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Formação
Data 30/jan/2003

Lhe perguntaram de onde era. Era de natureza citadina. Gerado e criado em cidade. Porém cidade pequena. Povoado modesto. De muito pouco recursos, aprendera a ouvir falarem. A notoriedade havia. Contudo o anonimato praticamente não havia. E os notórios o eram, porque ricos. E riqueza, como tudo, tem sentido relativo. Em lugar quase sem recurso, os com recursos são ricos. Quando, entanto, perante outras tidas riquezas, humildade, de humilhados, ou não, se categorizavam como simples, modestos.

Então. Havia uma coletoria. O coletor era rico. Havia um grande empório. Rico, o seu proprietário. Um correio cujo agente era, também. Uma estação ferroviária de chefe rico. Um diretor da única escola com cara de rico. O posto de saúde com um médico. Médico é rico. Uma grande padaria e confeitaria e seu proprietário visto como rico. Também rico era apontado o dono do grande bar e sorveteria da cidade.

Ah, os bares botecos já infestavam a cidade. Maior freqüência. Povo de simples trato os buscavam. Neles se instalavam horas e horas. Ao nobre bar e sorveteria apenas iam para compra. Feita, tornavam. Um vazio permanente freqüentadíssimo. Havia um andar superior. Reservado aos ricos. Se dizia que até altas horas bebiam uísque e jogavam pôquer. Jogo de rico. Dançavam ao som de discretos sambas e boleros. A discrição implicava que cá embaixo se formulassem imagens representativas lá de cima.

Então se diziam muitas coisas de lá, sem que se visse nada. Sem que nada se ouvisse. Os ricos não davam aos de baixo a mínima vaza. Tudo muito cerrado. Que viajassem imaginativamente. E tudo ficaria creditado à invencionice da miudagem.

Isso, assim dito, não tem nenhuma relação com a vista realidade. Os tidos ricos, no cotidiano, apresentavam condutas respeitosas (o que os faziam respeitáveis). Amáveis. Afáveis. Brincalhões. Por isso mesmo. Ou que, conquanto aqueles, pobres, sabiam perfeitamente tratar-se de seus reais e principais clientes. Ou que assim se davam mesmo. Ou que interesses demasiado egoístas em lugarejo acabava decretando falência. Pobreza pouca, mas constante.

Assim que, ali, o anonimato inexistia. Todos, por alguma razão, fato, motivo, parentesco, cor, aspecto, caracteres físico, moral e psicológico: todos se sabiam. Ninguém desconhecia ninguém absolutamente.

Domingo. A matriz dos católicos e a Assembléia de Deus dos protestantes (os crentes) repletas de seus fiéis. Irmãos em Deus. Oravam. Decerto pediam, uns, desculpas, perdões. Outros, saúde. Outros, vida melhor. Outros, nem coisas quaisquer dessas. Iam por ir. Iam por ver. Iam por aparecer.

No campo de futebol municipal. Havia o time da cidade. Compunha-o ricos e pobres. Ali, a compensação passageira. A mais valia vinha das qualidades e habilidades pessoais. Então vários pobres eram ricos. Alguns ricos, muito pobres. Um rico, rico permanecia, que da bola fazia capital muito melhor que dos bens e dinheiros possuintes.

Lugarejo (tem ainda?) tinha disso. Seu Nicodemus, fazendeirão do lugar. Grandalhão. Pança. Vozeirão. Sempre de chapelão vistoso. Lenço de seda ao pescoço. Bota cano sanfonado de fabricação de seu Abelardo. Falando alto, grosso. O Zé de dona Zefa, dono de quantas cachaças houvesse. Mas queria ver quem fosse pescador igual, lenhador semelhante. Norico, o maluco-manso (que cidadezinha não o tinha?) aturado pachorrentamente e mesmo defendido por todos. Não perdia um velório. No enterro, fosse de quem fosse, o primeiro ao pé do féretro era ele. Ninguém o impedia disso. Ao contrário, aquilo parecia bons augúrios ao morto. Tanto que houve caso dos familiares ir à caça de Norico que, por alguma razão, na hora do enterro, ali não estava. Isso, todavia, era raríssimo. Seu Abelardo. Boêmio. Mulherengo. Campeão de sinuca. Mas portador de outro atributo caro à comunidade: sapateiro exímio. Fazia o que ninguém duvidava. Sapatos masculinos. Femininos (as senhoras e muitas donzelas preferiam-no aos sapatos de loja --- seu Abelardo fazia como elas encomendassem). Botinas. Botas. Consertos quase impossíveis. Dois defeitos. Um punha a família em arrelia --- a concessão ao fiado que aproveitadores e despossuídos nunca saldavam. Outro punha em arrelia a clientela --- nunca cumpria prazo. Para obter a mercadoria, muita vez, freguês foi buscar seu Abelardo no bilhar.

Nas procissões, as posições de destaque também eram repartidas. Seu Hernandes, inspetor de escola, orgulhava-se de ser o tocador oficial da matraca, todo de terno impecável. O pálio, ao andor do Senhor Morto, divido entre os simples e os nobres.

Talvez, como o consumo atinha-se no mínimo necessário, que a escassez era a normalidade, e a vaidade discreta, e os valores afeitos à importância da condição humana, por isso ser era a primeira riqueza que toda família havia que ostentar, talvez, por isso, o homem fosse de fato feliz.



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