Ponderou:
melhor tratar dos cães dos homens. Pois os homens cães
não passam. Ou passam e chegam. Os cães dos
homens, posto que se sucedam, continuam cães dos homens.
Não, com os homens cães.
Os
homens cães se sucedem sendo outros. Cada vez mais
peritos em produzir-se cada vez mais cães.
É
certo, todavia: cães, na acepção etimológica,
não o são já quase nenhum os cães
dos homens. A domesticação veio fazendo-os mais
para os homens. Mais cada vez menos ferais. Sua ascendência,
uma história dos que vieram de lobos. Especialmente
os dessa banda do mundo.
Paradoxo:
os cães de lobo, convergindo para a domesticação
de homo sapiens. Alinhando-se na lida da casa, com água
tratada, comida balanceada, assistência médica.
Relação de afeto em nível familiar. À
parte as excentricidades e os gritantes e excessivos exageros.
Os quais demandam para cães filhos. Opção,
por não filho filho.
Os
homens, de homo sapiens, convergindo para ferais cães
famintos, perdidos. Logo, bandidos, assassinos, ladrinos.
Desde ainda meninos. Matilhas pelas esquinas rosnando horrores.
Espalhando desgraças em praças, em casas. Cães
de ninhadas malditas cujas cadelas expeliram-nos aos esgotos
de céu aberto.
E
os homens, cães formados, vão forjando, por
escusos atos, seus espaços. Ou sendo mortos, quando
malogrados.
Os
cães dos homens vão conquistando a boa vida
doméstica assistida: entes de família.
Paradoxo
dos percursos de vida. Esses cães dos homens, nascidos
para a livre perambulagem atrás da comida para a sobrevida.
Atávico destino que lhe prescreveu a Natureza. A mesma
dada a seus ancestrais. Múltiplas espécies lobais.
Aqueles
homens cães, nascidos sapiens, faber. Nascidos para
a vida livre não liberalizada, atrás de muito
mais que comida ("A gente quer comida diversão
e arte/A gente quer saída para qualquer parte").
Traçado destino que lhe prescreve a Sociedade.
Então
os cães dos homens se confinam em residências.
Membros da família. Arreliam-se com as quebras da rotina.
Importunam-se com quem de fora. Acostumam-se, acomodam-se
com o espaço largo ou parco. Submetem-se a higienes
quase completamente desanimalizados. Vacinas periódicas.
Refeições racionadas racionalizadas. Logo, protegidos.
A vida mais longeva. A morte de velhice passou a atingir a
estatística canina. Idosos, toda a atenção
requerida e prescrita. Afeto e proteção a amenizar
o estresse, o pânico, as neuroses, as arterioescleroses,
os desentendimentos físicos com outro cão.
Sim,
a repercussão no tecido social ocorre e se amplia.
A medicina tem nos cães um de seus objetos. Idem as
casas de comércio. Idem as lojas de vestimentas. Idem
as casas de higiene e beleza.
Já
os homens cães, não-libertados livres, mal residem,
não se domiciliam. Jazem sob pontes, viadutos, bancos
de passeio público, escanteadas marquises. Domiciliam-se,
quando confinados em presídios. Sabem que os têm
como importunos. Tanto os de fora - em seus automóveis,
em suas lojas, em seus restaurantes, em suas casas de diversão.
Quanto os de dentro - em suas residências temerosos.
Eles acionam a campainha. E, rotos, pedem comida. Pedem dinheiro.
Intoxicam-se, e assaltam, e violentam, e matam.
Então,
os de dentro criam fortalezas: seus cães, altos muros,
cerca elétrica, portões eletrônicos. Tudo
porque há, pelo País, legiões de homens
cães famintos, fétidos, armados, desamados,
abandonados, escorraçados, perseguidos, enxotados.
São
facínoras homens cães demais soltos. Seriíssimas
ameaças ao bem estar. Por isso, os preventivos cães
dos homens contra eles.