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Disputa

Data 06/mar/2003

A monotonia no compasso do cotidiano desfiando a noite. Que o dia já se havia cumprido. E o silêncio noturno mais crescia quanto mais a noite agia sobre os homens.

E então quando um grilo mínimo no escuro do quintal se ouve.

Quando o pio de pássaros incomodados nas árvores em que réstias de luz elétrica incidem.

Quando surdos passos sozinhos mal palmilham o assalto. Ou um solitário assobio passa entoando uma canção consoladora.

Quando os apitos dos seguranças noturnos vão se tornando únicos barulhos a perturbar a soturna noite.

Quando já se ouvem uns raros galos intercambiando seus gritos compelidos pela madrugada.

Quando o fulgor das estrelas ganha tal cintilação, como se entoassem um cantochão em louvor ao universo.

Quando ao longe, vindo da rodovia central, surde um som uníssono, contínuo e infindo.

Quando a batida binária do relógio de parede, do despertador se faz nítida, como se em coro com o compasso do próprio coração.

Quando o zumbir de mínimas moscas noturnas, de pequenos besouros torna-se perfeitamente audível.

Quando o borbulho da água de uma torneira aberta acorda bicas de minas cristalinas de longínquos dias.

Quando o resfolegar de um enrondilhado cão se difunde feito barulho inteiro.

Quando as folhas ou palhas secas do quintal crepitam sob o perpassar fugaz dos lagartos, ratos, gatos sorrateiros.

Quando o zunir do termostato do abajur é nítido barulho.

Quando o motor do refrigerador repercute em toda a casa.

Quando o zumbido do condicionador.

Quando o resfolegar de uma locomotiva ao longe.

Quando a noite em prece, antes de entregar-se a seu profundo sono.

Num estágio desse de uma certa noite, trabalhava. Compunha ao computador. O cérebro concertando imagens. Concatenando idéias. Os olhos fixos na iluminada folha-tela. Os dedos presos na caneta-teclas. E os ouvidos completamente envolvidos por esses sons da alta noite.

Todavia, talvez porque esses todos sons se lhe tornaram familiares, o ouvido, naquela noite alta, passara a perceber um diferente. Que se fazia. Cessava. Pausava. Tornava.

Tanto insitira o ouvido a acusar o som estranho, o todo-sentidos pôs-se a suprir a necessidade de reconhecê-lo. Identificá-lo para incorporá-lo, ou extirpá-lo.

As etapas: O som era ali dentro. Auscultar com rigor para se captar o ponto. Ou os prováveis. Os quais em seguida iriam sendo eliminados até o real.

Não foi preciso, que a primeira percepção era sem erro. Dava-se entre um canto da estante de livros com os fundos da cômoda do aparelho de som.

Lembrava ruído de rato. Ou, às vezes, de barata. Isso lhe evocou episódios em que se vira envolvido com rato. Eles todos muito desagradáveis. Constrangedores. Também os com as baratas.

A surdos passos buscou o lugar do barulho incomum. Aquela crepitação mínima só audível, de certo, porque àquela hora.

Sobre um amarrotado papel crepom, pedaço de capa antiga de caderno antigo, o sapo. Entre a parede e o piso, duas lagartixas. Todos coabitantes da casa.

O sapo velho morador do quintal. Às vezes aparecia pela casa. No alguidar da água de beber dos cães, refrescando-se. No fresco da laje sob a pia de serviço. Ás vezes, na cozinha. Ocasiões em que é retirado e deposto ao seu habitat: o gramado do quintal. Depois dele, não se viram mais aranhas e insetos tais.

As lagartixas, por seu turno, dali daquele cômodo antigas moradoras. O leite rosado do corpo pelas paredes. A prole. Escorreitas, súbito, na parede em busca de uma presa.

Agora, viu, ali entre elas e o sapo uma mariposa agonizante. A movimentação deles sobre o papel, decerto em seus ritos preparativos para a luta pela disputa da presa produzia o barulho. Nenhum se atrevia ao bote. Mútuo receio talvez.

Ele ficou algum tempo apreciando singular ritual. Depois se viu tomado pelo sentimento de fazer justiça. Ponderou rapidamente. E assacou o sapo dali. A mariposa estava em habitat das lagartixas.

E tornou o velho e semi-obeso sapo boi ao seu lugar.



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