Demorou
compreender provisoriamente uma situação mínima.
Sussurravam. Todavia, um sussurro incomum. A bem dizer, tratava-se
de algo que lhe lembrava sussurros. Muitos. Pois, estupefato,
percebia ir reconhecendo-os. Os quais vivenciara. Desde os
que nunca soubera. Os que, súbito, reconhecia, conquanto
não os conhecera.
Um
grave tom de voz ameigada. Não maviosa. Mas suave,
afetiva. Fazia vibrar docemente o líquido amniótico
que o envolvia. A voz fazia vibrar também as paredes
tépidas e flexíveis do útero de sua mãe.
Quando a voz soprava seus, decerto, acalantos, o útero
flexionava numa espécie de sístole/diástole.
Agora
nitidamente compreendia, era uma canção de ninar.
Dolentemente, numa afinação de voz grave sem
aspereza. Sim! A voz de seu pai! Esse taciturno homem. Pelos
cômodos. Olhos afáveis quando pousados em alguém.
Como a se dizer bem. Como a se dizer em sossego. Todavia,
há um brilho vivo que parece desmenti-lo.
Era
a voz de seu pai. Acalantando a si próprio também
à vista de que lhe viria um varão. Pai em estado
de graça. Sonhando planos ao seu menino. Em certar
horas, sob o beneplácito de uma mãe pesada e
dorida. Mas não menos enternecida.
O
pai entoava cantigas bonitas. Que agora timbram em seus ouvidos
com uma nitidez nunca, nunca percebida. Agora, o que mal ou
nada soubera então, melodias claras, textos nítidos
das canções.
Cantigas
de ninar! Decerto a mãe, aquietada. Reconfortada em
sua cadeira de balanço. A barriga em seu ir e vir rítmico
da respiração gestante. Olhos cerrados, por
certo também se entregando ao terno acalanto.
Aquela
voz. A de seu pai, agora, ali sussurrantemente não
demarcada. Uma luz impossível impedindo a mínima
tentativa. Mas essa grave voz acalanto se perdia, que outro
sussurro a sobrepunha agora. E não era límpido.
Não era único. Entretanto, sobrepunha sua nitidez.
O que seria? Ficava ansiosamente procurando acertar.
Ácido
sussurro. Áspero sussurro. Completamente agudo. Duro
feito ponta de faca rompante. Por instante, um nítido
grito! Sussurrando impropérios aos seus tímpanos.
Violando um corpo já sem se saber. Completamente perdido.
Sem outro sentido. Não se sentia. Não havia
saber sobre si mesmo. Não se sabia em pulso vivo de
coração. O seu repulso nas têmporas que,
quando deitado, latejava acusando vida. Inerte corpo. Apenas
olhos impedidos e ouvidos cuja memória agora rastreava
a origem daquele apavorante sussurro. Ressôo de abafados
urros mordentes. E, súbito, segundos, comutava-se em
ensurdecedor estampido. Logo, ranger de grades se fechando.
O correr de ferrolho. Em sibilos ferinos tudo isso. Claro,
agora! O cárcere. O fatídico cárcere.
Como
alívio, conquanto persistisse aquele agudo sol a pino
querendo vazar seus olhos, em seu socorro, decerto, fora se
sobrepondo outro sussurro. Aconchegante. Voz de sussurrante
aroma benfazejo. Como se bálsamo a chagas expostas.
Tátil sussurro deslizando por seu corpo. Como brisa
perpassando seus pêlos. Eriçando desejos. Pondo
vivo o que parecia morto. Sussurro tátil pondo vibráteis
músculos e membros. Sussurro puro prestígio,
pois que, súbito, à cegante luz, fez-se absoluto
escuro.
Sortílego
escuro dando paz ao caos. Dando luz a olhos eclipsados. Então,
seus olhos livres puderam ver, ao fundo escuro de uma aberta
veneziana, o seu ontem. O lume sublime de sua estrela incrustou-lhe
a luz de seu perdido brilho.
E
através daquela mesma janela, foi-se a noite sempre
sorrindo lindos lírios. Enquanto discreta por entre
as palmeiras ia-se insinuando a aurora.