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Precioso silêncio
Data 16/jan/2003

O barulho do silêncio, uma companhia alentadora. Quase todo o tempo o silêncio conduzia ali o tempo. Mais intensamente assim a quem vivia com os sentidos sintonizados nele. Um silêncio cujas manifestações costuravam o cotidiano quase sem variações. Entanto, o repetitivo não era monótono. Nem entorpecia o senso crítico. Não imantava o sabor de sorvê-lo a cada dia. Mesmo com a aparente roupagem de sempre.

Não se pense tratar-se de um ermo primitivo. Onde não se fizera ainda conhecer o dinamismo, a simultaneidade, o efêmero da civilização contemporânea.. Longínquo lugar, sim. Nada da real civilização contemporânea próximo, é certo. As médias e meio-grandes cidades distantes. A metrópole principal, capital, muito longe.

Sim, havia dificuldade de acesso. Todavia não impossibilidade. Então, com um pouco de atraso, mas a civilização acontecia. Vinha. Trazia o novo. A novidade. Que ainda demoravam alguns dias pra envelhecer. O rádio operava o milagre das informações em viço. Televisão, um simulacro. Havia as com retransmissão: novelas, programas de auditório acentuadamente envelhecidos. Todavia, fora um questão de tempo. Mais um pouco e torres transmissoras instaladas asseguraram a televisão da hora.

O silêncio, entretanto, era o que ali havia de maior. Não vira. Não vivera. Não soubera outro. Impecável a certas horas. De manhã, todo inteiro quase sempre. Um silêncio crivado de pluripássaros. Os vários de múltiplas espécies de ali e cercanias residentes. As espécies que alto transitam na sua fatal migração.

Na hora de modorra das tardes tórridas de sol dali cáustico, o silêncio é confecção de autoria exclusiva de brisa; de aragem; de vento. A brisa pispica os cabelos. Alegra os pêlos. Agrada a pele. A aragem brinca com os pêlos; com os cabelos; arrupia as plumagens. O vento. Benéfico e bom, sem todavia ultrapassar a freqüência do som. Mexe com as folhas entorpecidas de calor. Põe os capins, os canaviais, as touceiras de erva cidreira de mau humor. O vento leve sabe bem o carinho que faz. Mas ele é também fenômeno imprevisível. Súbito, seu silêncio se torna ameaça. Quando cavalga seu dorso a fúria da tempestade. Fica violento como se em embriaguez, overdose. Agressivo o que, sóbrio, agrada, afaga. Vento arrebentando. Uivando sua sanha. Ocasiões, é certo, que se faz acompanhar de sua temível turma. Todos portadores de terrível barulho. Que atordoam o silêncio. Estrondos de trovões, que depois ficam gravitando numa freqüência vibrante demorada. Agudos de raios raivosos fulminando o em que incidem. Chiantes relâmpagos incessantes, instantâneos, fosforescendo o negro céu. E o molhado barulho da chuva no telhado. No terreiro. Nas folhagens.

De noite, quando não tomado pela tempestade, o silêncio é feito por outros instrumentos. Dormem quase todos os vivos. Dormem os homens. Dormem os bichos. Os que ficam despertos tomam a si a incumbência de tecer o silêncio notívago. Sons leves. Longínquos. Suaves. São os trinos dos grilos. A costura coletiva dos anônimos galos. As modulações dos dispersos latidos dos cães.

E de lá distante, vindo do rio, o rumor contínuo do passar infindo de um vapor. Vapor nunca visto. Mas que toda noite a certa hora fica acontecendo. Como se um fantasma fazendo sua guarda ao majestoso rio. E espicaçando o imaginário de quem não dorme. E quando ao seu leito se entrega, carrega-o consigo como sua inebriante canção para adormecer.



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