Uma estrada de acesso às casas de veraneio.
Estrada vicinal, a denominação sócio-política.
As Zonas Rurais em que pequenas, micro propriedades -sitiantes
e chacareiros-labutam ainda com a lavoura. Lavoura familiar.
Toda a família vai à roça. Todavia, já,
também, vai à cidade. A cidade não lhe
é, como fora a seus avós, um lugar em que se
sentiam estranhos. E eram. Caipiras. Sertanejos. Matutos.
Indo à venda. À bodega. Iam deslizando aos pontos
periféricos. Receosos. Bicho do mato sujeito a chacota
e menosprezo. Iam a cavalo. Ou em carro de boi. O meio de
transporte coletivo do pobre da roça. Do Sertão.
O carro que recolhe a colheita. Em sacas. O café. O
arroz. O feijão. Em feixes. A cana. A lenha. Os mourões.
Em espigas. Pesadas cargas que carro-de-boi leva às
tulhas. E delas ao comércio. À venda em atacados.
O mesmo carro-de-boi que a família transporta à
cidade, quando vão (ou iam) a alguma solenidade. Uma:
fazer a compra do mês do que a roça não
fornecia. Outra: Sexta-Feira da Paixão. A procissão
da via-crucis. O Senhor morto na igreja para a adoração.
As famílias. Mulheres e crianças. As pessoas
idosas. Iam no carro-de-boi. Seguidas por alguns outros, homens,
rapazes da família a cavalo. Cavalos lavados. Escovados.
Arreados de forma a mais formosa possível. Arreio.
Pelego. Coxinilho. Estribos lustrosos. Bridão e cabresto
impecáveis.
Então se deu o êxodo todo que
todo o mundo já sabe. O sertão, a roça
virou cidade. Mão-de-obra à produção
da roça em grande escala é de gente da cidade.
Que vive na periferia. Em barracos. Em casas apertadas de
conjuntos habitacionais. Vão à roça agora.
Em caminhão. Em ônibus. Os bóias-frias,
como ficaram sendo conhecidos. Trabalham ao sabor de safras.
São, agora, citadinos. Habitam a Zona Urbana. Assimilam
a linguagem dos urbanos. Falam sem sotaque. Empregam gírias,
tão comum, como ontem era fumar um cigarro de palha.
Então, os redutos resistentes - sitiantezinhos
e chacareirinhos ali teimam em ficar. E o lugar, cujo solo
rico em argila, constituiu-se também de algumas rústicas
olarias. O tijolo feito à moda antiga do mesmo jeito.
Tudo manual. Um artesanato em série. A argila em estado
de barro. A fôrma que a mão manipula habilmente.
O tijolo verde exposto ao sol em pequenas fileiras no terreiro
para a secagem. Depois, a queima em forno rústico de
tijolo. O combustível ao fogo ainda é a lenha.
Família, ou famílias inteiras tocam, por empreita,
essas olarias. São suboperários em convívio
com miniproprietários. Grassa a pobreza. Todavia, vão
à cidade. Freqüentam escolas. E votam.
Um certo governo estadual se obrigou a pavimentar
todas essas estradas vicinais para melhorar o escoamento da
produção. Uma outra conseqüência,
pois que banha o lugar um grande braço do Tietê,
foram a edificações das propriedades de veraneio.
E tornou-se um hábito: no Natal e Ano Bom, dezenas
de crianças e adolescentes ficam à margem da
estrada pedindo boas-festas. Pedem à passagem dos automóveis
dos bem-de-vida ou remediados que vão ao veraneio à
beira do Tietê. Os ranchos com todos os confortos citadinos.
Comem. Bebem. Pescam. Nadam. Divertem-se.
Aquelas crianças ao sol de verão
pedindo boas-festas. Uma adolescente evocou-lhe a foto do
livro de Sebastião Salgado. Cabelos sarará esvoaçantes.
Expressão envolvente. Olhos verde-claros penetrantes.
Perguntou-lhe se conseguiam uns bons trocados. Perguntou-lhe
qual era o destino da grana arrecadada. Perguntou-lhe se os
pais sabiam ou mandavam fazer aquilo. Respondeu que os pais
não mandavam nem desautorizavam e que cada criança
fazia o que bem quisesse com o dinheiro arrecadado. Mas tinham
decidido, daquela vez, fazer uma festa juntos naquela noite.
Por isso lhe repetiu, com vigor e com aqueles olhos sedutores,
boas-festas para nós!
Ele sapecou-lhe dez reais na mão. Os
olhos dela estatelaram seu verde-claro dele à nota.
Da nota a ele. E disse nossa! O senhor está mesmo muito
feliz! Viu passarinho verde? Abriu um sorriso largo e, enquanto
punha o automóvel em marcha, disse a ela, quase gritando
para superar o barulho, que tinha visto uma estrela cadente.
Boas festas a vocês nesta noite!