Não
saberia pronunciar-se quanto a isso. As considerações mais ou menos
acertadas. As formas de haver-se com as relações de alteridade escapavam-lhe
das cogitações cotidianas. As quais, diga-se, eram intensas. Tensas.
Febris. Dia e noite.
Tinha
sobre isso postulado de que nunca cogitara duvidar. A bem dizer, circunstancialmente,
sim, o fizera. Se, como hora procedia, procedia bem. Se não deveria assumir
as situações de praxe.
Todavia,
eram cogitações leves. Passageiras. Logo dissipavam-se. Talvez porque
não enxergasse necessidade de mudança. Por comodismo. Ou por não
convencimento.
O
hábito. A vida. A condição de ser fora confeccionando o feito
de conduta. A que se dedicava com empenho. Era o fluir da construção
de sua vocação de sujeito interagindo com o seu mundo. Travando
o embate de escavar seu lugar. Nele assentar suas estacas. Impingir seus caracteres.
Nada de grandes nomeadas. Nada de destaques altissonantes. Verdade, sim, que,
se isto se desse, lhe faria muito bem. Para modesto esforçava-se. Da hipocrisia
procurava livrar-se. Então, há ninguém que não queira
figurar em seu espaço por seus meritórios traços.
Em
que, todavia, empenhara-se ferrenhamente fora por esse mínimo ideal genético
de todo homem: não se deixar ficar na vala anônima dos vegetativos.
Vegetar nunca. A própria vegetação da natureza esforça-se
contra o anonimato. Haja vista as muitas espécies raras nomináveis.
Alguns espécimes delas. Uma certa acácia que reinou rainha mimada
anos a fio num certo quintal. Um jacarandá secular monumental resistindo
à vertiginosa proliferação de prédios em seu derredor.
Sem se abalar, no entanto. As mesmices deles mais o destacavam na sua condição
singular de nativa depositária de civilizações e culturas
em sua memória empilhadas. Certas paineiras. Certas figueiras em certos
sítios. Constantemente reverenciadas por olhares ternos e gratos. Por longos
silêncios líricos, agraciados. Certas palmeiras que em renques se
postam majestosas para orgulho de seus consórcios habitantes delas envaidecidos.
Que as tomam como cartão de visita de seu habitat.
Então,
desse anonimato escapar. Sujeito residente. Situado. Profissão consignada.
Títulos conquistados por mérito. Trabalho, idem, dignificante e
dignificador. Dignitário de respeitos. Não jamais de comiserações.
Compaixão não menospreza, não avilta, mas é humilhante
a quem a recebe e a atribui a fracassos, deficiências, limitações.
Honrar-se,
dignificar-se. Bandeira própria e íntima à sua condição
de ser. Não se entregar ao conformismo com suas limitações.
Cônscio delas, dedicar-se obstinadamente pela sua superação.
Determinação. Autodisciplina. Obstinação. Fé,
quando Deus há. O lema que julgava dever-se dar o sujeito indignado com
o que lhe faltasse. E conduzir-se assim. De corpo e alma. Paixão e amor.
Sem comiseração. Sem altruísmo demagógico. Sem maniqueísmos
mesquinhos. Sem vulgarismo. Sem esnobismos. Fugir à condição
de sujeito maçante, presunçoso.
Não
era pouco. Nem fácil. Tudo assim: o esmero, o apuro com a alteridade sem
deixar jamais também de ser ele mesmo. Com seus defeitos, suas limitações
em curso.
Essas
as reflexões que peroraram em seu cérebro ante o amigo morto. Com
se se passasse a limpo. Na tentativa de explicar-se. De aclarar suas ausências.
Dissipar qualquer presumível indiferença sua. Ausentava-se. Era
sua índole. Sua condição de ser. Mas não deixava de
ser presença. Nunca faltara, pelo que soubesse.
E
os olhos do amigo morto nos seus olhos eram suaves e serenos.