Home
|
Conheça Tito Damazo
|
Textos
|
Contato
|



Desarranjo
Data 20/fev/2003

Ponderou: melhor tratar dos cães dos homens. Pois os homens cães não passam. Ou passam e chegam. Os cães dos homens, posto que se sucedam, continuam cães dos homens. Não, com os homens cães.

Os homens cães se sucedem sendo outros. Cada vez mais peritos em produzir-se cada vez mais cães.

É certo, todavia: cães, na acepção etimológica, não o são já quase nenhum os cães dos homens. A domesticação veio fazendo-os mais para os homens. Mais cada vez menos ferais. Sua ascendência, uma história dos que vieram de lobos. Especialmente os dessa banda do mundo.

Paradoxo: os cães de lobo, convergindo para a domesticação de homo sapiens. Alinhando-se na lida da casa, com água tratada, comida balanceada, assistência médica. Relação de afeto em nível familiar. À parte as excentricidades e os gritantes e excessivos exageros. Os quais demandam para cães filhos. Opção, por não filho filho.

Os homens, de homo sapiens, convergindo para ferais cães famintos, perdidos. Logo, bandidos, assassinos, ladrinos. Desde ainda meninos. Matilhas pelas esquinas rosnando horrores. Espalhando desgraças em praças, em casas. Cães de ninhadas malditas cujas cadelas expeliram-nos aos esgotos de céu aberto.

E os homens, cães formados, vão forjando, por escusos atos, seus espaços. Ou sendo mortos, quando malogrados.

Os cães dos homens vão conquistando a boa vida doméstica assistida: entes de família.

Paradoxo dos percursos de vida. Esses cães dos homens, nascidos para a livre perambulagem atrás da comida para a sobrevida. Atávico destino que lhe prescreveu a Natureza. A mesma dada a seus ancestrais. Múltiplas espécies lobais.

Aqueles homens cães, nascidos sapiens, faber. Nascidos para a vida livre não liberalizada, atrás de muito mais que comida ("A gente quer comida diversão e arte/A gente quer saída para qualquer parte"). Traçado destino que lhe prescreve a Sociedade.

Então os cães dos homens se confinam em residências. Membros da família. Arreliam-se com as quebras da rotina. Importunam-se com quem de fora. Acostumam-se, acomodam-se com o espaço largo ou parco. Submetem-se a higienes quase completamente desanimalizados. Vacinas periódicas. Refeições racionadas racionalizadas. Logo, protegidos. A vida mais longeva. A morte de velhice passou a atingir a estatística canina. Idosos, toda a atenção requerida e prescrita. Afeto e proteção a amenizar o estresse, o pânico, as neuroses, as arterioescleroses, os desentendimentos físicos com outro cão.

Sim, a repercussão no tecido social ocorre e se amplia. A medicina tem nos cães um de seus objetos. Idem as casas de comércio. Idem as lojas de vestimentas. Idem as casas de higiene e beleza.

Já os homens cães, não-libertados livres, mal residem, não se domiciliam. Jazem sob pontes, viadutos, bancos de passeio público, escanteadas marquises. Domiciliam-se, quando confinados em presídios. Sabem que os têm como importunos. Tanto os de fora - em seus automóveis, em suas lojas, em seus restaurantes, em suas casas de diversão. Quanto os de dentro - em suas residências temerosos. Eles acionam a campainha. E, rotos, pedem comida. Pedem dinheiro. Intoxicam-se, e assaltam, e violentam, e matam.

Então, os de dentro criam fortalezas: seus cães, altos muros, cerca elétrica, portões eletrônicos. Tudo porque há, pelo País, legiões de homens cães famintos, fétidos, armados, desamados, abandonados, escorraçados, perseguidos, enxotados.

São facínoras homens cães demais soltos. Seriíssimas ameaças ao bem estar. Por isso, os preventivos cães dos homens contra eles.



Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003, Poetagem - www.poetagem.com.br

Site Produzido por Espaço Cibernético Espaço Cibernético