A
nuvem ganhara um tom irreconhecível em nuvens. Então
algo estaria mesmo se passando. Quando Hiroxima converteu-se
no inferno terrestre, muitas visões como tal foram
vistas.
Onde
aquele azul anil tão safira como os olhos dela na memória
dos homens ávidos de amores vãos? Um azul infinito
dando aos homens a paz imaginária. A paz perseguida
desde que o éden veio abaixo. Convertendo-se em cobras
e lagartos. Leões e macacos. Cordeiros e lobos. Convertendo-se
em mães e facínoras. Em déspotas e peregrinos.
O manto azul de Antônio Conselheiro ululando ira e busca
de reintegração de posse do paraíso perdido.
E atrás de si uma multidão de desvalidos a não
saber direito o que fora nem o que virá. Crêem.
E isso é o suficiente passaporte para a entrada nos
trigais e videiras que lhes esperam para fartá-los
de pão e vinho. E o sertão vai virar mar e o
mar vai virar sertão. E o cordeiro beberá da
mesma água do lobo. E o leão aprenderá
a alimentar-se dos frutos da terra. Pastará ervas viçosas
e com o boi se cocarão entre si. O azul turquesa dos
olhos da águia não precisará mais de
avistar poderosamente pequenos viventes para alimentar-se.
Bastar-lhe-ão os altivos frutos para seu possante bico
adunco.
Ah!
o azul celeste dos olhos de Cristo (que os fez assim?) difundindo
perdão, acoitando profunda dor, velando sua veemente
súplica. O azul do mundo! Talvez a evidência
maior de que aquele céu deveria ser deste mundo.
Contudo,
o paraíso converteu-se em céu de chumbo. Necrosaram-no
os cogumelos das bombas das hiroximas. Os milhares de toneladas
de negras e pestilentas fumaças. Esse paraíso
ficou repleto de cacos, e pedaços, e retalhos, e rebotalhos
de putrefatos animais, humanos e urbanos. Cacos de rios inundados
de lixo que a vida humana inventa. E não agüenta.
E então atira fora. Suicida ignorante do efeito bumerangue
destes seus nefastos atos.
Esta
nuvem não nuvem vem tomando conta do céu com
sua cor incolor. As controvérsias: deflagrou-se a invasão
ianque ao Iraque; advém dos efeitos de suas bombas
de longo alcance; violento tornado entornando-se nesta terra
desprovida deles, de terremoto. Esse país tropical,
bonito por natureza. No qual brota, feito olho d`água,
uma favela a cada dia. E de cada favela brotada apossa-se
um comando do poder do tráfico. Peculiaridade desse
país-maravilha: a convivência marginália
entre muito-pobres eternamente e ricos provisórios
poderosos.
Então,
essa não-nuvem ameaçando desabar, como se o
fim das coisas, impregnada de óleo, mercenarismos,
ódios, angústias, é enorme chaga da alma
desesperada do planeta em seu espelho refletida.
Não
é nenhuma missão vinda em nave descomunal dos
infernos para aqui negociar com os impérios a recuperação
salvacionista do planeta. A eles, dizem, esta terra é
um bem inestimável.
Havia,
ontem, céu. O sol pleno incidindo livre no hemisfério.
Calcinando e fecundando esta sua velha companheira de cosmos.
Compreensivo sempre com as suas, dela, debilitações;
com seu, dela, mal de homens incurável a ser tratado
vigilantemente.
A
natureza teimosa, compelida pela compulsão irrefreável
de ser, explodindo sua avidez de vida.
E
depois, ontem, a noite, com sua enorme caravana de entes iluminados,
se fez. A lua tomou seu lugar. Acendeu sua sensualidade e
pôs-se, dama da noite, a cortejar os incautos perdidos
de amor.
Então,
essa não-nuvem não pode ser definitiva. A Terra
haverá de sacudir-se. Enxotar esse chumbo nefasto.
E restaurar o fundo azul de sua cosmicidade.