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Anonimato
Data 26/dez/2002

Ninguém respondia ao interfone. Por mais que houvesse insistido. Desistiu. Voltou para o meio dos afazeres em que as muitas pessoas de casa estavam empenhadas. Todos contribuindo. Dando idéias. Dispondo-se a afazeres quaisquer. Bastava que pedissem. Já se vivia o clima de festa natalina. Espíritos desprendidos. Soltos. Abertos a entregas. Dádivas. Enternecimentos.

Arranjavam. Limpavam. Cozinhavam. A grande família estaria reunida. Renasceriam em Deus à meia-noite. E madrugada adentro agraciados festejariam o presente feliz. Brindariam em grandes cortejos o futuro próximo. Que dali a pouco começaria a ser presente.

Por certo, no dia subseqüente, todos se poriam entre refazer-se e reordenar o cenário para a recepção do futuro ano novo, novo ano. Ressacas extinguidas, recomeçar. Que a vida é esse sem fim acabar e recomeçar. Fazer, desfazer-se, refazer-se.

E a campainha chamou de novo. Outra vez! Conquanto participasse do benevolentismo reinante, tornou ao interfone meio irritado. Ninguém respondeu ao seu educado e acolhedor pois-não. Repetiu. Nada. Então soltou a verdade contida, já a voz alterada perguntando o que é que queriam?!. Ninguém respondia. O clima festivo barulhento nos afazeres familiares. Decidiu conferir ao portão de que, afinal, se tratava. Da rótula da porta frontal, nada. A rua vazia. Asfalto se decompondo cada vez mais. E, a cada vez que se fixava naquilo, tomava-o a irritação de quem se reconhece lesado. As taxas municipais eram altíssimas. E aquele era o retorno. Prefeitura incompetente! A favor apenas de seus interesses eleitoreiros. Um cidadão responsável para seus impostos prediais escorchantes. Paga taxas. De limpeza. De iluminação. De conservação. A contrapartida, aquele descaso. Rua roída a cada chuva.

Mas apenas a rua roída. E vazia. Raros movimentos. A hora dos lares irem-se aconchegando. Já ninguém querendo perambular. Todo o mundo buscando carinho no útero familiar. A calçada em que fizera ajardinamento. Plantara arbustos ornamentais. Um trecho gramado. Plantara árvores ornamentais e sombreiras. Ninguém. Certamente, era coisa de crianças pregando peça. Apertam a campainha e escafedem-se. Escondidos, ficam olhando a cara boba do dono procurando o nada. Não lhes daria, pois, a cara à gozação. Era quase Natal. Alma pacificada, relevar aqueles levados infantes. Melhor assim. Antes brincalhões moleques, que ladrõezinhos assassinos a mando de traficantes. Fora criança. Também fizera parte algumas vezes dessa brincadeira. A última de que participara quase morreram de susto. O dono da casa, que na segunda vez saíra dizendo os escambaus, furioso, de certo já sabendo do que se tratava, na terceira, apareceu com um revólver (Hoje gostaria de acreditar que fosse de brinquedo.) gritando que mataria todos aqueles pivetes sem vergonha! Correram. Correram. Muito. Muito. Quando pararam na praça, eram sustos e pulmões mal se contendo.

Então fechava a rótula, quando viu algo se esgueirando pelo pilar do portão buscando a campainha. Abrira rapidamente a porta para, agora, surpreender aqueles moleques. Foi já com ar zombeteiro. Todavia, o que viu o fez estatelar-se alguns instantes. Um lagarto enorme. Teiú, informou-lhe, depois, o Aurélio, olhos súplices, feridona exposta pestilentamente escorrendo sangue pútrido. Fitaram-se mutuamente em alguns silêncios. Ele fez sinal ao lagarto que esperasse. Sem nada dizer, entrou em casa. Atravessou a tumultuada alegria corre-corre dos todos indiferentes e solidários entre si. Apanhou álcool. Mertiolate, gaze, esparadapo. Foi à geladeira, pegou suculento pedaço de carne crua.

Medicado. Carne saborosamente devorada. Acertaram que à mesma hora do dia seguinte tornasse para novo curativo e nova porção de carne. Que aguardasse. Acionar a campainha poderia levar a desfechos que não pretendiam por enquanto. Seria pleno almoço. Ele faria tudo com todos em estado semelhante ao de hoje.

À mulher, que indagara do que se tratava, disse ser um mendigo que pedira comida e medicamento para uma chaga exposta no lado esquerdo do peito.



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