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Paixão e morte

Data 10/abr/2003

Medo quase incontrolável. Imaginar que soubessem, punha-lhe pânico. Na escola fazia o melhor de si para transparecer convicta. Espiava as pessoas tentando ler-lhes a avaliação sobre si. O culto ao imperador. O senhor de todos.

Porém sua proteção ímpar era o seu medo. Pressentia que não teria perdão. A começar pela família. Os irmãos, obcecados fanáticos. Usavam bigode semelhante. Boina semelhante. Gestos. Atitudes. Cuspiam ódio peçonhento contra os americanos. Aliás, palavra proibida. Ninguém ousava pronunciar. Quando inevitável, o faziam sob veementes injúrias.

A mãe em seu papel de mulher. Calada. Serva de seus homens marido e filhos. Nem uma palavra. O corpo todo encoberto. Somente a face destampada para bem ver e ouvir. As mãos desvestidas para servir com maior destreza e precisão. Às vezes, quando podia, nas escassas tréguas que lhe davam os homens, pousava-lhe demorado e fixo olhar. Enigmático. Não conseguia definir se de dor ou de compaixão. Acabava sempre concluindo que devia ser pelas duas coisas. Dor funda e trancada pela miséria, espiritual muito mais, deles todos. Compaixão por ela, aquela sua filha que se encaminhava, como toda digna mulher mulçumana, para essa dor inevitável.

Não muito diferente, o pai. Talvez, como ela na escola, esforçava-se para parecer convicto aos filhos entusiastas e aos vizinhos. Todavia, ao contrário da mãe, jamais lhe permitira um mínimo olhar fixado. As raras vezes que lhe falava, era com os olhos empalpebrados. Quando muito, o olhar relanceava-a. Sustentava uma tácita certeza, como seu segredo, de que o pai e a mãe, como ela, odiavam aquele sanguinário assassino mais do que sabido. A nação não lhe votava respeito. Votava-lhe terror. Daí os beija-mãos efusivos, ridículos, humilhantes.

Sua paixão pelos ocidentais se fizera na contramão da história oficial mentirosa. A tudo. Escritos. Leituras. Ditos. Proclamas. Em seu secretíssimo entendimento, editava o contrário. Porcos. Endemoniados. Em verdade, tratava-se de não-porcos. De não-endemoniados. De não-carrascos. De não-escravizados. De não-subservientes. De não-famintos. De livres. Portadores de si mesmos. Livres para ir e vir. Livres para se vestirem. Livres aos credos. Despida do fanatismo que empana seus compatriotas. Tendo as rédeas de seu ódio nas mãos, podia entrever tudo isso.

Então, quando a invasão anglo-americana explodiu sobre Bagdá, e seus irmãos, súbito, desapareceram, pondo órfãos ela e os pais, em vez de pânico, pôs-se a se preparar para à nova vida ajustar-se. Tinha muito temor. Todavia, movia-a a esperança. Intuía a desgraça por que passavam. E certamente ainda passariam. Consolava-se, porém. Talvez significasse os últimos ultrajes a que o povo iraquiano era submetido. Tantos, tantos vêm sendo desde seus primórdios. Verdadeiramente sofria muito por isso. Mas soubera compreender, que, desgraçadamente, não há redenção, sem que não haja muito sangue antes.

O que constatou naquela manhã, em sua casa. Madrugadinha. Os fogos desintensificaram. Adormeceu. Para acordar com o único e surdo estrondo ao seu redor. Sua casa arrasada. Ela intacta. Não conseguia acreditar. Apenas o seu cubículo ficara intactamente de pé. Os pais eram escombros.

Por que a preservara Alá, não pudera ainda ter tempo para compreender. Decidida, não se deixou consumir pela dor como via fazer os seus. Podia, enfim, expor o seu segredo. Queria ser partícipe da construção de um novo país. Digno. De um povo autônomo. Senhor de si. Aberto. Livre.

Vestiu-se. Nem tanto iraquiana. Nem tanto ocidentalizada. Foi às ruas. Bagdá era puro escombros. Doía. Mas carregava a esperança da redenção. Ia. Podia parecer um sacrilégio, mas fizera-se a mais bela árabe. Sensualidade sutil e recatada. Os cabelos longos soltos. Largos e esféricos brincos. Escarlates lábios. Busto erecto.

Foi ao encontro de um grande grupo de marines postados ante seus tanques. Gritaram que estacasse. Continuou. Os marines se entreolharam. Era uma bela mulher. Ela abriu diante de si uma estampa. Tornaram a gritar. Ela continuava.

Então uma voz de comando berrou que disparassem. Sobre seu corpo, como uma mortalha, ficou estendida a universal foto de Gandhi. Seu grande segredo.



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