Home
|
Conheça Tito Damazo
|
Textos
|
Contato
|



O cão dos cães de sua vida
Data 21/nov/2002

Os cães de um modo geral, sua paixão pungente. Se dedicava a eles como aos seus filhos. Os quais eram dois pares de azul de provocar muito inveja. A mãe dela, supersticiosa, discretamente afixava fita vermelha nalgum canto da roupa. De modo a ser despercebido. Nada de mal olhado. De quebranto nos seus netos. A fita vermelha numa dobra da gola. Numa bainha. A defesa à espreita. Enrustida.

Tanto não podia fazer ela com seus cães. A mãe se esgotava em dois netos. Ela se desdobrava em muitos, muitos cães. E os seus cães não eram dela. Eram dos clientes. Clientes não-padrão. Verdade, que vários acabavam se assumindo assim. Freqüentemente em períodos compassado, iam à Faculdade para os regulares exames de seus cães. Esse atendimento em quase tudo se assemelhava ao de consultório particular padrão.

Conquanto fosse uma universidade governamental e, como toda boa faculdade veterinária, odontológica, prestasse serviço público, o púbico tinha de dar uma mãozinha pecuniária nos custos. Os cães e gatos examinados com a ação direta ou assistência de doutores: peritos a cada enfermidade.

O grande atendimento, todavia, era a rotina rotatória. O caso intenso, normal, os traumáticos. Atropelamentos no topo do índice. Esses faziam retorno. Ela dava acompanhamento. Seus estagiários atendiam. Ela assistia. A constância. O jeito. Os trejeitos. E apegava-se. A cada um já conhecido, um carinho. Uma fala. Muitas vezes uma guloseima. E aquilo era simbiótico. Cão havia que não ia à Faculdade há já tempo. O dono decidia por uma visita-consulta. Os cuidados, os atendimentos do povo da Faculdade tão bons! Melhor que consulta paga! Lá iam. Mal se viam, o cão alongado e a doutora preferida. Encontro de amor. O cão gane sua pura alegria. A médica, sorriso completo, braços abertos, corpo flexionado. E o cão alçava-se sobre ela. E ela abraçava-o falando. Ele ganindo dava-lhe suas boas lambidas.

Paixão aberta ao abjeto de seu ofício. Ofício movido a paixão. E esmerada paciência com os teimosos. Com os ferozes (logo mais, mansos queridos). Segura e cônscia de sua missão. Emoção e razão muito juntas. A paixão medida de Drummond. O endurecimento e a ternura de Guevara. Equívocos e acertos apreciados. Claro, os equívocos amargavam, doíam. Mas lhe davam também lições. O seu curso. A sua orientação. O seu acompanhamento a seus estagiários. O campus. Substancial parte de seu mundo. A família canina. A família felina. Seus alunos. Seus colegas. Os êxitos mínimos despercebidos. Os vultosos efusivos, fátuos. Mas ambos a comovia. A ensinava. Crescia-a.

Seus cães. Seus gatos. Sua ciência. Sua cátedra. Suas conquistas (Seus fracassos). Seus êxitos. Comemorativos e anônimos. Entanto, também aí, vida conjunta, pendia a especial paixão. Paixão maior. Aberta. Cão pastor alemão. Porte eclético. Lindo. A princípio, aquele bicho feroz. De nunca ter posto os pés fora de casa. Fora trançado. Equipe de segurança ao próximo. Fortes pai e filho. Mesmo uma "sossega-leão" não o atordoou completo. Foi, pois, à mesa com focinheira. Perdia muito sangue. Corte largo e fundo no ventre. Salto mal medido sobre um gradil no quintal. Operação demorada. Empós efeito anestésico, deparou-se com aquelas carícias que talvez somente sabem certas veterinárias. E ali na mesa de recuperação. As carícias em percurso. Ele semicerrados olhos fixos nela.

Já na primeira sessão de curativo o mútuo amor declararam. Devidamente escoltado esperando sua vez. Ao vê-la, desfez-se em latidos e ganidos de amor. Ela estendeu o braço chamando-o. Os donos-segurança hesitavam. Toda a fisionomia de amor dela instava-lhes que deixassem ir sua criançona. Desde aí, se viam pelo menos três vezes ao ano. Natal ido. Ano novo indo. Aparecem e a estarrecem. Determinação inamovível de castração. Implorou que primeiro deixassem gerar herdeiros. Arrumaria fêmea à altura. Nada. Não fez a operação. Pediu a um colega. Mas depois atirou-se possessiva a seu cão. Assumiu o acompanhamento pós-operatório. Consternação crônica. E com um sempre incrível sentimento de perda.



Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003, Poetagem - www.poetagem.com.br

Site Produzido por Espaço Cibernético Espaço Cibernético