Medo
quase incontrolável. Imaginar que soubessem, punha-lhe
pânico. Na escola fazia o melhor de si para transparecer
convicta. Espiava as pessoas tentando ler-lhes a avaliação
sobre si. O culto ao imperador. O senhor de todos.
Porém
sua proteção ímpar era o seu medo. Pressentia
que não teria perdão. A começar pela
família. Os irmãos, obcecados fanáticos.
Usavam bigode semelhante. Boina semelhante. Gestos. Atitudes.
Cuspiam ódio peçonhento contra os americanos.
Aliás, palavra proibida. Ninguém ousava pronunciar.
Quando inevitável, o faziam sob veementes injúrias.
A
mãe em seu papel de mulher. Calada. Serva de seus homens
marido e filhos. Nem uma palavra. O corpo todo encoberto.
Somente a face destampada para bem ver e ouvir. As mãos
desvestidas para servir com maior destreza e precisão.
Às vezes, quando podia, nas escassas tréguas
que lhe davam os homens, pousava-lhe demorado e fixo olhar.
Enigmático. Não conseguia definir se de dor
ou de compaixão. Acabava sempre concluindo que devia
ser pelas duas coisas. Dor funda e trancada pela miséria,
espiritual muito mais, deles todos. Compaixão por ela,
aquela sua filha que se encaminhava, como toda digna mulher
mulçumana, para essa dor inevitável.
Não
muito diferente, o pai. Talvez, como ela na escola, esforçava-se
para parecer convicto aos filhos entusiastas e aos vizinhos.
Todavia, ao contrário da mãe, jamais lhe permitira
um mínimo olhar fixado. As raras vezes que lhe falava,
era com os olhos empalpebrados. Quando muito, o olhar relanceava-a.
Sustentava uma tácita certeza, como seu segredo, de
que o pai e a mãe, como ela, odiavam aquele sanguinário
assassino mais do que sabido. A nação não
lhe votava respeito. Votava-lhe terror. Daí os beija-mãos
efusivos, ridículos, humilhantes.
Sua
paixão pelos ocidentais se fizera na contramão
da história oficial mentirosa. A tudo. Escritos. Leituras.
Ditos. Proclamas. Em seu secretíssimo entendimento,
editava o contrário. Porcos. Endemoniados. Em verdade,
tratava-se de não-porcos. De não-endemoniados.
De não-carrascos. De não-escravizados. De não-subservientes.
De não-famintos. De livres. Portadores de si mesmos.
Livres para ir e vir. Livres para se vestirem. Livres aos
credos. Despida do fanatismo que empana seus compatriotas.
Tendo as rédeas de seu ódio nas mãos,
podia entrever tudo isso.
Então,
quando a invasão anglo-americana explodiu sobre Bagdá,
e seus irmãos, súbito, desapareceram, pondo
órfãos ela e os pais, em vez de pânico,
pôs-se a se preparar para à nova vida ajustar-se.
Tinha muito temor. Todavia, movia-a a esperança. Intuía
a desgraça por que passavam. E certamente ainda passariam.
Consolava-se, porém. Talvez significasse os últimos
ultrajes a que o povo iraquiano era submetido. Tantos, tantos
vêm sendo desde seus primórdios. Verdadeiramente
sofria muito por isso. Mas soubera compreender, que, desgraçadamente,
não há redenção, sem que não
haja muito sangue antes.
O
que constatou naquela manhã, em sua casa. Madrugadinha.
Os fogos desintensificaram. Adormeceu. Para acordar com o
único e surdo estrondo ao seu redor. Sua casa arrasada.
Ela intacta. Não conseguia acreditar. Apenas o seu
cubículo ficara intactamente de pé. Os pais
eram escombros.
Por
que a preservara Alá, não pudera ainda ter tempo
para compreender. Decidida, não se deixou consumir
pela dor como via fazer os seus. Podia, enfim, expor o seu
segredo. Queria ser partícipe da construção
de um novo país. Digno. De um povo autônomo.
Senhor de si. Aberto. Livre.
Vestiu-se.
Nem tanto iraquiana. Nem tanto ocidentalizada. Foi às
ruas. Bagdá era puro escombros. Doía. Mas carregava
a esperança da redenção. Ia. Podia parecer
um sacrilégio, mas fizera-se a mais bela árabe.
Sensualidade sutil e recatada. Os cabelos longos soltos. Largos
e esféricos brincos. Escarlates lábios. Busto
erecto.
Foi
ao encontro de um grande grupo de marines postados ante seus
tanques. Gritaram que estacasse. Continuou. Os marines se
entreolharam. Era uma bela mulher. Ela abriu diante de si
uma estampa. Tornaram a gritar. Ela continuava.
Então
uma voz de comando berrou que disparassem. Sobre seu corpo,
como uma mortalha, ficou estendida a universal foto de Gandhi.
Seu grande segredo.