Um
filme incomum. Decidira vê-lo. Por razões várias.
A rigor, porque versava sobre algo que lhe era muito próximo.
O filme tomara a vida de um reconhecido poeta para sobre ele
contar.
Não
era uma biografia cinematográfica. O diretor fizera
sua leitura do autor e poeta. Atribuiu a ambos muitas afinidades.
Todavia, mostrou o que muito mais compreendeu ver. E deu aos
poemas, interpretados pela personagem do poeta, alusões
imagéticas que ilustravam-nos. Ou eram imagens alegorizando
a urdidura poética que do texto verbal promanava declamada.
O
filme todo assim se compusera. Uma montagem com o uso de dois
planos. Ora polarizados: quase sempre, ora, às vezes,
superpostos. Num pólo inferior, o plano de baixo, o
poeta. Em performances interpretando seus poemas. Vão
sendo propalados versos e versos. Sons clamantes, gementes,
angustiosos, densos, tensos, sensuais. Um turbilhão
verbal plangendo vozes, violões, vórtices.
Em
plano superior, as imagens. Em posição central,
uma mulher. Branca. Negra. Nuas. Os seios protuberantes e
túmidos. Protuberantes as ancas. Fulva vulva chamejante
em relances. Corpo todo fremente cravejado por verbos feéricos.
Ou
seminuas. Vestidos somente pela rala transparência de
areia de praia aderente às suas carnes. Ou já
na alcova, vestidas de voláteis gazes vibrando em sua
transparência débil. Corpo fremindo na anteexplosão,
no antegozo.
Ele
que com o poeta mantém permanente contato ficou surpreso.
Não como certamente deveriam estar pudicícias
desavisadas. As imagens suas não tinham nunca essa
nitidez e clareza.
Suas
leituras suscitavam imagens insinuadas. Fluidas. Ambíguas.
Esgarçadas. Volutas. Evoladas. Voláteis. E por
essas sensorialidades sinestésicas perpassavam as sensualidades
tênues e efêmeras. E por esses quiméricos
carrosséis fílmicos surdiam esgares de dor e
gozo, frêmitos de lábios túmidos, laivos
de dentes rígidos, semblantes em êxtases sublimados.
Lassidão mansa de corpo agraciado, gratificado.
Todavia
a parte antitética do filme causou-lhe não surpresa,
abalo. Uma comoção humana inefável. Uma
consternação prostrante. E se saber pertencente
a essa espécie animal e, portanto, dotado de genes
daquele feitio adormecidos, capazes de vir à tona,
se requeridos.
Em
contraste com o lírico poético, o dramático
trágico da vida. O filme passa a tomadas da realidade
presente do espaço em que vivera o poeta. Recorta um
brutal costume popular que enodoa a tradição
cultural do lugar: a farra com (e não do) o boi. Imagem
1: Fugindo desesperadamente de seus perseguidores (homens),
o boi cai sobre o teto de uma casa. Imagem 2: O boi, emparedado,
leva uma punhalada no centro do torso. Treme e arqueja. Segundos
depois, o punhal vem novamente. O boi torna a fremir e arquejar
no seu padecimento agônico. Mas o punhal torna a enterrar-se
lhe com seu ímpeto mortífero. E o boi cai prostrado.
O focinho choca-se com o chão. E o sangue jorra em
borbotões de seu ferimento ao cimentado.
Petrificado.
Pungido, ungido àquela dor que, sabia, intransferível.
E lhe vieram outras. O porco sangrado a faca, na fazenda,
quando chegado ao ponto. As leitoas sangradas a faca, na fazenda,
quando das festas. Os frangos, pescoços destroncados
aos domingos, nas festas. Os gritos doídos dos porcos.
Os esbatimentos estertores do corpo frango no solo. O búfalo
com o leão montado sobre ele matando-o a lacerantes
bocadas em vários pontos do pescoço. Os facínoras
de quadrilhas, de gangues, de impérios exterminando
os outros. Matando friamente, covardemente, vilmente, impunemente.
E quando, às vezes, vão à cadeia por
isso, passam a ter o conforto a que três quartos ou
mais de trabalhadores do mundo já não têm
esperança de alcançar. Conforto sustentado pelos
impostos rigorosamente pagos, há anos, pelo seu morto.
E agora continuarão pagos pelos familiares do morto.
Ah!
vida, bem inigualável, que um facínora de ti
partilha e para si preserva-te como a maior relíquia
e que, todavia, tira-te do outro, como um sopro sobre uma
chama de vela para ao sono melhor conforto.