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Rotina

Data 24/abr/2003

A rotina. Impossível não exercê-la.Sua incidência é a própria condição de vida. Ou a condição de vida a institui. A vida é rotina. Os hábitos. As necessidades dos seres condicionam-nos ao instituto da repetição. O exercício do mesmo. Ainda que o mesmo nunca seja exatamente o mesmo. Mas impossível não praticá-lo. A rotina das alimentações-diárias. Comer. Essa necessidade fisiológica fundamental. Que rotiniza a prática do consumo de alimentos. Sem o que a vida se impõe outra rotina: a sua mais rápida ida. A rotina da sede. Beber da água que a sacia mantém essa outra vital rotina.

A rotina mecânica do trabalho. Mesmo o não-operário. Prática cara a uma vida que se quer reconhecida. Que saudavelmente se sente digna. A sua contraface instaura a rotina-traumas; a rotina-neuroses. E da rotina falta à rotina pobre. De que rebrotam rotineiras doenças mentais. Quanto mais pobre mais a doença mental é rotina que o consome. A rotina fim-de-semana que rotineiramente quebra a rotina diária.

A noite, quando não ocupada com a rotina de trabalho, assegura as condições para a rotina lazer. A ida imponderável a bares. As novelas cujos capítulos rotineiramente que, por quase nada, não se perdem.

Depois, a rotina do sono. Entrega do ser ao niilismo da inércia do repouso absoluto. Para que corpo e alma, restabelecidos reassumam as rotinas da vida acordada.

Na perambulação atávica dessas suas rotinas ia. As ruas. Sons. Barulhos. Entulhos. Os muitos neons. Os eletrônicos publicitários digitando luminariamente o mundo comercindustrial. Tudo para o consumo. O colorido do consumo enfeitando-se em instantâneos para a incansável rotina da sedução.

A precária natureza urbana em sua nefasta rotina: adornar o ambiente que a entoxica de mil poluentes. E a vida pulula sua rotina mecânica. Nas fábricas. Nas casas. Residenciais. Comerciais. Nas casas bancárias. Nas alopradas bolsas inventando cifras, índices. Nos pagamentos e recebimentos dos débitos e créditos. Essas rotinas. Fardo humano indesvencilhável. Herança de quem descobriu o pecado da consciência. E então atávico escravo dela passou a criar indelevelmente sua natureza social. E dá-se que a mesmice da sua rotina é que é o motor de sua incessante e irrefreável transformação. A consciência humana está fadada a latejar o irreversível processo crônico de fazer-se.

Então, na perambulação atávica dessas suas rotinas ia. Como todos os dias. Um semáforo demorado o havia estacionado numa das filas indianas do trânsito. Perscrutando ficara, naquele átimo demorado, o espaço. A raivosa avenida. De um lado praticavam a rotineira corrida. Ali, aguardavam a largada. Espiava a aventura-suicida de alguns animais. Uns cães. Uns gatos. Uns pássaros.

Então a sua distração captou em meio àquela balbúrdia urbana uma melodia em assovio. Os retrovisores lhe pareciam mentir. Reolhou. Era mesmo uma avantajada mototaxista. A moto repleta dela. E o seu assovio melodioso entoando uma canção sobrepairava alegria naquele ruidoso trânsito raivoso. O semáforo mandou-os seguirem sua sina.

Todavia, em cidade média o mundo é ainda menor. E a rotina mais propícia às coincidências. Ainda mais de uma vez viu, fugazmente, a mototaxista montada em sua robustez espargindo seu assovio melodioso. Alto. Maior que o trânsito.

E ainda uma outra vez a viu. Agora, a fila em que estava permitia-lhe vê-la inteira. Ela, visivelmente, balançava-se na moto ao ritmo da música que assobiava.

Curiosamente, vira-a sempre sem passageiro. Decerto pura coincidência. Todavia, tomou-o súbito desejo de se fazer passageiro dela. Estacionou o automóvel. Parou-a. Deu-lhe um longínquo endereço. Ela mal parou o assovio. Tocou. Foi ouvindo. O repertório era quase todo Roberto Carlos. As canções de amor. Algumas sertanejas modernosas. Chegados. Mandou que esperasse. Tornou logo. Para voltar onde deixara o automóvel.

A surpresa maior: na volta, ela veio assobiando um eclético repertório entre Chico Buarque, Caetano Veloso, Alceu Valença e Chico César. Chegados. Ela, enquanto recebia, olhou-o firme de dentro da viseira de seu capacete e perguntou-lhe em voz que lhe pareceu irônica: "Gostou?" Ele, encabulado, como se visse explícito um segredo seu, disse fragilmente: "Sim. Obrigado".



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