçadas.
Campo,
a lagoa, decerto, era outra. Vazava-a trazendo-lhe algum quinhão:
regato. Regatos. Corriam leves, mansos para ela.
Lagoas
são olho d`água empreendedor de vidas. As lagoas
de fazendas. Algumas mínimas. Todavia também
vivas. Outras largas. Quase redondas. Oblongas umas.
Taboas:
multíplices canudos verdoengos com a extremidade feito
manopla aveludada reunidos numa parte dela. Ali, residem espécies
de répteis. Jacarés. Cobras. Cobra d`água.
Sucuris.
Conta
o homem de lugar assim. E conta ainda histórias cujo
palco, espaço, cenário é a lagoa e seus
constituintes. Que são muito mais que as taboas. São
os aguapés: corrente vegetativa à flor d`água.
Sói de raízes livres de cova de terra. Agrupados
permanecem leves ao sabor do imperceptível movimento
de água parada: "O aguapé, lá na
lagoa,/sobre a água nada./E deixa a borda da canoa."
Conta
o homem do lugar sobre certos habitantes da lagoa, não-peixes,
não-répteis. Que esperam horas solitárias.
Tardes quase apagadas. Noites de lua. A pessoa distraída
na fisgada funda da traíra. Do bagre matreiro. Mal
ouve um canto. Sumido a princípio. Vem do meio, do
fundo do tabual. Um canto leve, acariciante. O pescador esquece
a traíra. Não sente os repuxões do bagre.
A
vara esquecida na mão. O coração pulsando
em descompasso. Os olhos atrás de quem, dona de acalanto
arrebatador. Canto despertando cantiga de Zefa para fazê-lo
dormir ao compasso do ranger da rede. Era ver a voz de Zefa.
Suas canções iluminadas abrindo sonhos incríveis.
Diziam
que se tratava de mãe d`água. O lugar mais sem
se saber como abrigava-a Diziam as coisas mais desencontradas
dela. Coisas mesmo de quem reconta, o conto acrescenta o seu
ponto. Também a imagem dela. Havia tantas, que se ficava
crendo ser mesmo coisa de pescador. Algumas até esqueciam
do tamanho da lagoa para o tamanho dela.
O
certo intocável mesmo, sim, que todos os olhos viam,
era a beleza da lagoa. Muito mais que aguapés e taboas.
As múltiplas singelas flores nas bordas. As borboletas
ampliando o enfeite delas. O espelho d`água refletindo
o céu, as nuvens, a passagem do pássaros de
vôo alto.
Nela
residindo, os pássaros precisos de peixe. Deles a elegância
da garça. E a garça vive a caça de lagoa,
quando decerto a em que fica não está para peixes.
Aquela
lagoa urbana se reduzia a água. Nada de aguapés.
Nada de taboas. De mãe d`água. De flores e borboletas.
Mas aquela solitária garça ali ia sempre. A
primeira vez que a viu ficou deslumbrado. Garça daquelas
de lagoa de cafundó de campo. Belíssima brancura
espetando seu elegante e aprumado pescoço.
Desde
então passou a vê-la espargindo beleza à
completa nudez da lagoa reduzida à sua circunferência
de água turva escancarada. Certa feita, ela desapareceu.
Ficou pesarosamente triste. Seu contentamento tornou com a
malvada também uma certa vez, depois de já ter
acreditado em ausência definitiva.
Tornou,
então, a rotina não-rotina daquela belezura
enfeitando a lagoa com sua elegância. Numa borda. Vez
em quando voando de uma borda a outra. Enchendo o espaço
da lagoa com sua envergadura colossal. E veio outra vez o
dia do desaparecimento. Outra ausência tão ou
mais triste que a outra. Mas a volta primeira avivava a esperança
de uma volta outra.
E,
custosamente, ela veio. E veio trazendo-lhe um fato de comoção
maior. Várias (quantas!?) garçazinhas. As bordas
desagradáveis da lagoa ficaram cheias de alegres risos
brancos. E já sugerindo, as pequeninas, o futuro porte
da mãe (?). Um quadro. O que lhe doía era a
presumida partida.