O barulho do silêncio, uma companhia
alentadora. Quase todo o tempo o silêncio conduzia ali
o tempo. Mais intensamente assim a quem vivia com os sentidos
sintonizados nele. Um silêncio cujas manifestações
costuravam o cotidiano quase sem variações.
Entanto, o repetitivo não era monótono. Nem
entorpecia o senso crítico. Não imantava o sabor
de sorvê-lo a cada dia. Mesmo com a aparente roupagem
de sempre.
Não se pense tratar-se de um ermo primitivo.
Onde não se fizera ainda conhecer o dinamismo, a simultaneidade,
o efêmero da civilização contemporânea..
Longínquo lugar, sim. Nada da real civilização
contemporânea próximo, é certo. As médias
e meio-grandes cidades distantes. A metrópole principal,
capital, muito longe.
Sim, havia dificuldade de acesso. Todavia
não impossibilidade. Então, com um pouco de
atraso, mas a civilização acontecia. Vinha.
Trazia o novo. A novidade. Que ainda demoravam alguns dias
pra envelhecer. O rádio operava o milagre das informações
em viço. Televisão, um simulacro. Havia as com
retransmissão: novelas, programas de auditório
acentuadamente envelhecidos. Todavia, fora um questão
de tempo. Mais um pouco e torres transmissoras instaladas
asseguraram a televisão da hora.
O silêncio, entretanto, era o que ali
havia de maior. Não vira. Não vivera. Não
soubera outro. Impecável a certas horas. De manhã,
todo inteiro quase sempre. Um silêncio crivado de pluripássaros.
Os vários de múltiplas espécies de ali
e cercanias residentes. As espécies que alto transitam
na sua fatal migração.
Na hora de modorra das tardes tórridas
de sol dali cáustico, o silêncio é confecção
de autoria exclusiva de brisa; de aragem; de vento. A brisa
pispica os cabelos. Alegra os pêlos. Agrada a pele.
A aragem brinca com os pêlos; com os cabelos; arrupia
as plumagens. O vento. Benéfico e bom, sem todavia
ultrapassar a freqüência do som. Mexe com as folhas
entorpecidas de calor. Põe os capins, os canaviais,
as touceiras de erva cidreira de mau humor. O vento leve sabe
bem o carinho que faz. Mas ele é também fenômeno
imprevisível. Súbito, seu silêncio se
torna ameaça. Quando cavalga seu dorso a fúria
da tempestade. Fica violento como se em embriaguez, overdose.
Agressivo o que, sóbrio, agrada, afaga. Vento arrebentando.
Uivando sua sanha. Ocasiões, é certo, que se
faz acompanhar de sua temível turma. Todos portadores
de terrível barulho. Que atordoam o silêncio.
Estrondos de trovões, que depois ficam gravitando numa
freqüência vibrante demorada. Agudos de raios raivosos
fulminando o em que incidem. Chiantes relâmpagos incessantes,
instantâneos, fosforescendo o negro céu. E o
molhado barulho da chuva no telhado. No terreiro. Nas folhagens.
De noite, quando não tomado pela tempestade,
o silêncio é feito por outros instrumentos. Dormem
quase todos os vivos. Dormem os homens. Dormem os bichos.
Os que ficam despertos tomam a si a incumbência de tecer
o silêncio notívago. Sons leves. Longínquos.
Suaves. São os trinos dos grilos. A costura coletiva
dos anônimos galos. As modulações dos
dispersos latidos dos cães.
E de lá distante, vindo do rio, o rumor
contínuo do passar infindo de um vapor. Vapor nunca
visto. Mas que toda noite a certa hora fica acontecendo. Como
se um fantasma fazendo sua guarda ao majestoso rio. E espicaçando
o imaginário de quem não dorme. E quando ao
seu leito se entrega, carrega-o consigo como sua inebriante
canção para adormecer.