Ninguém respondia ao interfone. Por
mais que houvesse insistido. Desistiu. Voltou para o meio
dos afazeres em que as muitas pessoas de casa estavam empenhadas.
Todos contribuindo. Dando idéias. Dispondo-se a afazeres
quaisquer. Bastava que pedissem. Já se vivia o clima
de festa natalina. Espíritos desprendidos. Soltos.
Abertos a entregas. Dádivas. Enternecimentos.
Arranjavam. Limpavam. Cozinhavam. A grande
família estaria reunida. Renasceriam em Deus à
meia-noite. E madrugada adentro agraciados festejariam o presente
feliz. Brindariam em grandes cortejos o futuro próximo.
Que dali a pouco começaria a ser presente.
Por certo, no dia subseqüente, todos
se poriam entre refazer-se e reordenar o cenário para
a recepção do futuro ano novo, novo ano. Ressacas
extinguidas, recomeçar. Que a vida é esse sem
fim acabar e recomeçar. Fazer, desfazer-se, refazer-se.
E a campainha chamou de novo. Outra vez! Conquanto
participasse do benevolentismo reinante, tornou ao interfone
meio irritado. Ninguém respondeu ao seu educado e acolhedor
pois-não. Repetiu. Nada. Então soltou a verdade
contida, já a voz alterada perguntando o que é
que queriam?!. Ninguém respondia. O clima festivo barulhento
nos afazeres familiares. Decidiu conferir ao portão
de que, afinal, se tratava. Da rótula da porta frontal,
nada. A rua vazia. Asfalto se decompondo cada vez mais. E,
a cada vez que se fixava naquilo, tomava-o a irritação
de quem se reconhece lesado. As taxas municipais eram altíssimas.
E aquele era o retorno. Prefeitura incompetente! A favor apenas
de seus interesses eleitoreiros. Um cidadão responsável
para seus impostos prediais escorchantes. Paga taxas. De limpeza.
De iluminação. De conservação.
A contrapartida, aquele descaso. Rua roída a cada chuva.
Mas apenas a rua roída. E vazia. Raros
movimentos. A hora dos lares irem-se aconchegando. Já
ninguém querendo perambular. Todo o mundo buscando
carinho no útero familiar. A calçada em que
fizera ajardinamento. Plantara arbustos ornamentais. Um trecho
gramado. Plantara árvores ornamentais e sombreiras.
Ninguém. Certamente, era coisa de crianças pregando
peça. Apertam a campainha e escafedem-se. Escondidos,
ficam olhando a cara boba do dono procurando o nada. Não
lhes daria, pois, a cara à gozação. Era
quase Natal. Alma pacificada, relevar aqueles levados infantes.
Melhor assim. Antes brincalhões moleques, que ladrõezinhos
assassinos a mando de traficantes. Fora criança. Também
fizera parte algumas vezes dessa brincadeira. A última
de que participara quase morreram de susto. O dono da casa,
que na segunda vez saíra dizendo os escambaus, furioso,
de certo já sabendo do que se tratava, na terceira,
apareceu com um revólver (Hoje gostaria de acreditar
que fosse de brinquedo.) gritando que mataria todos aqueles
pivetes sem vergonha! Correram. Correram. Muito. Muito. Quando
pararam na praça, eram sustos e pulmões mal
se contendo.
Então fechava a rótula, quando
viu algo se esgueirando pelo pilar do portão buscando
a campainha. Abrira rapidamente a porta para, agora, surpreender
aqueles moleques. Foi já com ar zombeteiro. Todavia,
o que viu o fez estatelar-se alguns instantes. Um lagarto
enorme. Teiú, informou-lhe, depois, o Aurélio,
olhos súplices, feridona exposta pestilentamente escorrendo
sangue pútrido. Fitaram-se mutuamente em alguns silêncios.
Ele fez sinal ao lagarto que esperasse. Sem nada dizer, entrou
em casa. Atravessou a tumultuada alegria corre-corre dos todos
indiferentes e solidários entre si. Apanhou álcool.
Mertiolate, gaze, esparadapo. Foi à geladeira, pegou
suculento pedaço de carne crua.
Medicado. Carne saborosamente devorada. Acertaram
que à mesma hora do dia seguinte tornasse para novo
curativo e nova porção de carne. Que aguardasse.
Acionar a campainha poderia levar a desfechos que não
pretendiam por enquanto. Seria pleno almoço. Ele faria
tudo com todos em estado semelhante ao de hoje.
À mulher, que indagara do que se tratava,
disse ser um mendigo que pedira comida e medicamento para
uma chaga exposta no lado esquerdo do peito.