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Despresságios

Data 13/mar/2003

A nuvem ganhara um tom irreconhecível em nuvens. Então algo estaria mesmo se passando. Quando Hiroxima converteu-se no inferno terrestre, muitas visões como tal foram vistas.

Onde aquele azul anil tão safira como os olhos dela na memória dos homens ávidos de amores vãos? Um azul infinito dando aos homens a paz imaginária. A paz perseguida desde que o éden veio abaixo. Convertendo-se em cobras e lagartos. Leões e macacos. Cordeiros e lobos. Convertendo-se em mães e facínoras. Em déspotas e peregrinos. O manto azul de Antônio Conselheiro ululando ira e busca de reintegração de posse do paraíso perdido. E atrás de si uma multidão de desvalidos a não saber direito o que fora nem o que virá. Crêem. E isso é o suficiente passaporte para a entrada nos trigais e videiras que lhes esperam para fartá-los de pão e vinho. E o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão. E o cordeiro beberá da mesma água do lobo. E o leão aprenderá a alimentar-se dos frutos da terra. Pastará ervas viçosas e com o boi se cocarão entre si. O azul turquesa dos olhos da águia não precisará mais de avistar poderosamente pequenos viventes para alimentar-se. Bastar-lhe-ão os altivos frutos para seu possante bico adunco.

Ah! o azul celeste dos olhos de Cristo (que os fez assim?) difundindo perdão, acoitando profunda dor, velando sua veemente súplica. O azul do mundo! Talvez a evidência maior de que aquele céu deveria ser deste mundo.

Contudo, o paraíso converteu-se em céu de chumbo. Necrosaram-no os cogumelos das bombas das hiroximas. Os milhares de toneladas de negras e pestilentas fumaças. Esse paraíso ficou repleto de cacos, e pedaços, e retalhos, e rebotalhos de putrefatos animais, humanos e urbanos. Cacos de rios inundados de lixo que a vida humana inventa. E não agüenta. E então atira fora. Suicida ignorante do efeito bumerangue destes seus nefastos atos.

Esta nuvem não nuvem vem tomando conta do céu com sua cor incolor. As controvérsias: deflagrou-se a invasão ianque ao Iraque; advém dos efeitos de suas bombas de longo alcance; violento tornado entornando-se nesta terra desprovida deles, de terremoto. Esse país tropical, bonito por natureza. No qual brota, feito olho d`água, uma favela a cada dia. E de cada favela brotada apossa-se um comando do poder do tráfico. Peculiaridade desse país-maravilha: a convivência marginália entre muito-pobres eternamente e ricos provisórios poderosos.

Então, essa não-nuvem ameaçando desabar, como se o fim das coisas, impregnada de óleo, mercenarismos, ódios, angústias, é enorme chaga da alma desesperada do planeta em seu espelho refletida.

Não é nenhuma missão vinda em nave descomunal dos infernos para aqui negociar com os impérios a recuperação salvacionista do planeta. A eles, dizem, esta terra é um bem inestimável.

Havia, ontem, céu. O sol pleno incidindo livre no hemisfério. Calcinando e fecundando esta sua velha companheira de cosmos. Compreensivo sempre com as suas, dela, debilitações; com seu, dela, mal de homens incurável a ser tratado vigilantemente.

A natureza teimosa, compelida pela compulsão irrefreável de ser, explodindo sua avidez de vida.

E depois, ontem, a noite, com sua enorme caravana de entes iluminados, se fez. A lua tomou seu lugar. Acendeu sua sensualidade e pôs-se, dama da noite, a cortejar os incautos perdidos de amor.

Então, essa não-nuvem não pode ser definitiva. A Terra haverá de sacudir-se. Enxotar esse chumbo nefasto. E restaurar o fundo azul de sua cosmicidade.



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