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Gato, mastzoo-felis catus
Data 06/fev/2003

Herdara, talvez, também essa tendência. Ou hábito. Ou gosto. Ou apego. Ter bicho doméstico. Mais precisamente, cachorro, gato. Menino, gato foi seu chamego. Gostava de gato. Conta-se que não dormia sem ele.

Tampouco o gato. Acontecia de o menino adormecer no chão. Estendidos num acolchado. Noite de intenso calor. Adormecido, criança rolando a extensão toda do anteleito. Então aproveitavam para retirar o gato. Recolhiam o menino à cama. Se o sono o mantivesse arrebatado, dormia sem o gato.

Caso raríssimo, todavia. Posto fizesse calor, parecia ele sentir a falta do calor do gato. Mais cômodo, devolver-lho. Que ninguém se dispunha a incômodos maiores, justo quando já o sono vai dominando a todos.

E o gato tornava ao conchego do dono. Para o bom e profundo sono de ambos. Também dos demais. A casa mergulhava no indevassável mundo dos sonhos.

O que a mãe afligia era a corrente voz de que gato passava asma. E o menino, vez ou outra, tinha tosse incessante. Peito em chiadeira de carregado que era, ver a de gato. Aquele ronronar característico ia para o filho.

Daí que vivia arquitetando formas de dissuadi-lo do gato. Contava histórias todas em que o grande vilão era o gato. Ou homem mau que tinha gato como companheiro de trama. Nada, todavia. Acabava por concluir que procedia equivocadamente. O filho, da forma mais natural do mundo, separava os dois universos. O gato das histórias da mãe era de mentira. Gato de mentira pode tudo. O dele era de verdade. E gato de verdade é sempre aquele gato. Preguiçoso. Dócil. Caseiro. Súbito, nada se assemelha à sua agilidade. Pula. Sobe. Desce. Salta. Nas árvores. Nos móveis. Nada, nada, em horas dessas, daquele bicho sisudo, extático. Sobreposto em si mesmo. O corpo sobre as quatro patas. A cauda em repouso. Os azuis dos olhos pousando a mira negra de suas pupilas na rotina da casa. Quando não, a sensualidade felina expressa na preguiça de um longo sono numa poltrona, num tapete.

Ainda outro gato era, quando o que ele e o menino, quase, sabiam. Ai dos bichos caçáveis! A mira de suas pupilas negras se faz cruz negra como se escopeta a seguir indelevelmente sua presa. E então, toma-o, decerto, toda a sua felinidade selvagem. Como um tigre; um leão; uma onça pintada. Nem um triz. Nada o demove dessa empreitada. E a caçada obsessiva, compulsivamente necessária à sua condição.

Ali, sorrateiro. A cauda sinuando a intenção tensa e obstinada. Concentração em grau máximo. Paciente estudo e espera. O bote não pode perder-se. Parece uma questão de honra de qualidade. A preservação da esperteza, da artimanha e agilidade. Caracteres indissociáveis da espécie mastzoo, felis catus.

Presa não abatida, guerreiro abatido, parece. Conquanto, quando isso assim sucede, sua esperteza, saiba sustentar a pose de quem, em verdade, não perde, somente concede uma trégua. Situações tais ocorrem, por vezes, quando a caça é pássaro. Alada caça. A ela são maiores as condições de defesa. A altura a ele impõe limites.

Sorte não concedida a ratos. Ante um rato é que se vê a magnitude da competência do gato. Com ele, às vezes age de forma tripudiosa. Gato acabado de almoçar. Surde-lhe diante um rato. O instinto joga-o sobre a presa. Mas nenhuma fome há que o faça devorá-lo. Então se põe a brincar com a vida do outro. Solta e pega. Solta e pega. O jogo se instala. Solto, o rato, então, não foge. Finge ficar extático de medo. Súbito, dispara. Mas a pata o pega. O desfecho se precipita com a ameaça do menino em intervir arrebatando o rato. O gato não deixa. É a morte do rato. A presa é dele e isto não se entrega nem se reparte.

Homem. Compartilhando a casa com a família, o menino introduziu o gato. Mas já ele era outro. Não era mais o filho apegado ao gato. Uma afetiva relação apenas, agora, entre eles. A permanência do gato dentro de casa causa controvérsias. O lema: lugar de gato era o quintal. E havia quintal. Um dia, à fresca do quintal. O gato fora para o muro. O gato indo e vindo pelo muro. O gato em posição de ataque no muro. O gato em disparada sobre uma presa não perceptível. O sumiço momentâneo do gato. Depois, o barulho de um baque. Numa confluência dos muros, seu gato estatelado. Foi seu último gato.



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