Fora solicitado por uma rádio a conceder
entrevista. Anuiu. À hora combinada, quis comparecer.
Distraidamente, marcou o endereço. Na hora de ir, não
o encontrava. Fazia outras coisas concomitantemente no instante
em que o anotara. Quando quis, não soube onde.
Todavia não se perturbou. Tampouco
se preocupou em conseguir a localização. Os
pontos de referência bastavam como baliza. Neles chegando,
teria a rádio. Elas são características.
Têm seus caracteres evidenciados. Uma antena peculiar.
O prédio de arquitetura comercial. Quase sempre em
assobradado. Suas insígnias, evidenciadas.
Assim, porém, não fora. Tinha
ante si os dois pontos de referência. Não, todavia,
a rádio. Trançara e retrançara as ruas.
Longamente. Largamente. Morosamente. E nada dos índices
indicadores da rádio. Nada. Casas, tão-somente.
Casas de arquitetura classe médio-baixa imiscuídas
por algumas de arquitetura classe média. Classe médio-alta.
Então, assobradadas algumas. Mas nitidamente casas.
Fachadas completamente residenciais. Antenas de toda ordem.
Mas de televisão.
Tornou-se ansioso. Já incorria em atraso
considerável. De um telefone público pediu que
lhe localizassem nas páginas amarelas. Não constava.
Ansiedade redobrada. O amigo jornalista socorreu-o. Todavia,
o socorro disparou-lhe enorme surpresa. O número era
o de uma casa classe médio-baixa comum. Tudo. O muro
gradeado. Porta de entrada também de grade de ferro.
Uma discreta área de frente. Antena, uma parabólica
de televisão. Escudo nenhum. Sequer uma mínima
placa. O receio somou-se à ansiedade. Talvez confundira
o número. Ouvira errado algum algarismo. Descobriu
discreto interruptor de campainha.
Disseram-lhe que sim. Era a rádio.
Aguardavam-no desde a hora combinada. Acometeu-o a preocupação
de ser indelicado, ofensivo (não entendia bem por que
razão) descrevendo o real motivo do atraso. Atribuiu-o
a decisões de última hora inadiáveis.
E o azar de um pneu furado a meio caminho.
As amabilidades tudo dirimiram. Conduziram-no
à cabine. Cujos dois compartimentos são separados
e isolados por uma parede de vidro. O locutor numa repartição.
O técnico-operador noutra.Vêem-se. Gesticulam-se.
Mas não se ouvem um ao outro. Precisamente: o operador
ouve, transformada em texto verbal, a fala do locutor. Ao
qual de certo modo conduz.
Ele fora instado a aguardar alguns momentos
na sala de operação. Na outra, o locutor finalizava
um jornal. Depois o entrevistaria.
O rádio. Milagre de comunicação
de sua infância e adolescência. Os homens ouvindo
o noticiário. As intromissões nos programas
do Repórter Esso com uma notícia em edição
extraordinária. As mulheres ouvindo novela. "O
direito de nascer" que parecia nunca chegar ao fim. Eles,
meninos, esperando a hora do seriado "Jerônimo,
o herói do sertão". Bang-bang nacional
que os empolgava. À noite assistia-se ao programa humorístico
"Balança, mas não cai". A poderosa
Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Nela, todas as noites,
Olímpia ouvia o programa de música sertaneja
comandado por Edgar de Sousa. Sob o patrocínio do Instituto
Universal Brasileiro. Certamente, se não o primeiro,
dos mais antigos ensinos a distância. Beleu assistia
aos jogos do Palmeiras. O fio terra à mão esquerda.
A direita livre para o copo de cerveja Antártica (casco
verde). A respiração no compasso do ritmo do
locutor. Invariavelmente, Fiori Gigliotti ( Atenção,
torcida brasileira. Vai começar o espetáculo.
Apita o árbitro! Abrem-se as cortinas e começa
o espetáculo! Balão subindo, balão descendo...).
Também na juventude o rádio estivera. Os ídolos
do rock and roll. Da Jovem Guarda.
Todo esse arsenal radiofônico de tempos
idos, enquanto aguardava a vez. Mas, tornado a si, deu-se
com passar por aquele conjunto monstrengo de aparelhos. Aspectos
de modernidade. Informatização. E então
viu. O operador, os ouvidos presos nos sons. Atentos cumpridores
do seu trabalho. A voz, a fala do outro. Mecânica e
disciplinada rotina. Enquanto assim, simultaneamente, os olhos
e a mão direita desaborrecem do trabalho num concentrado
jogo de sinuca on line.