Herdara, talvez, também essa tendência.
Ou hábito. Ou gosto. Ou apego. Ter bicho doméstico.
Mais precisamente, cachorro, gato. Menino, gato foi seu chamego.
Gostava de gato. Conta-se que não dormia sem ele.
Tampouco o gato. Acontecia de o menino adormecer
no chão. Estendidos num acolchado. Noite de intenso
calor. Adormecido, criança rolando a extensão
toda do anteleito. Então aproveitavam para retirar
o gato. Recolhiam o menino à cama. Se o sono o mantivesse
arrebatado, dormia sem o gato.
Caso raríssimo, todavia. Posto fizesse
calor, parecia ele sentir a falta do calor do gato. Mais cômodo,
devolver-lho. Que ninguém se dispunha a incômodos
maiores, justo quando já o sono vai dominando a todos.
E o gato tornava ao conchego do dono. Para
o bom e profundo sono de ambos. Também dos demais.
A casa mergulhava no indevassável mundo dos sonhos.
O que a mãe afligia era a corrente
voz de que gato passava asma. E o menino, vez ou outra, tinha
tosse incessante. Peito em chiadeira de carregado que era,
ver a de gato. Aquele ronronar característico ia para
o filho.
Daí que vivia arquitetando formas de
dissuadi-lo do gato. Contava histórias todas em que
o grande vilão era o gato. Ou homem mau que tinha gato
como companheiro de trama. Nada, todavia. Acabava por concluir
que procedia equivocadamente. O filho, da forma mais natural
do mundo, separava os dois universos. O gato das histórias
da mãe era de mentira. Gato de mentira pode tudo. O
dele era de verdade. E gato de verdade é sempre aquele
gato. Preguiçoso. Dócil. Caseiro. Súbito,
nada se assemelha à sua agilidade. Pula. Sobe. Desce.
Salta. Nas árvores. Nos móveis. Nada, nada,
em horas dessas, daquele bicho sisudo, extático. Sobreposto
em si mesmo. O corpo sobre as quatro patas. A cauda em repouso.
Os azuis dos olhos pousando a mira negra de suas pupilas na
rotina da casa. Quando não, a sensualidade felina expressa
na preguiça de um longo sono numa poltrona, num tapete.
Ainda outro gato era, quando o que ele e o
menino, quase, sabiam. Ai dos bichos caçáveis!
A mira de suas pupilas negras se faz cruz negra como se escopeta
a seguir indelevelmente sua presa. E então, toma-o,
decerto, toda a sua felinidade selvagem. Como um tigre; um
leão; uma onça pintada. Nem um triz. Nada o
demove dessa empreitada. E a caçada obsessiva, compulsivamente
necessária à sua condição.
Ali, sorrateiro. A cauda sinuando a intenção
tensa e obstinada. Concentração em grau máximo.
Paciente estudo e espera. O bote não pode perder-se.
Parece uma questão de honra de qualidade. A preservação
da esperteza, da artimanha e agilidade. Caracteres indissociáveis
da espécie mastzoo, felis catus.
Presa não abatida, guerreiro abatido,
parece. Conquanto, quando isso assim sucede, sua esperteza,
saiba sustentar a pose de quem, em verdade, não perde,
somente concede uma trégua. Situações
tais ocorrem, por vezes, quando a caça é pássaro.
Alada caça. A ela são maiores as condições
de defesa. A altura a ele impõe limites.
Sorte não concedida a ratos. Ante um
rato é que se vê a magnitude da competência
do gato. Com ele, às vezes age de forma tripudiosa.
Gato acabado de almoçar. Surde-lhe diante um rato.
O instinto joga-o sobre a presa. Mas nenhuma fome há
que o faça devorá-lo. Então se põe
a brincar com a vida do outro. Solta e pega. Solta e pega.
O jogo se instala. Solto, o rato, então, não
foge. Finge ficar extático de medo. Súbito,
dispara. Mas a pata o pega. O desfecho se precipita com a
ameaça do menino em intervir arrebatando o rato. O
gato não deixa. É a morte do rato. A presa é
dele e isto não se entrega nem se reparte.
Homem. Compartilhando a casa com a família,
o menino introduziu o gato. Mas já ele era outro. Não
era mais o filho apegado ao gato. Uma afetiva relação
apenas, agora, entre eles. A permanência do gato dentro
de casa causa controvérsias. O lema: lugar de gato
era o quintal. E havia quintal. Um dia, à fresca do
quintal. O gato fora para o muro. O gato indo e vindo pelo
muro. O gato em posição de ataque no muro. O
gato em disparada sobre uma presa não perceptível.
O sumiço momentâneo do gato. Depois, o barulho
de um baque. Numa confluência dos muros, seu gato estatelado.
Foi seu último gato.