Quintais
são viveiros. Viveiros raros. Por isso mais vivos.
Mais vistos. Por isso objetos de se pôr reparos.
Refiro-me
àqueles espaços acoplados à casa. Ou
ao fundo dela. Um quadrilátero, retângulo. Ali
convivem heterodoxos seres. Seres escondidos. Ou apenas dados
à vista de seus senhores. Os quais com eles têm
uma relação inteiramente familiar. Muita vez
afetiva.
A
disparidade harmonicamente estabelecida pelo dono. A olhos
estranhos ao sistema regedor dessa relação senhor/seres
do quintal tudo pode parecer caótico.
Quintal
é imodelar. Impossível um estereótipo.
Pois que cada quintal é o semblante de seu dono. A
alma do dono se deixa refletir em seu quintal. Ou o ser do
dono de um quintal sobre este paira.
Talvez
que os perscrutadores do ser de um sujeito devessem tomar
o seu quintal como filão revelador daquela alma. Ali,
naquele quintal, residem cicatrizes, amores, angústias.
Felicidade, dores, temperamento do que o sujeita.
Quintal
é, pois, objeto pessoal. Resguarda e expõe.
Vela e desvela. Alegra e entristece. Descansa e cansa. Quintal
tem com seu dono profunda cumplicidade. Desenvolvem demoradas
e abertas conversações. Se passa, ali, diria,
quando nessas extensas interações, espécie
de peça viva. Ópera aberta em que atores e espectadores
são únicos. Apresentam-se, representam-se a
si mesmos.
Certo.
Há quintais. Por isso, peculiares. Quintais são
signos que contêm traços distintivos de sua época.
Também é certo que certos quintais de certas
épocas se instalam em épocas outras.
Tempos
houve em que muitos quintais eram verdadeiras quintas. Com
pomares. Hortas. Quintais cujos frutos contribuíam
pesadamente para a cesta alimentar da família.
Mas
os tempos vieram encurtando-os. De quintas a quintais. Quintais
houve que se fizeram simulacros de quintas. Alguns pés-de-fruta:
mangueira que frondosa dava também fresca sombra aos
serões familiares.
Sim.
Era um tempo em que as famílias, pobres ou ricas, reuniam-se
periodicamente. Festejavam, em refrescantes quintais, aniversários,
batizados. E aos domingos, e dias santos, e feriados, depois
do almoço, ocupavam seus quintais confortavelmente
protegidos da forte canícula tropical por árvore
magnífica: mangueira, cajueiro, goiabeira, jaqueira,
tamarindeiro.
E
os quintais se sucederam por quintalejos. Os quais também
em feição foram sendo outros. Cada vez mais
citadinas, as pessoas foram perdendo terreno. Os quintais
se apequenando. Se descaracterizando. Perdendo traços
pertinentes. Sobre as árvores recaiu o primeiro interdito.
Árvore passara a incomodar. Tornara-se objeto produtor
de sujeiras. As próprias e as de parasitas a que dá
guarida: principalmente pássaros. Notadamente, porque
quintais coetâneos prezam ser aladrilhados. Manter-se
em terra nua? Anticontemporâneo.
Quintais
tomam espaço. À urbanidade, muito caros. Todavia,
há os que teimosamente de quintais tradicionais não
prescindem. E os mantêm. Que figuram quase feito oásis
em meio o mar de asfalto e cimento.
Feito
este que se contempla. Vivo quintal vicejando. Seus seres
pulsando aos olhos embevecidos do dono. Sua pele recoberta
de grama guarnecendo insetos e sapos. As trepadeiras revestindo
os muros guarnecendo lagartos, (ratos).
Florilegeando
a borboletas e colibris. Suas fruteiras se entrelaçando
ao alto. Domicílio dos domésticos pássaros.
Pousada dos pássaros passageiros. Aqueles da casa,
largo tempo do dia, matam a furtar o resto da ração
dos cães. E estes pássaros, cada qual é
o seu gorjeio. E ao cáustico do sol, a brisa intermitente
prolatando os seus bafejos.
Um
quintal quintal dá a seu dono o dom de se consternar,
de se felicitar ante tais grandezas e refazer-se para o melhor
no comprometimento com a condição humana sua.