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O mar e os homens

Data 01/mai/2003

O mar. Esse universo fantástico. Fantasmagórico. Mundéu d`água sem fim oceânico. Massa d`água denso. Imenso. Místico. Misterioso. Seu deserto epidérmico com sua grave voz. Sonorosa, acoberta um mundo tão complexo, tão diverso, que a cada vez se fica perplexo. O habitat do fundo dos oceanos sem fundo, um mundo! Seres vegetais, animais, minerais que parecem de outro planeta. Que parecem ficção feita pelos filmes que o apresentam. Uma selva aquática com suas diversidades miríades. Tão selva quanto selva selva.

O mar. Nessas águas salgadas profundamente horizontais, extensivamente profundas, vivem os peixes. Os peixes. Esses frios animais aquáticos cumprindo seu destino. Campeando pelo mundo água adentro. Vagando nesse intermédio espaço de água densa. Onde não é o fundo nem é a tona. Como os pássaros pelo espaço. Vão esses peixes de todo tamanho. Na escuridão de mar adentro. Aventura diária, mecânica, em busca do alimento que os mantém vivos. Vivos caçadores do pão para sua fome. Vivos caçadores que, enquanto assim, também são potenciais caças a, súbito, numa curva escuro do mar, serem devorados.

O mar é dos peixes. O mar é dos peixes e dos não-peixes seres aquáticos. Seus mistérios de ontem são hoje muitos ainda. Esses mares, ontem, nunca navegados, hoje cortados, recortados, divididos pelos países dos homens que se autonomeram donos de seu latifúndio. Que o foram tornando trilhas, estradas. Que lhe foram povoando com pequenas médias, enormes; leves, meio-pesadas, pesadíssimas embarcações. Invadindo a sua condição de ser feito de seus ventos, seus sons, seus barulhos, seus silêncios. Os homens vieram agregando a ele os barulhos deles. Os gritos marinheiros. Os roncos dos muitos e imundos motores. Os homens vieram desfazendo, dele, seus mistérios. Desmascarando seus deuses. Expulsando seus monstros. Matando seus dragões. Tanto conquanto o fizeram com os de São Jorge de sua enamorada Lua. Tanto quanto o farão com os marcianos de seu irmão Marte.

O mar é dos peixes. Essa miríade de espécies de seres exóticos que ali se destinaram a viver. O mar tratou com a terra, cada qual com seu espaço na composição do planeta. E foi cada qual povoar-se de seus seres. Mas eis que chega o homem. Que, depois de supor ter a terra nas mãos, quis também do mar se apoderar. Esse ser que se arvora de inteira semelhança com seu Deus todo poderoso.

Mas o mar não é como a terra. Mais indômito, mais guerreiro talvez. E quanto da história desses homens está escrito nas páginas do mar! Histórias de batalhas. História de medos. De mortes. Histórias de tráficos. De tragédias. Histórias de amor.

O mar é dos peixes. Por mais que o queiram a si os homens. Todavia, o mar tem sido compassivo e piedoso com os homens. Riquezas, e fortunas, e fomes humanas são sustentadas por suas entranhas. Como a terra, tem o mar prodigiosamente feito concessões a esse deus ousado e predador.

O que parece acontecer é que o homem, insaciavelmente cego de riqueza que dá o poder, do poder que gera riquezas, pensa ter, em fim, o mar nas mãos. E o mar, antiqüíssimo Senhor dos tempos, co-genitor desses homens, por isso menos tolerante talvez que a terra, mãe deles, vez em quando se obriga chamar-lhes os limites às falas.

Então, tubarões que aparecem em praias supostamente para atacar os homens, e esses homens os abatem pura e simplesmente e os carregam triunfalmente desfilando às manchetes do meios de comunicação, o que na verdade ali ostentam é o próprio cadáver da sua estupidez incorrigivelmente danificadora.



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