Um olhar bonito de mulher. Um ar de quem sabe
o que quer. Penetra o objeto em que pousa. Decerto perscruta.
Ao mesmo tempo em que implora amparo. Ao mesmo tempo em que
se indaga e aos dados como senhores. Por quê? Se não
pediu para vir? Se a fizeram vir, não a discriminar,
era o mínimo.
Os cabelos crescidos. Encrespados. Revoltos.
Creditando-lhe uma personalidade nada amesquinhada. Corroboram
o olhar e o ar de mulher já amadurecida. A eles se
soma um rosto de linhas esculpidas em traços sedutoramente
belos. E emana deles uma intestina luz. Conquanto a opacidade
do em branco e preto permeie toda a ambiência. Os cílios
perfilham a leveza dos belos traços do rosto. A cor
desses pêlos, de um louro mesclado a um cinza-pétreo.
A que se denomina sarará. A eles se soma a cor dos
olhos. A menina dos olhos esplende surpreendente cor. A íris
tinge-a de um cinza esverdeado incomum. Nariz talhado. Escultural.
Nem grande. Nem pequeno. Nem adunco. Nem achatado. Nem arrebitado.
A boca também. Um recorte de beleza. Lábios
medianos. Simetricamente proporcionais. Os cantos com seu
gracioso vinco. Insinuantes.
Um espécime humano feminino encantador.
E se gente, digna do que à pessoa humana é direito.
E se adolescente, mais ainda. Cuidar-lhe a alma, o corpo,
a mente. Que à suas mãos caberão, daqui
a nada, as rédeas do planeta. Se mulher, ainda mais.
A garantia do pleno desenvolvimento de seus dons. Os quais
são bens inestimáveis ao bicho homem. O eterno
amor e labor de mãe. A congênita beleza. Ternura.
Delicadeza. Inteligência. Diligência. Suscitam
permanentemente a vontade máscula. Insuflam o germe
criador do homem. Mantém neste mesmo homem a incessante
busca da inatingível perfeição. A tácita
e salutar disputa pela superioridade. Que lhe conferirá
a preferência. A escolha. Que leva o homem às
descobertas extraordinárias. Que mantém a evolução
em seu caminho para o não se sabe onde. O fim inexistente.
O começo sem vestígio.
Uma mulher. Adolescente. Promessa de feminilidade
primorosa. Para alegria dos machos pretendentes. Para o bem
do bom equilíbrio, reprodução, evolução,
desenvolvimento da espécie.
Todavia, a degenerescência que contra
a raça age. Que contra as demais espécies animais
age. Que contra a vida do planeta age. A degenerescência
é o desmilagre. A degenerescência é o
mal da alma que parece incurável.
Então instaura ela o desomem. O lobisomem.
Que a si se transforma de borboleta a casulo. Ou a condição
humana involui à molécula. Que torna a verme.
E verme, chafurda a lama. Devora. Destrói. Vorazmente.
Torpemente. Dementemente. Endrogadamente. Por isso, essa sina
assassina humana traçada pela degenerescência.
Diante de que a estúpida tolerância e os sórdidos
interesses se imobilizam com procedimentos que servem somente
para mais a incrementar.
Daí a vida desta menina linda sendo
abatida pelo trabalho escravo de uma carvoaria. Daí
aquela adolescente que a superabundância degenerativa
levou a tramar o assassinato dos pais.
Assim essa torpe dialética humana.
As crianças. Os adolescentes entregues à degenerescência
do trabalho escravo. Entregues à degenerescência
dos degenerescentes que os espreitam; os abordam; os envolvem.
Pois que soltos, perdidos vão pelas ruas. As crianças.
Os adolescentes entregues às suas absolutas vontades.
Desreguladas. Desmedidas. Que a superabundância lhes
confere.
Decerto, o coração do planeta
pulsa desesperadamente por a pouco não mais existir.
E mais não lhe restará, senão suspiros
consternados ante a impotência deste homo sapiens, deste
homo faber. O qual tanto sabe, tanto faz. Contudo, incapaz
de desarruinar-se a si mesmo.