Talvez tudo fosse um grande desatino. Tolices
de imaginações perdidas em sua grande preguiça.
Esvoaçando sem rumo e sem nexo. Ao bel do fluxo de
pensamento solto, desarticulado. Quando assim, tudo vem com
o sopro da desordem. Cabeça oca aberta ao que lhe assalta.
Voltam-lhe nessa caótica aragem as arrebatadoras imagens.
Inefáveis. Capazes de arrancar por completo o siso
da noção física e psíquica. Ao
dar-se, súbito, em susto, a si mesmo, por segundos
se pergunta o sujeito onde está. A noção
do presente de si próprio, muitas vezes, uma absoluta
ausência. Reassenhoreado, fica se indagando sobre estar
ali. Custa atinar.
E assim vulnerável, a alma. Muitas
vezes esturdiamente absorta. Absenteísmo absoluto.
Divagação em tropeços. Mas tropeços
alados, sem grandes cuidados. Formam mosaicos de situações.
Que mal percebidas evolam. Voltam. Sem que Evocadas. Sem que
se saiba a razão mesma delas.
As imagens. Se a linguagem as produzem, pensar
é linguagem produtora delas em profusão. Aladas,
invadem juízo ausente. De meditação forra.
Quase como abelhas em colméia. Formigas. Todavia, há,
às vezes, atração. De que juízo
e imagem não se desfazem. Mais quanto mais. Imagem
assalta juízo. Juízo aprisiona imagem. Borboleta
e seu jardim. Colibri e seu vergel.
Contudo, voejam nessa hora também,
intrusas e ousadas, as imagens que se queria extintas. Imagens
diabas. Fustigam, conturbam, concitam, castigam. Imagens que
teimam. Que se julgava para sempre findas. Cinzas vivas. Que
se fazem fogo ante fagulha imperceptível. Fagulha que
seu sequioso calor capta num átimo. Numa percepção
muito acima da humana.
Imagens vorazes. Que a muitos põem
em pânico. Monstros devassando os esconsos de porões
sete chaves. Que a cabeça as quer para sempre perdidas.
Mas que esses fantasmas sabem onde encontrar. E de posse se
libertam para irem: pássaros Whitichok bicando a alma
que se põe a penar. Bicando a consciência em
drama.
Imagens que vão na bagagem de um homem
até findo seu destino. E, se partilhadas, tão
logo isso, evadem do que se fez inerme e se acotovelam no
que ainda lhes serve. E aquelas certas imagens que deliberam
criar o universo a que inteiro o sujeito se entrega. Elas
são o seu real. Ao qual o real empírico molesta,
atormenta enormemente. Porque sempre de encontro àqueles
comandos. E então a força dos que aos insanos
se impõem em manicômios os prende. Para que suas
imagens, supõe-se, à sua própria imagem
se confinem. Até, por fim, ocorrer uma ou outra passagem.
Esses sujeitos Quincas Borbas. Esses sujeitos Rubiões.
Esses sujeitos Quaresmas. Esses sujeitos Antônios Conselheiros.
Esses sujeitos Antônios Vieiras.
A imagem faz os homens. Dá-lhes a dimensão
de si mesmo. Tanto a dimensão real, quanto a dimensão
virtual. A imagem projeta o homem. A imagem modela o homem.
A imagem instiga. A imagem tenta. A imagem alenta. E desalenta.
A imagem erotiza. A imagem horroriza.
As criaturas e sua imagem. A criatura humana
e a sua imagem. O homem é a sua imagem. Que ele somente
dela sabe. Somente o seu olhar a compõe. Somente o
seu olhar a reconhece. Somente ao seu olhar ela faz sentido.
Por isso avilta. Por isso repulsa. Por isso atrai. Por isso
afaga. Por isso apaga. Por isso guarda. Por isso se guarda.
A imagem de um homem está na face de
seu pai. Na face de sua mãe. A imagem de um homem está
na face de seu filho. A imagem de um homem está na
contraface de seu filho. A imagem de um homem é a contraface
de um outro homem. O homem é a sua imagem. Mas a sua
semelhança não é a sua imagem. O homem
está por todo o sempre destinado a carregar a sua imagem.
Imagem que o conduz e o conduzirá, enquanto homem houver.