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"Por que rimar amor e dor"?

Data 27/mar/2003

Um filme incomum. Decidira vê-lo. Por razões várias. A rigor, porque versava sobre algo que lhe era muito próximo. O filme tomara a vida de um reconhecido poeta para sobre ele contar.

Não era uma biografia cinematográfica. O diretor fizera sua leitura do autor e poeta. Atribuiu a ambos muitas afinidades. Todavia, mostrou o que muito mais compreendeu ver. E deu aos poemas, interpretados pela personagem do poeta, alusões imagéticas que ilustravam-nos. Ou eram imagens alegorizando a urdidura poética que do texto verbal promanava declamada.

O filme todo assim se compusera. Uma montagem com o uso de dois planos. Ora polarizados: quase sempre, ora, às vezes, superpostos. Num pólo inferior, o plano de baixo, o poeta. Em performances interpretando seus poemas. Vão sendo propalados versos e versos. Sons clamantes, gementes, angustiosos, densos, tensos, sensuais. Um turbilhão verbal plangendo vozes, violões, vórtices.

Em plano superior, as imagens. Em posição central, uma mulher. Branca. Negra. Nuas. Os seios protuberantes e túmidos. Protuberantes as ancas. Fulva vulva chamejante em relances. Corpo todo fremente cravejado por verbos feéricos.

Ou seminuas. Vestidos somente pela rala transparência de areia de praia aderente às suas carnes. Ou já na alcova, vestidas de voláteis gazes vibrando em sua transparência débil. Corpo fremindo na anteexplosão, no antegozo.

Ele que com o poeta mantém permanente contato ficou surpreso. Não como certamente deveriam estar pudicícias desavisadas. As imagens suas não tinham nunca essa nitidez e clareza.

Suas leituras suscitavam imagens insinuadas. Fluidas. Ambíguas. Esgarçadas. Volutas. Evoladas. Voláteis. E por essas sensorialidades sinestésicas perpassavam as sensualidades tênues e efêmeras. E por esses quiméricos carrosséis fílmicos surdiam esgares de dor e gozo, frêmitos de lábios túmidos, laivos de dentes rígidos, semblantes em êxtases sublimados. Lassidão mansa de corpo agraciado, gratificado.

Todavia a parte antitética do filme causou-lhe não surpresa, abalo. Uma comoção humana inefável. Uma consternação prostrante. E se saber pertencente a essa espécie animal e, portanto, dotado de genes daquele feitio adormecidos, capazes de vir à tona, se requeridos.

Em contraste com o lírico poético, o dramático trágico da vida. O filme passa a tomadas da realidade presente do espaço em que vivera o poeta. Recorta um brutal costume popular que enodoa a tradição cultural do lugar: a farra com (e não do) o boi. Imagem 1: Fugindo desesperadamente de seus perseguidores (homens), o boi cai sobre o teto de uma casa. Imagem 2: O boi, emparedado, leva uma punhalada no centro do torso. Treme e arqueja. Segundos depois, o punhal vem novamente. O boi torna a fremir e arquejar no seu padecimento agônico. Mas o punhal torna a enterrar-se lhe com seu ímpeto mortífero. E o boi cai prostrado. O focinho choca-se com o chão. E o sangue jorra em borbotões de seu ferimento ao cimentado.

Petrificado. Pungido, ungido àquela dor que, sabia, intransferível. E lhe vieram outras. O porco sangrado a faca, na fazenda, quando chegado ao ponto. As leitoas sangradas a faca, na fazenda, quando das festas. Os frangos, pescoços destroncados aos domingos, nas festas. Os gritos doídos dos porcos. Os esbatimentos estertores do corpo frango no solo. O búfalo com o leão montado sobre ele matando-o a lacerantes bocadas em vários pontos do pescoço. Os facínoras de quadrilhas, de gangues, de impérios exterminando os outros. Matando friamente, covardemente, vilmente, impunemente. E quando, às vezes, vão à cadeia por isso, passam a ter o conforto a que três quartos ou mais de trabalhadores do mundo já não têm esperança de alcançar. Conforto sustentado pelos impostos rigorosamente pagos, há anos, pelo seu morto. E agora continuarão pagos pelos familiares do morto.

Ah! vida, bem inigualável, que um facínora de ti partilha e para si preserva-te como a maior relíquia e que, todavia, tira-te do outro, como um sopro sobre uma chama de vela para ao sono melhor conforto.



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