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Colóquio

Data 20/mar/2003

Não saberia pronunciar-se quanto a isso. As considerações mais ou menos acertadas. As formas de haver-se com as relações de alteridade escapavam-lhe das cogitações cotidianas. As quais, diga-se, eram intensas. Tensas. Febris. Dia e noite.

Tinha sobre isso postulado de que nunca cogitara duvidar. A bem dizer, circunstancialmente, sim, o fizera. Se, como hora procedia, procedia bem. Se não deveria assumir as situações de praxe.

Todavia, eram cogitações leves. Passageiras. Logo dissipavam-se. Talvez porque não enxergasse necessidade de mudança. Por comodismo. Ou por não convencimento.

O hábito. A vida. A condição de ser fora confeccionando o feito de conduta. A que se dedicava com empenho. Era o fluir da construção de sua vocação de sujeito interagindo com o seu mundo. Travando o embate de escavar seu lugar. Nele assentar suas estacas. Impingir seus caracteres. Nada de grandes nomeadas. Nada de destaques altissonantes. Verdade, sim, que, se isto se desse, lhe faria muito bem. Para modesto esforçava-se. Da hipocrisia procurava livrar-se. Então, há ninguém que não queira figurar em seu espaço por seus meritórios traços.

Em que, todavia, empenhara-se ferrenhamente fora por esse mínimo ideal genético de todo homem: não se deixar ficar na vala anônima dos vegetativos. Vegetar nunca. A própria vegetação da natureza esforça-se contra o anonimato. Haja vista as muitas espécies raras nomináveis. Alguns espécimes delas. Uma certa acácia que reinou rainha mimada anos a fio num certo quintal. Um jacarandá secular monumental resistindo à vertiginosa proliferação de prédios em seu derredor. Sem se abalar, no entanto. As mesmices deles mais o destacavam na sua condição singular de nativa depositária de civilizações e culturas em sua memória empilhadas. Certas paineiras. Certas figueiras em certos sítios. Constantemente reverenciadas por olhares ternos e gratos. Por longos silêncios líricos, agraciados. Certas palmeiras que em renques se postam majestosas para orgulho de seus consórcios habitantes delas envaidecidos. Que as tomam como cartão de visita de seu habitat.

Então, desse anonimato escapar. Sujeito residente. Situado. Profissão consignada. Títulos conquistados por mérito. Trabalho, idem, dignificante e dignificador. Dignitário de respeitos. Não jamais de comiserações. Compaixão não menospreza, não avilta, mas é humilhante a quem a recebe e a atribui a fracassos, deficiências, limitações.

Honrar-se, dignificar-se. Bandeira própria e íntima à sua condição de ser. Não se entregar ao conformismo com suas limitações. Cônscio delas, dedicar-se obstinadamente pela sua superação. Determinação. Autodisciplina. Obstinação. Fé, quando Deus há. O lema que julgava dever-se dar o sujeito indignado com o que lhe faltasse. E conduzir-se assim. De corpo e alma. Paixão e amor. Sem comiseração. Sem altruísmo demagógico. Sem maniqueísmos mesquinhos. Sem vulgarismo. Sem esnobismos. Fugir à condição de sujeito maçante, presunçoso.

Não era pouco. Nem fácil. Tudo assim: o esmero, o apuro com a alteridade sem deixar jamais também de ser ele mesmo. Com seus defeitos, suas limitações em curso.

Essas as reflexões que peroraram em seu cérebro ante o amigo morto. Com se se passasse a limpo. Na tentativa de explicar-se. De aclarar suas ausências. Dissipar qualquer presumível indiferença sua. Ausentava-se. Era sua índole. Sua condição de ser. Mas não deixava de ser presença. Nunca faltara, pelo que soubesse.

E os olhos do amigo morto nos seus olhos eram suaves e serenos.



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