Lhe perguntaram de onde era. Era de natureza
citadina. Gerado e criado em cidade. Porém cidade pequena.
Povoado modesto. De muito pouco recursos, aprendera a ouvir
falarem. A notoriedade havia. Contudo o anonimato praticamente
não havia. E os notórios o eram, porque ricos.
E riqueza, como tudo, tem sentido relativo. Em lugar quase
sem recurso, os com recursos são ricos. Quando, entanto,
perante outras tidas riquezas, humildade, de humilhados, ou
não, se categorizavam como simples, modestos.
Então. Havia uma coletoria. O coletor
era rico. Havia um grande empório. Rico, o seu proprietário.
Um correio cujo agente era, também. Uma estação
ferroviária de chefe rico. Um diretor da única
escola com cara de rico. O posto de saúde com um médico.
Médico é rico. Uma grande padaria e confeitaria
e seu proprietário visto como rico. Também rico
era apontado o dono do grande bar e sorveteria da cidade.
Ah, os bares botecos já infestavam
a cidade. Maior freqüência. Povo de simples trato
os buscavam. Neles se instalavam horas e horas. Ao nobre bar
e sorveteria apenas iam para compra. Feita, tornavam. Um vazio
permanente freqüentadíssimo. Havia um andar superior.
Reservado aos ricos. Se dizia que até altas horas bebiam
uísque e jogavam pôquer. Jogo de rico. Dançavam
ao som de discretos sambas e boleros. A discrição
implicava que cá embaixo se formulassem imagens representativas
lá de cima.
Então se diziam muitas coisas de lá,
sem que se visse nada. Sem que nada se ouvisse. Os ricos não
davam aos de baixo a mínima vaza. Tudo muito cerrado.
Que viajassem imaginativamente. E tudo ficaria creditado à
invencionice da miudagem.
Isso, assim dito, não tem nenhuma relação
com a vista realidade. Os tidos ricos, no cotidiano, apresentavam
condutas respeitosas (o que os faziam respeitáveis).
Amáveis. Afáveis. Brincalhões. Por isso
mesmo. Ou que, conquanto aqueles, pobres, sabiam perfeitamente
tratar-se de seus reais e principais clientes. Ou que assim
se davam mesmo. Ou que interesses demasiado egoístas
em lugarejo acabava decretando falência. Pobreza pouca,
mas constante.
Assim que, ali, o anonimato inexistia. Todos,
por alguma razão, fato, motivo, parentesco, cor, aspecto,
caracteres físico, moral e psicológico: todos
se sabiam. Ninguém desconhecia ninguém absolutamente.
Domingo. A matriz dos católicos e a
Assembléia de Deus dos protestantes (os crentes) repletas
de seus fiéis. Irmãos em Deus. Oravam. Decerto
pediam, uns, desculpas, perdões. Outros, saúde.
Outros, vida melhor. Outros, nem coisas quaisquer dessas.
Iam por ir. Iam por ver. Iam por aparecer.
No campo de futebol municipal. Havia o time
da cidade. Compunha-o ricos e pobres. Ali, a compensação
passageira. A mais valia vinha das qualidades e habilidades
pessoais. Então vários pobres eram ricos. Alguns
ricos, muito pobres. Um rico, rico permanecia, que da bola
fazia capital muito melhor que dos bens e dinheiros possuintes.
Lugarejo (tem ainda?) tinha disso. Seu Nicodemus,
fazendeirão do lugar. Grandalhão. Pança.
Vozeirão. Sempre de chapelão vistoso. Lenço
de seda ao pescoço. Bota cano sanfonado de fabricação
de seu Abelardo. Falando alto, grosso. O Zé de dona
Zefa, dono de quantas cachaças houvesse. Mas queria
ver quem fosse pescador igual, lenhador semelhante. Norico,
o maluco-manso (que cidadezinha não o tinha?) aturado
pachorrentamente e mesmo defendido por todos. Não perdia
um velório. No enterro, fosse de quem fosse, o primeiro
ao pé do féretro era ele. Ninguém o impedia
disso. Ao contrário, aquilo parecia bons augúrios
ao morto. Tanto que houve caso dos familiares ir à
caça de Norico que, por alguma razão, na hora
do enterro, ali não estava. Isso, todavia, era raríssimo.
Seu Abelardo. Boêmio. Mulherengo. Campeão de
sinuca. Mas portador de outro atributo caro à comunidade:
sapateiro exímio. Fazia o que ninguém duvidava.
Sapatos masculinos. Femininos (as senhoras e muitas donzelas
preferiam-no aos sapatos de loja --- seu Abelardo fazia como
elas encomendassem). Botinas. Botas. Consertos quase impossíveis.
Dois defeitos. Um punha a família em arrelia --- a
concessão ao fiado que aproveitadores e despossuídos
nunca saldavam. Outro punha em arrelia a clientela --- nunca
cumpria prazo. Para obter a mercadoria, muita vez, freguês
foi buscar seu Abelardo no bilhar.
Nas procissões, as posições
de destaque também eram repartidas. Seu Hernandes,
inspetor de escola, orgulhava-se de ser o tocador oficial
da matraca, todo de terno impecável. O pálio,
ao andor do Senhor Morto, divido entre os simples e os nobres.
Talvez, como o consumo atinha-se no mínimo
necessário, que a escassez era a normalidade, e a vaidade
discreta, e os valores afeitos à importância
da condição humana, por isso ser era a primeira
riqueza que toda família havia que ostentar, talvez,
por isso, o homem fosse de fato feliz.