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Absconso

Data 03/abr/2003

Demorou compreender provisoriamente uma situação mínima. Sussurravam. Todavia, um sussurro incomum. A bem dizer, tratava-se de algo que lhe lembrava sussurros. Muitos. Pois, estupefato, percebia ir reconhecendo-os. Os quais vivenciara. Desde os que nunca soubera. Os que, súbito, reconhecia, conquanto não os conhecera.

Um grave tom de voz ameigada. Não maviosa. Mas suave, afetiva. Fazia vibrar docemente o líquido amniótico que o envolvia. A voz fazia vibrar também as paredes tépidas e flexíveis do útero de sua mãe. Quando a voz soprava seus, decerto, acalantos, o útero flexionava numa espécie de sístole/diástole.

Agora nitidamente compreendia, era uma canção de ninar. Dolentemente, numa afinação de voz grave sem aspereza. Sim! A voz de seu pai! Esse taciturno homem. Pelos cômodos. Olhos afáveis quando pousados em alguém. Como a se dizer bem. Como a se dizer em sossego. Todavia, há um brilho vivo que parece desmenti-lo.

Era a voz de seu pai. Acalantando a si próprio também à vista de que lhe viria um varão. Pai em estado de graça. Sonhando planos ao seu menino. Em certar horas, sob o beneplácito de uma mãe pesada e dorida. Mas não menos enternecida.

O pai entoava cantigas bonitas. Que agora timbram em seus ouvidos com uma nitidez nunca, nunca percebida. Agora, o que mal ou nada soubera então, melodias claras, textos nítidos das canções.

Cantigas de ninar! Decerto a mãe, aquietada. Reconfortada em sua cadeira de balanço. A barriga em seu ir e vir rítmico da respiração gestante. Olhos cerrados, por certo também se entregando ao terno acalanto.

Aquela voz. A de seu pai, agora, ali sussurrantemente não demarcada. Uma luz impossível impedindo a mínima tentativa. Mas essa grave voz acalanto se perdia, que outro sussurro a sobrepunha agora. E não era límpido. Não era único. Entretanto, sobrepunha sua nitidez. O que seria? Ficava ansiosamente procurando acertar.

Ácido sussurro. Áspero sussurro. Completamente agudo. Duro feito ponta de faca rompante. Por instante, um nítido grito! Sussurrando impropérios aos seus tímpanos. Violando um corpo já sem se saber. Completamente perdido. Sem outro sentido. Não se sentia. Não havia saber sobre si mesmo. Não se sabia em pulso vivo de coração. O seu repulso nas têmporas que, quando deitado, latejava acusando vida. Inerte corpo. Apenas olhos impedidos e ouvidos cuja memória agora rastreava a origem daquele apavorante sussurro. Ressôo de abafados urros mordentes. E, súbito, segundos, comutava-se em ensurdecedor estampido. Logo, ranger de grades se fechando. O correr de ferrolho. Em sibilos ferinos tudo isso. Claro, agora! O cárcere. O fatídico cárcere.

Como alívio, conquanto persistisse aquele agudo sol a pino querendo vazar seus olhos, em seu socorro, decerto, fora se sobrepondo outro sussurro. Aconchegante. Voz de sussurrante aroma benfazejo. Como se bálsamo a chagas expostas. Tátil sussurro deslizando por seu corpo. Como brisa perpassando seus pêlos. Eriçando desejos. Pondo vivo o que parecia morto. Sussurro tátil pondo vibráteis músculos e membros. Sussurro puro prestígio, pois que, súbito, à cegante luz, fez-se absoluto escuro.

Sortílego escuro dando paz ao caos. Dando luz a olhos eclipsados. Então, seus olhos livres puderam ver, ao fundo escuro de uma aberta veneziana, o seu ontem. O lume sublime de sua estrela incrustou-lhe a luz de seu perdido brilho.

E através daquela mesma janela, foi-se a noite sempre sorrindo lindos lírios. Enquanto discreta por entre as palmeiras ia-se insinuando a aurora.



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