A
rotina. Impossível não exercê-la.Sua incidência
é a própria condição de vida.
Ou a condição de vida a institui. A vida é
rotina. Os hábitos. As necessidades dos seres condicionam-nos
ao instituto da repetição. O exercício
do mesmo. Ainda que o mesmo nunca seja exatamente o mesmo.
Mas impossível não praticá-lo. A rotina
das alimentações-diárias. Comer. Essa
necessidade fisiológica fundamental. Que rotiniza a
prática do consumo de alimentos. Sem o que a vida se
impõe outra rotina: a sua mais rápida ida. A
rotina da sede. Beber da água que a sacia mantém
essa outra vital rotina.
A
rotina mecânica do trabalho. Mesmo o não-operário.
Prática cara a uma vida que se quer reconhecida. Que
saudavelmente se sente digna. A sua contraface instaura a
rotina-traumas; a rotina-neuroses. E da rotina falta à
rotina pobre. De que rebrotam rotineiras doenças mentais.
Quanto mais pobre mais a doença mental é rotina
que o consome. A rotina fim-de-semana que rotineiramente quebra
a rotina diária.
A
noite, quando não ocupada com a rotina de trabalho,
assegura as condições para a rotina lazer. A
ida imponderável a bares. As novelas cujos capítulos
rotineiramente que, por quase nada, não se perdem.
Depois,
a rotina do sono. Entrega do ser ao niilismo da inércia
do repouso absoluto. Para que corpo e alma, restabelecidos
reassumam as rotinas da vida acordada.
Na
perambulação atávica dessas suas rotinas
ia. As ruas. Sons. Barulhos. Entulhos. Os muitos neons. Os
eletrônicos publicitários digitando luminariamente
o mundo comercindustrial. Tudo para o consumo. O colorido
do consumo enfeitando-se em instantâneos para a incansável
rotina da sedução.
A
precária natureza urbana em sua nefasta rotina: adornar
o ambiente que a entoxica de mil poluentes. E a vida pulula
sua rotina mecânica. Nas fábricas. Nas casas.
Residenciais. Comerciais. Nas casas bancárias. Nas
alopradas bolsas inventando cifras, índices. Nos pagamentos
e recebimentos dos débitos e créditos. Essas
rotinas. Fardo humano indesvencilhável. Herança
de quem descobriu o pecado da consciência. E então
atávico escravo dela passou a criar indelevelmente
sua natureza social. E dá-se que a mesmice da sua rotina
é que é o motor de sua incessante e irrefreável
transformação. A consciência humana está
fadada a latejar o irreversível processo crônico
de fazer-se.
Então,
na perambulação atávica dessas suas rotinas
ia. Como todos os dias. Um semáforo demorado o havia
estacionado numa das filas indianas do trânsito. Perscrutando
ficara, naquele átimo demorado, o espaço. A
raivosa avenida. De um lado praticavam a rotineira corrida.
Ali, aguardavam a largada. Espiava a aventura-suicida de alguns
animais. Uns cães. Uns gatos. Uns pássaros.
Então
a sua distração captou em meio àquela
balbúrdia urbana uma melodia em assovio. Os retrovisores
lhe pareciam mentir. Reolhou. Era mesmo uma avantajada mototaxista.
A moto repleta dela. E o seu assovio melodioso entoando uma
canção sobrepairava alegria naquele ruidoso
trânsito raivoso. O semáforo mandou-os seguirem
sua sina.
Todavia,
em cidade média o mundo é ainda menor. E a rotina
mais propícia às coincidências. Ainda
mais de uma vez viu, fugazmente, a mototaxista montada em
sua robustez espargindo seu assovio melodioso. Alto. Maior
que o trânsito.
E
ainda uma outra vez a viu. Agora, a fila em que estava permitia-lhe
vê-la inteira. Ela, visivelmente, balançava-se
na moto ao ritmo da música que assobiava.
Curiosamente,
vira-a sempre sem passageiro. Decerto pura coincidência.
Todavia, tomou-o súbito desejo de se fazer passageiro
dela. Estacionou o automóvel. Parou-a. Deu-lhe um longínquo
endereço. Ela mal parou o assovio. Tocou. Foi ouvindo.
O repertório era quase todo Roberto Carlos. As canções
de amor. Algumas sertanejas modernosas. Chegados. Mandou que
esperasse. Tornou logo. Para voltar onde deixara o automóvel.
A
surpresa maior: na volta, ela veio assobiando um eclético
repertório entre Chico Buarque, Caetano Veloso, Alceu
Valença e Chico César. Chegados. Ela, enquanto
recebia, olhou-o firme de dentro da viseira de seu capacete
e perguntou-lhe em voz que lhe pareceu irônica: "Gostou?"
Ele, encabulado, como se visse explícito um segredo
seu, disse fragilmente: "Sim. Obrigado".