A
monotonia no compasso do cotidiano desfiando a noite. Que
o dia já se havia cumprido. E o silêncio noturno
mais crescia quanto mais a noite agia sobre os homens.
E
então quando um grilo mínimo no escuro do quintal
se ouve.
Quando
o pio de pássaros incomodados nas árvores em
que réstias de luz elétrica incidem.
Quando
surdos passos sozinhos mal palmilham o assalto. Ou um solitário
assobio passa entoando uma canção consoladora.
Quando
os apitos dos seguranças noturnos vão se tornando
únicos barulhos a perturbar a soturna noite.
Quando
já se ouvem uns raros galos intercambiando seus gritos
compelidos pela madrugada.
Quando
o fulgor das estrelas ganha tal cintilação,
como se entoassem um cantochão em louvor ao universo.
Quando
ao longe, vindo da rodovia central, surde um som uníssono,
contínuo e infindo.
Quando
a batida binária do relógio de parede, do despertador
se faz nítida, como se em coro com o compasso do próprio
coração.
Quando
o zumbir de mínimas moscas noturnas, de pequenos besouros
torna-se perfeitamente audível.
Quando
o borbulho da água de uma torneira aberta acorda bicas
de minas cristalinas de longínquos dias.
Quando
o resfolegar de um enrondilhado cão se difunde feito
barulho inteiro.
Quando
as folhas ou palhas secas do quintal crepitam sob o perpassar
fugaz dos lagartos, ratos, gatos sorrateiros.
Quando
o zunir do termostato do abajur é nítido barulho.
Quando
o motor do refrigerador repercute em toda a casa.
Quando
o zumbido do condicionador.
Quando
o resfolegar de uma locomotiva ao longe.
Quando
a noite em prece, antes de entregar-se a seu profundo sono.
Num
estágio desse de uma certa noite, trabalhava. Compunha
ao computador. O cérebro concertando imagens. Concatenando
idéias. Os olhos fixos na iluminada folha-tela. Os
dedos presos na caneta-teclas. E os ouvidos completamente
envolvidos por esses sons da alta noite.
Todavia,
talvez porque esses todos sons se lhe tornaram familiares,
o ouvido, naquela noite alta, passara a perceber um diferente.
Que se fazia. Cessava. Pausava. Tornava.
Tanto
insitira o ouvido a acusar o som estranho, o todo-sentidos
pôs-se a suprir a necessidade de reconhecê-lo.
Identificá-lo para incorporá-lo, ou extirpá-lo.
As
etapas: O som era ali dentro. Auscultar com rigor para se
captar o ponto. Ou os prováveis. Os quais em seguida
iriam sendo eliminados até o real.
Não
foi preciso, que a primeira percepção era sem
erro. Dava-se entre um canto da estante de livros com os fundos
da cômoda do aparelho de som.
Lembrava
ruído de rato. Ou, às vezes, de barata. Isso
lhe evocou episódios em que se vira envolvido com rato.
Eles todos muito desagradáveis. Constrangedores. Também
os com as baratas.
A
surdos passos buscou o lugar do barulho incomum. Aquela crepitação
mínima só audível, de certo, porque àquela
hora.
Sobre
um amarrotado papel crepom, pedaço de capa antiga de
caderno antigo, o sapo. Entre a parede e o piso, duas lagartixas.
Todos coabitantes da casa.
O
sapo velho morador do quintal. Às vezes aparecia pela
casa. No alguidar da água de beber dos cães,
refrescando-se. No fresco da laje sob a pia de serviço.
Ás vezes, na cozinha. Ocasiões em que é
retirado e deposto ao seu habitat: o gramado do quintal. Depois
dele, não se viram mais aranhas e insetos tais.
As
lagartixas, por seu turno, dali daquele cômodo antigas
moradoras. O leite rosado do corpo pelas paredes. A prole.
Escorreitas, súbito, na parede em busca de uma presa.
Agora,
viu, ali entre elas e o sapo uma mariposa agonizante. A movimentação
deles sobre o papel, decerto em seus ritos preparativos para
a luta pela disputa da presa produzia o barulho. Nenhum se
atrevia ao bote. Mútuo receio talvez.
Ele
ficou algum tempo apreciando singular ritual. Depois se viu
tomado pelo sentimento de fazer justiça. Ponderou rapidamente.
E assacou o sapo dali. A mariposa estava em habitat das lagartixas.
E
tornou o velho e semi-obeso sapo boi ao seu lugar.