Muitos, o medos. Já crescíamos
portadores de muitos medos. E quase, se não todos,
vinculados ao sobrenatural. Do sobrenatural tudo nos amedrontava.
A nós e aos adultos. Deles, afinal, éramos aprendizes
e herdeiros do medo. Medos decorrentes dos sobreviventes sobrenaturais.
E dos mais temíveis, certamente o maior,
era Deus. Deus, o castigador. Ah! a vingança de Deus
será maligna! Ai de quem lhe cair em desgraça.
Pecadores deste mundo, arrependei-vos. Principalmente vós,
os infantes e os adolescentes! Teimosos e desobedientes. Temei!
E praticai penitëncia. Todos os vossos pecados, ides
confessá-los. Todos. Por atos e pensamentos. Remissão
obtida pela confissão, comungai o Deus vivo. E o guardai
bem para proteger-vos de quaisquer recaídas. Porque
a reincidência é já um passo quase irreversível
à condenação.
Herdeiros do pecado original. Já nascíamos,
pois, pecadores. "Eu brasileiro confesso". Então,
como a própria pátria, já iniciávamos
a vida em débito. Devíamos. Devíamos
pelo simples fato, ato, de termos surgido. E, infantes, já
nos seguia o fantasma de Deus: "Papai do céu castiga!"
Ao fogo do inferno todos os pecadores renitentes. Impenitentes.
Adolescentes, sem televisão, sem internet, eram demais
e impossíveis os pecados deste mundo.
As fantasias das imagens povoavam de medo
nosso universo. Os mitos e demais fábulas sempre na
esteira do bem e do mal. Riobaldo, a personagem vultosa de
Guimarães Rosa, adulto, obsedado com o Pai do Mal,
a ele referiu-se alcunhando-o por mais de mil denominações,
concluíram estudiosos de Grande sertão: veredas.
Nesse mesmo universo guimarãesiano, a personagem Miguilim
se viu às voltas com o medo do castigo da morte por
não conseguir cumprir promessa. Talvez a mais célebre
de suas personagens, Augusto Matraga, passa, depois de ter
milagrosamente escapado à morte a que tanta pancadaria
o teria submetido, a entregar-se ao autoflagelo o resto de
sua vida como forma de redimir-se de seus pecados, para, então,
ter a sua hora e vez.
E os mitos nossos, talhados nesse misticismo
de que nossa cultura é originária. O nosso imaginário
tecido por essa mescla que o universo lendário enredou.
E recriou. E recria e desdobra à medida que se estende
para o seu sem fim. A esse relicário mítico-místico
lendário agregam-se as superstições.
Uma gama inumerável de sortilégios. De toda
ordem. De todo o tipo. De todas as classes sociais. Mais uns.
Menos outros. Crentes muitos. Duvidadores outros. Indecisos
vários. Conscientes. Inconscientes. Todavia, os brasileiros
somos pouco mais, pouco menos feitos disso tudo.
Peça espicaçante deste relicário
é o redemoinho. O remoinho. O redemunho. Esse fenômeno
do vento de encontro consigo mesmo. Vento trombando com vento.
Vento de encontrão com vento.
Assisti-lo, com juízo. A distância.
E dele fugir. Abrigar-se. Porque o redemoinho vira e revira.
Vai e vem. Vertiginosamente. Vento bêbado endoidecido.
Ergue o que o seu tubo pega. Poeira. Papel. Siscos. Gente
e animais, não. Pois que se escafedem. E ficam a distância
embevecidos nele. Pois sabem todos que ali, feitor daquilo,
há um ente. Qual, nunca ninguém é certeza.
Os sabentes nunca mais se viu. Que, negligentes, ou desafiantes,
foram tragados e desaparecidos em tubo longo. Difuso. Sem
rumo. Afirmam que é artimanha do demo: "O diabo
na rua, no meio do redemoinho". Afirmam ser molecagem
maldosa do Saci Pererê. Afirmam que é agonia
de alma penada.
Nas historias de Olímpia, o redemoinho
engoliu Jerônimo. De quem nunca mais se soube. Jerônimo
atreveu-se a entrar no meio do redemoinho. Foi aquele canudão
de poeira, folhas, gravetos, rodando pra lá pra cá
e subindo. Muito depois que se acabou, que é de Jerônimo?
Conquanto temeroso; perigo de desaparecimento;
sumidouro; sugador terrível, o redemoinho é
fenômeno estético ímpar. Lindo. O torvelinho
no meio do terreiro espiralando tudo. O torvelinho na água
do rio sugando tudo. O redemoinho tão frequente quando
se era menino. Agora, com estas estações estabanadas,
que parecem enredemoinhadas, tão raro. Tão raro,
que tudo é concreto e asfalto. Tão raro, que,
quando se vê, todo o mundo acorre ao grande espetáculo
( a distância, que redemoinho é bonito, mas,
como mãe d'água, bicho maligno).