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Fotografias
Data 28/nov/2002

Um olhar bonito de mulher. Um ar de quem sabe o que quer. Penetra o objeto em que pousa. Decerto perscruta. Ao mesmo tempo em que implora amparo. Ao mesmo tempo em que se indaga e aos dados como senhores. Por quê? Se não pediu para vir? Se a fizeram vir, não a discriminar, era o mínimo.

Os cabelos crescidos. Encrespados. Revoltos. Creditando-lhe uma personalidade nada amesquinhada. Corroboram o olhar e o ar de mulher já amadurecida. A eles se soma um rosto de linhas esculpidas em traços sedutoramente belos. E emana deles uma intestina luz. Conquanto a opacidade do em branco e preto permeie toda a ambiência. Os cílios perfilham a leveza dos belos traços do rosto. A cor desses pêlos, de um louro mesclado a um cinza-pétreo. A que se denomina sarará. A eles se soma a cor dos olhos. A menina dos olhos esplende surpreendente cor. A íris tinge-a de um cinza esverdeado incomum. Nariz talhado. Escultural. Nem grande. Nem pequeno. Nem adunco. Nem achatado. Nem arrebitado. A boca também. Um recorte de beleza. Lábios medianos. Simetricamente proporcionais. Os cantos com seu gracioso vinco. Insinuantes.

Um espécime humano feminino encantador. E se gente, digna do que à pessoa humana é direito. E se adolescente, mais ainda. Cuidar-lhe a alma, o corpo, a mente. Que à suas mãos caberão, daqui a nada, as rédeas do planeta. Se mulher, ainda mais. A garantia do pleno desenvolvimento de seus dons. Os quais são bens inestimáveis ao bicho homem. O eterno amor e labor de mãe. A congênita beleza. Ternura. Delicadeza. Inteligência. Diligência. Suscitam permanentemente a vontade máscula. Insuflam o germe criador do homem. Mantém neste mesmo homem a incessante busca da inatingível perfeição. A tácita e salutar disputa pela superioridade. Que lhe conferirá a preferência. A escolha. Que leva o homem às descobertas extraordinárias. Que mantém a evolução em seu caminho para o não se sabe onde. O fim inexistente. O começo sem vestígio.

Uma mulher. Adolescente. Promessa de feminilidade primorosa. Para alegria dos machos pretendentes. Para o bem do bom equilíbrio, reprodução, evolução, desenvolvimento da espécie.

Todavia, a degenerescência que contra a raça age. Que contra as demais espécies animais age. Que contra a vida do planeta age. A degenerescência é o desmilagre. A degenerescência é o mal da alma que parece incurável.

Então instaura ela o desomem. O lobisomem. Que a si se transforma de borboleta a casulo. Ou a condição humana involui à molécula. Que torna a verme. E verme, chafurda a lama. Devora. Destrói. Vorazmente. Torpemente. Dementemente. Endrogadamente. Por isso, essa sina assassina humana traçada pela degenerescência. Diante de que a estúpida tolerância e os sórdidos interesses se imobilizam com procedimentos que servem somente para mais a incrementar.

Daí a vida desta menina linda sendo abatida pelo trabalho escravo de uma carvoaria. Daí aquela adolescente que a superabundância degenerativa levou a tramar o assassinato dos pais.

Assim essa torpe dialética humana. As crianças. Os adolescentes entregues à degenerescência do trabalho escravo. Entregues à degenerescência dos degenerescentes que os espreitam; os abordam; os envolvem. Pois que soltos, perdidos vão pelas ruas. As crianças. Os adolescentes entregues às suas absolutas vontades. Desreguladas. Desmedidas. Que a superabundância lhes confere.

Decerto, o coração do planeta pulsa desesperadamente por a pouco não mais existir. E mais não lhe restará, senão suspiros consternados ante a impotência deste homo sapiens, deste homo faber. O qual tanto sabe, tanto faz. Contudo, incapaz de desarruinar-se a si mesmo.



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