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Quintais

Data 27/fev/2003

Quintais são viveiros. Viveiros raros. Por isso mais vivos. Mais vistos. Por isso objetos de se pôr reparos.

Refiro-me àqueles espaços acoplados à casa. Ou ao fundo dela. Um quadrilátero, retângulo. Ali convivem heterodoxos seres. Seres escondidos. Ou apenas dados à vista de seus senhores. Os quais com eles têm uma relação inteiramente familiar. Muita vez afetiva.

A disparidade harmonicamente estabelecida pelo dono. A olhos estranhos ao sistema regedor dessa relação senhor/seres do quintal tudo pode parecer caótico.

Quintal é imodelar. Impossível um estereótipo. Pois que cada quintal é o semblante de seu dono. A alma do dono se deixa refletir em seu quintal. Ou o ser do dono de um quintal sobre este paira.

Talvez que os perscrutadores do ser de um sujeito devessem tomar o seu quintal como filão revelador daquela alma. Ali, naquele quintal, residem cicatrizes, amores, angústias. Felicidade, dores, temperamento do que o sujeita.

Quintal é, pois, objeto pessoal. Resguarda e expõe. Vela e desvela. Alegra e entristece. Descansa e cansa. Quintal tem com seu dono profunda cumplicidade. Desenvolvem demoradas e abertas conversações. Se passa, ali, diria, quando nessas extensas interações, espécie de peça viva. Ópera aberta em que atores e espectadores são únicos. Apresentam-se, representam-se a si mesmos.

Certo. Há quintais. Por isso, peculiares. Quintais são signos que contêm traços distintivos de sua época. Também é certo que certos quintais de certas épocas se instalam em épocas outras.

Tempos houve em que muitos quintais eram verdadeiras quintas. Com pomares. Hortas. Quintais cujos frutos contribuíam pesadamente para a cesta alimentar da família.

Mas os tempos vieram encurtando-os. De quintas a quintais. Quintais houve que se fizeram simulacros de quintas. Alguns pés-de-fruta: mangueira que frondosa dava também fresca sombra aos serões familiares.

Sim. Era um tempo em que as famílias, pobres ou ricas, reuniam-se periodicamente. Festejavam, em refrescantes quintais, aniversários, batizados. E aos domingos, e dias santos, e feriados, depois do almoço, ocupavam seus quintais confortavelmente protegidos da forte canícula tropical por árvore magnífica: mangueira, cajueiro, goiabeira, jaqueira, tamarindeiro.

E os quintais se sucederam por quintalejos. Os quais também em feição foram sendo outros. Cada vez mais citadinas, as pessoas foram perdendo terreno. Os quintais se apequenando. Se descaracterizando. Perdendo traços pertinentes. Sobre as árvores recaiu o primeiro interdito. Árvore passara a incomodar. Tornara-se objeto produtor de sujeiras. As próprias e as de parasitas a que dá guarida: principalmente pássaros. Notadamente, porque quintais coetâneos prezam ser aladrilhados. Manter-se em terra nua? Anticontemporâneo.

Quintais tomam espaço. À urbanidade, muito caros. Todavia, há os que teimosamente de quintais tradicionais não prescindem. E os mantêm. Que figuram quase feito oásis em meio o mar de asfalto e cimento.

Feito este que se contempla. Vivo quintal vicejando. Seus seres pulsando aos olhos embevecidos do dono. Sua pele recoberta de grama guarnecendo insetos e sapos. As trepadeiras revestindo os muros guarnecendo lagartos, (ratos).

Florilegeando a borboletas e colibris. Suas fruteiras se entrelaçando ao alto. Domicílio dos domésticos pássaros. Pousada dos pássaros passageiros. Aqueles da casa, largo tempo do dia, matam a furtar o resto da ração dos cães. E estes pássaros, cada qual é o seu gorjeio. E ao cáustico do sol, a brisa intermitente prolatando os seus bafejos.

Um quintal quintal dá a seu dono o dom de se consternar, de se felicitar ante tais grandezas e refazer-se para o melhor no comprometimento com a condição humana sua.



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