O
mar. Esse universo fantástico. Fantasmagórico.
Mundéu d`água sem fim oceânico. Massa
d`água denso. Imenso. Místico. Misterioso. Seu
deserto epidérmico com sua grave voz. Sonorosa, acoberta
um mundo tão complexo, tão diverso, que a cada
vez se fica perplexo. O habitat do fundo dos oceanos sem fundo,
um mundo! Seres vegetais, animais, minerais que parecem de
outro planeta. Que parecem ficção feita pelos
filmes que o apresentam. Uma selva aquática com suas
diversidades miríades. Tão selva quanto selva
selva.
O
mar. Nessas águas salgadas profundamente horizontais,
extensivamente profundas, vivem os peixes. Os peixes. Esses
frios animais aquáticos cumprindo seu destino. Campeando
pelo mundo água adentro. Vagando nesse intermédio
espaço de água densa. Onde não é
o fundo nem é a tona. Como os pássaros pelo
espaço. Vão esses peixes de todo tamanho. Na
escuridão de mar adentro. Aventura diária, mecânica,
em busca do alimento que os mantém vivos. Vivos caçadores
do pão para sua fome. Vivos caçadores que, enquanto
assim, também são potenciais caças a,
súbito, numa curva escuro do mar, serem devorados.
O
mar é dos peixes. O mar é dos peixes e dos não-peixes
seres aquáticos. Seus mistérios de ontem são
hoje muitos ainda. Esses mares, ontem, nunca navegados, hoje
cortados, recortados, divididos pelos países dos homens
que se autonomeram donos de seu latifúndio. Que o foram
tornando trilhas, estradas. Que lhe foram povoando com pequenas
médias, enormes; leves, meio-pesadas, pesadíssimas
embarcações. Invadindo a sua condição
de ser feito de seus ventos, seus sons, seus barulhos, seus
silêncios. Os homens vieram agregando a ele os barulhos
deles. Os gritos marinheiros. Os roncos dos muitos e imundos
motores. Os homens vieram desfazendo, dele, seus mistérios.
Desmascarando seus deuses. Expulsando seus monstros. Matando
seus dragões. Tanto conquanto o fizeram com os de São
Jorge de sua enamorada Lua. Tanto quanto o farão com
os marcianos de seu irmão Marte.
O
mar é dos peixes. Essa miríade de espécies
de seres exóticos que ali se destinaram a viver. O
mar tratou com a terra, cada qual com seu espaço na
composição do planeta. E foi cada qual povoar-se
de seus seres. Mas eis que chega o homem. Que, depois de supor
ter a terra nas mãos, quis também do mar se
apoderar. Esse ser que se arvora de inteira semelhança
com seu Deus todo poderoso.
Mas
o mar não é como a terra. Mais indômito,
mais guerreiro talvez. E quanto da história desses
homens está escrito nas páginas do mar! Histórias
de batalhas. História de medos. De mortes. Histórias
de tráficos. De tragédias. Histórias
de amor.
O
mar é dos peixes. Por mais que o queiram a si os homens.
Todavia, o mar tem sido compassivo e piedoso com os homens.
Riquezas, e fortunas, e fomes humanas são sustentadas
por suas entranhas. Como a terra, tem o mar prodigiosamente
feito concessões a esse deus ousado e predador.
O
que parece acontecer é que o homem, insaciavelmente
cego de riqueza que dá o poder, do poder que gera riquezas,
pensa ter, em fim, o mar nas mãos. E o mar, antiqüíssimo
Senhor dos tempos, co-genitor desses homens, por isso menos
tolerante talvez que a terra, mãe deles, vez em quando
se obriga chamar-lhes os limites às falas.
Então,
tubarões que aparecem em praias supostamente para atacar
os homens, e esses homens os abatem pura e simplesmente e
os carregam triunfalmente desfilando às manchetes do
meios de comunicação, o que na verdade ali ostentam
é o próprio cadáver da sua estupidez
incorrigivelmente danificadora.