Um
ornitólogo, certamente detém conhecimentos capazes
para elucidar o caso. Todavia, não era o caso. Tampouco
seduzia-o. A sedução residia justamente no ato
de produzir hipóteses plausíveis. Nada que arrolasse
em linguagem técnico-científica as causas do
que atribuía a uma persistente teimosia.
Então a hipótese inicial consistia em que atributo
a pássaros também é a teimosia. Pois
via-os insistirem no fatalmente impossível. A Deus
apenas isto é reservado, diz o adágio. É
certo que pássaros, não sendo deuses, a Deus
se emprestam por mais merecerem-no. Alados, têm o dom
do vôo que os conduz por onde forem. Vôos absolutamente
seguros. O dom da vida defendida com a contínua descoberta
do que a terra lhes oferta.
Então, quintal com árvores, e relvas, e flores,
e nesgas de terra é espaço de interesse de pássaros.
Frutas e insetos, a prodigalidade da terra. As pousadas. As
nesgas de terra para suas pastagens. Certos raros lugares
urbanos para seu estar sem susto. Então certos quintais
são minimatas em que definitivos pássaros doméstico-urbanos
se arrancham. Ali se estabelecem. Dão-se por mais seguros.
E vão pelas árvores, pelos nichos. Pelas traves.
Por entretelhas compondo seu ninho. E dando vida à
sua prole.
Também sem ouvidos à ciência passarinheira,
abriu outra hipótese. Que decerto os pardais venham
a ser os pássaros inaugurais desse estilo de vida pássara.
Ser pássaro citadino. A tal ponto que em mata mesmo
devam ficar tempo imenso desbaratinados, se não perdidos.
A saber, punha em dúvida se foram pássaros de
mata alguma vez. Tão de casa, que não contentam
com residir nos forros ou desvãos do telhado. Vivem
a freqüentar as dependências mais franqueadas.
O alpendre. A cozinha. Exposta despensa. E ariscos, porque
pássaros, mas ousados pelo instinto da sobrevida.
E o desfazimento progressivo que a miséria humana predadora
imprime ao campo enxota homens e pássaros à
progressiva composição do caos degenerescente
urbano. Então, homens e pássaros de vôo
mais encurtado migram para este vale lágrimas. E dos
pardais, hipótese outra, depois, decerto as pombas,
a segunda espécie a se casar com a urbana vida. Não
os pombos estereótipos. Os de largos de igrejas e de
catedrais. De praças turísticas mundiais. Diz
das pombas curtas. Tampouco as do ar. As asas brancas. As
juritis. Conquanto também elas já de há
muito habitam cidades. Diz da pomba amargosa, ou amargosinha.
Caseiras quanto os pardais. E não como eles, ávidas
em pôr ninho além das árvores. Áreas.
Puxados. Onde a madeira feita vigotas, caibros se estende.
Os alpendres, todavia, os avarandados amplos, extensos, altos.
Fazem desses espaços seus pombais a seu modo.
Deu-se dessas teimosias com um casal delas. Ampla varanda.
Altivos pilares. Muitas vigotas. Grossas vigotas. Fortes caibros.
E neles alguns ninhos usados. Reusados. Qual. Semana inteira
ambas pondo, repondo, recompondo gravetos sobre uma vigota
acentuadamente inclinada. Completamente inapta a ninhos. Todavia,
as operosas amargosas não desistiam. Dias.
Esqueceu-as. Quando então percebeu um que outro gravetos
num local pouco diferente do em que caiam. Procurou. E ficou
entre surpreso, agastado, em sinuca. O ninho havia sido feito,
enfim. Entretanto o fizeram no assento do balanço de
seu neto.
Sim! O neto era de fora. O avô presenteara-o com a instalação,
na ampla área, de um balanço moderno. Refazia
o que com os filhos, conquanto o deles fora de cordas tradicionais
e num bom galho da acácia recém-desaparecida.
Como com eles, neto e avô embeveciam-se. Na ausência
do neto, guardava, enganchado num enforquilhado encontro de
vigotas, o balanço. Agora, o neto estava preste a chegar.
E falava em apresentar o balanço ao irmãozinho
recém-chegado. E aquele ninho dentro do balanço!
A pomba lá chocando seus ovos. Aquilo ainda duraria.
Justamente agora, decidem fazer o ninho no balanço
de seu neto. Agora que ele vem. Todo garboso a apresentar
o seu moderno balanço a seu irmão!.