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Ratos
Data 13/nov/2002

Esses roedores sutis. Leves quadrúpedes. Lépidos. Soltos pelos esgotos. Pelos escaninhos mínimos da casa. Camundongamente roendo sobras do caminho. Presa preciosa de gatos. Pelos menos fora sempre um universal consenso. Gato de roça. Gato solto de casas abertas. Casas com quintais. Onde ratos triscam de desvãos a desvãos. Quando, por vezes, garras felinas, à espreita, abatem-nos. Inevitável. Que um rato lembra um gato. Como uma cobra lembra um pássaro. Um sapo. Como uma árvore lembra as flores. Os frutos. Como uma mulher lembra um homem.

Rato rápido pela varanda. Entocaiando-se na despensa. A serventia deles no equilíbrio ecossistema é irreconhecível a visão leiga. Visto, é torpe bicho a ser abatido. Rato é perigo. Rato disseminou a peste bubônica. Centenas de milhares de vidas. História escabrosa. Horripilante. Os povos embexigados.

Rato rápido pelos paióis. Pelos armazéns. Rato roendo queijo. Alimento predileto seu à imagem também universalmente difundida. O queijo como a isca mais atrativa. A ratoeira em que o queijo evola seu sedutor aroma a ratos. Há rato nenhum que se contenha. Acorre ávido ao cheiro.

Outro mal de rato é o das inundações citadinas. As cidades não escoam suas chuvas mais a contento. E a urina dos ratos dissemina a leptospirose. Outra peste dizimante. Que coube ao rato portar. Como um novo agravante à sua existência.

Então ao rato consignaram-se alguns emblemas. O roubo, o mais atroz. Talvez nenhum dos que o simbolize tenha imagem mais vigorosa. Nem mesmo gatuno. Gatuno é roubo leve. Evidencia mais a destreza, a habilidade do que o roubo. O que se rouba é pouco. De insignificância subestimada. Não assim com rato. Rato é roubo espúrio. Em ato muito secreto. E de seleta substância. O que rouba é rato que armazena. Que com o roubo se enriquece. Rato de porão. Que salta fora porque pressente que a água vem.

Nessa perspectiva, as ratazanas. De esgotos. De bueiros. E de outros localizados buracos em que se roubam.

Todavia aos ratos há em contrapartida, imagens positivas. A ficção os disseminou universalmente. Há a esperteza e a criatividade de Mickey Mouse. A valentia, ousadia e coragem de Jerry. Há a generosidade e benemerência dos cobaias.

A bem dizer, ratos vira-os e via-os camundongos. Casa de quintal. Avarandado. Comedouro de cachorros. Os ratinhos rondam. Por mais asseio se fizesse. Impressionado ficara certa madrugada quase vencida em São Paulo. A claridade insinuando-se. Ia da rodoviária (antiga) ao centro. Ia a pé. A cidade ainda empalpebrada. Na boca de escoadouro de água pluvial. Duas ratazanas. Enormes. Avançavam furiosas sobre um casal de pombos. Que esvoaçavam temerosos. Decerto os pombos disputavam-lhes alguma comida que somente ele não enxergava. Pasmo, em saber houvesse-os daquele tamanho. Poucos gatos se atreveriam avançar sobre elas.

Conquanto não se lembrasse de ter visto mais algo semelhante, a imagem das ratazanas lhe vinham constantemente. Uma noite. Véspera de feriado. Entregara-se à leitura de Guerra e paz. Obra que se determinara a ler. Por hábito, quando assim, sustinha a leitura vez em quando. Ia à geladeira. Para voltar à leitura sempre munido de algo. Uma fruta. Uma barra de chocolate. Um copo de suco. De refrigerante. De cerveja, às vezes. Acesa a luz da cozinha. Viu. Aquele bicho enorme saiu em ritmo muito lento ao comum dos ratos. Era uma ratazana. Fora pela porta da cozinha que displicentemente estava aberta. Lhe parecia prenhe, tão lenta. Ou excessivamente gorda. E velha. Ficou paralisado. Surpreso muito mais. Impressionado muito mais. Ali na cozinha de sua casa o que vira numa boca-de-lobo de uma infecta rua de São Paulo. Durante todo o resto de sua Guerra e paz daquela noite a ratazana velha e gorda ia lentamente do fogão à porta da cozinha.

Em meio ao sono acordou. Fato inabitual. Por que acordara? Sono completamente desaparecido. Quieto sob o lençol, ainda indeciso. E súbito um barulho. Acurou o ouvido. Ficou gélido. Era ruído de rato roendo. Havia um rato em seu quarto.



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