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Boas festas
Data 03/jan/2003

Uma estrada de acesso às casas de veraneio. Estrada vicinal, a denominação sócio-política. As Zonas Rurais em que pequenas, micro propriedades -sitiantes e chacareiros-labutam ainda com a lavoura. Lavoura familiar. Toda a família vai à roça. Todavia, já, também, vai à cidade. A cidade não lhe é, como fora a seus avós, um lugar em que se sentiam estranhos. E eram. Caipiras. Sertanejos. Matutos. Indo à venda. À bodega. Iam deslizando aos pontos periféricos. Receosos. Bicho do mato sujeito a chacota e menosprezo. Iam a cavalo. Ou em carro de boi. O meio de transporte coletivo do pobre da roça. Do Sertão. O carro que recolhe a colheita. Em sacas. O café. O arroz. O feijão. Em feixes. A cana. A lenha. Os mourões. Em espigas. Pesadas cargas que carro-de-boi leva às tulhas. E delas ao comércio. À venda em atacados. O mesmo carro-de-boi que a família transporta à cidade, quando vão (ou iam) a alguma solenidade. Uma: fazer a compra do mês do que a roça não fornecia. Outra: Sexta-Feira da Paixão. A procissão da via-crucis. O Senhor morto na igreja para a adoração. As famílias. Mulheres e crianças. As pessoas idosas. Iam no carro-de-boi. Seguidas por alguns outros, homens, rapazes da família a cavalo. Cavalos lavados. Escovados. Arreados de forma a mais formosa possível. Arreio. Pelego. Coxinilho. Estribos lustrosos. Bridão e cabresto impecáveis.

Então se deu o êxodo todo que todo o mundo já sabe. O sertão, a roça virou cidade. Mão-de-obra à produção da roça em grande escala é de gente da cidade. Que vive na periferia. Em barracos. Em casas apertadas de conjuntos habitacionais. Vão à roça agora. Em caminhão. Em ônibus. Os bóias-frias, como ficaram sendo conhecidos. Trabalham ao sabor de safras. São, agora, citadinos. Habitam a Zona Urbana. Assimilam a linguagem dos urbanos. Falam sem sotaque. Empregam gírias, tão comum, como ontem era fumar um cigarro de palha.

Então, os redutos resistentes - sitiantezinhos e chacareirinhos ali teimam em ficar. E o lugar, cujo solo rico em argila, constituiu-se também de algumas rústicas olarias. O tijolo feito à moda antiga do mesmo jeito. Tudo manual. Um artesanato em série. A argila em estado de barro. A fôrma que a mão manipula habilmente. O tijolo verde exposto ao sol em pequenas fileiras no terreiro para a secagem. Depois, a queima em forno rústico de tijolo. O combustível ao fogo ainda é a lenha. Família, ou famílias inteiras tocam, por empreita, essas olarias. São suboperários em convívio com miniproprietários. Grassa a pobreza. Todavia, vão à cidade. Freqüentam escolas. E votam.

Um certo governo estadual se obrigou a pavimentar todas essas estradas vicinais para melhorar o escoamento da produção. Uma outra conseqüência, pois que banha o lugar um grande braço do Tietê, foram a edificações das propriedades de veraneio. E tornou-se um hábito: no Natal e Ano Bom, dezenas de crianças e adolescentes ficam à margem da estrada pedindo boas-festas. Pedem à passagem dos automóveis dos bem-de-vida ou remediados que vão ao veraneio à beira do Tietê. Os ranchos com todos os confortos citadinos. Comem. Bebem. Pescam. Nadam. Divertem-se.

Aquelas crianças ao sol de verão pedindo boas-festas. Uma adolescente evocou-lhe a foto do livro de Sebastião Salgado. Cabelos sarará esvoaçantes. Expressão envolvente. Olhos verde-claros penetrantes. Perguntou-lhe se conseguiam uns bons trocados. Perguntou-lhe qual era o destino da grana arrecadada. Perguntou-lhe se os pais sabiam ou mandavam fazer aquilo. Respondeu que os pais não mandavam nem desautorizavam e que cada criança fazia o que bem quisesse com o dinheiro arrecadado. Mas tinham decidido, daquela vez, fazer uma festa juntos naquela noite. Por isso lhe repetiu, com vigor e com aqueles olhos sedutores, boas-festas para nós!

Ele sapecou-lhe dez reais na mão. Os olhos dela estatelaram seu verde-claro dele à nota. Da nota a ele. E disse nossa! O senhor está mesmo muito feliz! Viu passarinho verde? Abriu um sorriso largo e, enquanto punha o automóvel em marcha, disse a ela, quase gritando para superar o barulho, que tinha visto uma estrela cadente. Boas festas a vocês nesta noite!



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