Home
|
Conheça Tito Damazo
|
Textos
|
Contato
|



(I)ma(r)gem
Data 23/jan/2003

Talvez tudo fosse um grande desatino. Tolices de imaginações perdidas em sua grande preguiça. Esvoaçando sem rumo e sem nexo. Ao bel do fluxo de pensamento solto, desarticulado. Quando assim, tudo vem com o sopro da desordem. Cabeça oca aberta ao que lhe assalta. Voltam-lhe nessa caótica aragem as arrebatadoras imagens. Inefáveis. Capazes de arrancar por completo o siso da noção física e psíquica. Ao dar-se, súbito, em susto, a si mesmo, por segundos se pergunta o sujeito onde está. A noção do presente de si próprio, muitas vezes, uma absoluta ausência. Reassenhoreado, fica se indagando sobre estar ali. Custa atinar.

E assim vulnerável, a alma. Muitas vezes esturdiamente absorta. Absenteísmo absoluto. Divagação em tropeços. Mas tropeços alados, sem grandes cuidados. Formam mosaicos de situações. Que mal percebidas evolam. Voltam. Sem que Evocadas. Sem que se saiba a razão mesma delas.

As imagens. Se a linguagem as produzem, pensar é linguagem produtora delas em profusão. Aladas, invadem juízo ausente. De meditação forra. Quase como abelhas em colméia. Formigas. Todavia, há, às vezes, atração. De que juízo e imagem não se desfazem. Mais quanto mais. Imagem assalta juízo. Juízo aprisiona imagem. Borboleta e seu jardim. Colibri e seu vergel.

Contudo, voejam nessa hora também, intrusas e ousadas, as imagens que se queria extintas. Imagens diabas. Fustigam, conturbam, concitam, castigam. Imagens que teimam. Que se julgava para sempre findas. Cinzas vivas. Que se fazem fogo ante fagulha imperceptível. Fagulha que seu sequioso calor capta num átimo. Numa percepção muito acima da humana.

Imagens vorazes. Que a muitos põem em pânico. Monstros devassando os esconsos de porões sete chaves. Que a cabeça as quer para sempre perdidas. Mas que esses fantasmas sabem onde encontrar. E de posse se libertam para irem: pássaros Whitichok bicando a alma que se põe a penar. Bicando a consciência em drama.

Imagens que vão na bagagem de um homem até findo seu destino. E, se partilhadas, tão logo isso, evadem do que se fez inerme e se acotovelam no que ainda lhes serve. E aquelas certas imagens que deliberam criar o universo a que inteiro o sujeito se entrega. Elas são o seu real. Ao qual o real empírico molesta, atormenta enormemente. Porque sempre de encontro àqueles comandos. E então a força dos que aos insanos se impõem em manicômios os prende. Para que suas imagens, supõe-se, à sua própria imagem se confinem. Até, por fim, ocorrer uma ou outra passagem. Esses sujeitos Quincas Borbas. Esses sujeitos Rubiões. Esses sujeitos Quaresmas. Esses sujeitos Antônios Conselheiros. Esses sujeitos Antônios Vieiras.

A imagem faz os homens. Dá-lhes a dimensão de si mesmo. Tanto a dimensão real, quanto a dimensão virtual. A imagem projeta o homem. A imagem modela o homem. A imagem instiga. A imagem tenta. A imagem alenta. E desalenta. A imagem erotiza. A imagem horroriza.

As criaturas e sua imagem. A criatura humana e a sua imagem. O homem é a sua imagem. Que ele somente dela sabe. Somente o seu olhar a compõe. Somente o seu olhar a reconhece. Somente ao seu olhar ela faz sentido. Por isso avilta. Por isso repulsa. Por isso atrai. Por isso afaga. Por isso apaga. Por isso guarda. Por isso se guarda.

A imagem de um homem está na face de seu pai. Na face de sua mãe. A imagem de um homem está na face de seu filho. A imagem de um homem está na contraface de seu filho. A imagem de um homem é a contraface de um outro homem. O homem é a sua imagem. Mas a sua semelhança não é a sua imagem. O homem está por todo o sempre destinado a carregar a sua imagem. Imagem que o conduz e o conduzirá, enquanto homem houver.



Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003, Poetagem - www.poetagem.com.br

Site Produzido por Espaço Cibernético Espaço Cibernético