Os cães de um modo geral, sua paixão
pungente. Se dedicava a eles como aos seus filhos. Os quais
eram dois pares de azul de provocar muito inveja. A mãe
dela, supersticiosa, discretamente afixava fita vermelha nalgum
canto da roupa. De modo a ser despercebido. Nada de mal olhado.
De quebranto nos seus netos. A fita vermelha numa dobra da
gola. Numa bainha. A defesa à espreita. Enrustida.
Tanto não podia fazer ela com seus
cães. A mãe se esgotava em dois netos. Ela se
desdobrava em muitos, muitos cães. E os seus cães
não eram dela. Eram dos clientes. Clientes não-padrão.
Verdade, que vários acabavam se assumindo assim. Freqüentemente
em períodos compassado, iam à Faculdade para
os regulares exames de seus cães. Esse atendimento
em quase tudo se assemelhava ao de consultório particular
padrão.
Conquanto fosse uma universidade governamental
e, como toda boa faculdade veterinária, odontológica,
prestasse serviço público, o púbico tinha
de dar uma mãozinha pecuniária nos custos. Os
cães e gatos examinados com a ação direta
ou assistência de doutores: peritos a cada enfermidade.
O grande atendimento, todavia, era a rotina
rotatória. O caso intenso, normal, os traumáticos.
Atropelamentos no topo do índice. Esses faziam retorno.
Ela dava acompanhamento. Seus estagiários atendiam.
Ela assistia. A constância. O jeito. Os trejeitos. E
apegava-se. A cada um já conhecido, um carinho. Uma
fala. Muitas vezes uma guloseima. E aquilo era simbiótico.
Cão havia que não ia à Faculdade há
já tempo. O dono decidia por uma visita-consulta. Os
cuidados, os atendimentos do povo da Faculdade tão
bons! Melhor que consulta paga! Lá iam. Mal se viam,
o cão alongado e a doutora preferida. Encontro de amor.
O cão gane sua pura alegria. A médica, sorriso
completo, braços abertos, corpo flexionado. E o cão
alçava-se sobre ela. E ela abraçava-o falando.
Ele ganindo dava-lhe suas boas lambidas.
Paixão aberta ao abjeto de seu ofício.
Ofício movido a paixão. E esmerada paciência
com os teimosos. Com os ferozes (logo mais, mansos queridos).
Segura e cônscia de sua missão. Emoção
e razão muito juntas. A paixão medida de Drummond.
O endurecimento e a ternura de Guevara. Equívocos e
acertos apreciados. Claro, os equívocos amargavam,
doíam. Mas lhe davam também lições.
O seu curso. A sua orientação. O seu acompanhamento
a seus estagiários. O campus. Substancial parte de
seu mundo. A família canina. A família felina.
Seus alunos. Seus colegas. Os êxitos mínimos
despercebidos. Os vultosos efusivos, fátuos. Mas ambos
a comovia. A ensinava. Crescia-a.
Seus cães. Seus gatos. Sua ciência.
Sua cátedra. Suas conquistas (Seus fracassos). Seus
êxitos. Comemorativos e anônimos. Entanto, também
aí, vida conjunta, pendia a especial paixão.
Paixão maior. Aberta. Cão pastor alemão.
Porte eclético. Lindo. A princípio, aquele bicho
feroz. De nunca ter posto os pés fora de casa. Fora
trançado. Equipe de segurança ao próximo.
Fortes pai e filho. Mesmo uma "sossega-leão"
não o atordoou completo. Foi, pois, à mesa com
focinheira. Perdia muito sangue. Corte largo e fundo no ventre.
Salto mal medido sobre um gradil no quintal. Operação
demorada. Empós efeito anestésico, deparou-se
com aquelas carícias que talvez somente sabem certas
veterinárias. E ali na mesa de recuperação.
As carícias em percurso. Ele semicerrados olhos fixos
nela.
Já na primeira sessão de curativo
o mútuo amor declararam. Devidamente escoltado esperando
sua vez. Ao vê-la, desfez-se em latidos e ganidos de
amor. Ela estendeu o braço chamando-o. Os donos-segurança
hesitavam. Toda a fisionomia de amor dela instava-lhes que
deixassem ir sua criançona. Desde aí, se viam
pelo menos três vezes ao ano. Natal ido. Ano novo indo.
Aparecem e a estarrecem. Determinação inamovível
de castração. Implorou que primeiro deixassem
gerar herdeiros. Arrumaria fêmea à altura. Nada.
Não fez a operação. Pediu a um colega.
Mas depois atirou-se possessiva a seu cão. Assumiu
o acompanhamento pós-operatório. Consternação
crônica. E com um sempre incrível sentimento
de perda.