Esses roedores sutis. Leves quadrúpedes.
Lépidos. Soltos pelos esgotos. Pelos escaninhos mínimos
da casa. Camundongamente roendo sobras do caminho. Presa preciosa
de gatos. Pelos menos fora sempre um universal consenso. Gato
de roça. Gato solto de casas abertas. Casas com quintais.
Onde ratos triscam de desvãos a desvãos. Quando,
por vezes, garras felinas, à espreita, abatem-nos.
Inevitável. Que um rato lembra um gato. Como uma cobra
lembra um pássaro. Um sapo. Como uma árvore
lembra as flores. Os frutos. Como uma mulher lembra um homem.
Rato rápido pela varanda. Entocaiando-se
na despensa. A serventia deles no equilíbrio ecossistema
é irreconhecível a visão leiga. Visto,
é torpe bicho a ser abatido. Rato é perigo.
Rato disseminou a peste bubônica. Centenas de milhares
de vidas. História escabrosa. Horripilante. Os povos
embexigados.
Rato rápido pelos paióis. Pelos
armazéns. Rato roendo queijo. Alimento predileto seu
à imagem também universalmente difundida. O
queijo como a isca mais atrativa. A ratoeira em que o queijo
evola seu sedutor aroma a ratos. Há rato nenhum que
se contenha. Acorre ávido ao cheiro.
Outro mal de rato é o das inundações
citadinas. As cidades não escoam suas chuvas mais a
contento. E a urina dos ratos dissemina a leptospirose. Outra
peste dizimante. Que coube ao rato portar. Como um novo agravante
à sua existência.
Então ao rato consignaram-se alguns
emblemas. O roubo, o mais atroz. Talvez nenhum dos que o simbolize
tenha imagem mais vigorosa. Nem mesmo gatuno. Gatuno é
roubo leve. Evidencia mais a destreza, a habilidade do que
o roubo. O que se rouba é pouco. De insignificância
subestimada. Não assim com rato. Rato é roubo
espúrio. Em ato muito secreto. E de seleta substância.
O que rouba é rato que armazena. Que com o roubo se
enriquece. Rato de porão. Que salta fora porque pressente
que a água vem.
Nessa perspectiva, as ratazanas. De esgotos.
De bueiros. E de outros localizados buracos em que se roubam.
Todavia aos ratos há em contrapartida,
imagens positivas. A ficção os disseminou universalmente.
Há a esperteza e a criatividade de Mickey Mouse. A
valentia, ousadia e coragem de Jerry. Há a generosidade
e benemerência dos cobaias.
A bem dizer, ratos vira-os e via-os camundongos.
Casa de quintal. Avarandado. Comedouro de cachorros. Os ratinhos
rondam. Por mais asseio se fizesse. Impressionado ficara certa
madrugada quase vencida em São Paulo. A claridade insinuando-se.
Ia da rodoviária (antiga) ao centro. Ia a pé.
A cidade ainda empalpebrada. Na boca de escoadouro de água
pluvial. Duas ratazanas. Enormes. Avançavam furiosas
sobre um casal de pombos. Que esvoaçavam temerosos.
Decerto os pombos disputavam-lhes alguma comida que somente
ele não enxergava. Pasmo, em saber houvesse-os daquele
tamanho. Poucos gatos se atreveriam avançar sobre elas.
Conquanto não se lembrasse de ter visto
mais algo semelhante, a imagem das ratazanas lhe vinham constantemente.
Uma noite. Véspera de feriado. Entregara-se à
leitura de Guerra e paz. Obra que se determinara a ler. Por
hábito, quando assim, sustinha a leitura vez em quando.
Ia à geladeira. Para voltar à leitura sempre
munido de algo. Uma fruta. Uma barra de chocolate. Um copo
de suco. De refrigerante. De cerveja, às vezes. Acesa
a luz da cozinha. Viu. Aquele bicho enorme saiu em ritmo muito
lento ao comum dos ratos. Era uma ratazana. Fora pela porta
da cozinha que displicentemente estava aberta. Lhe parecia
prenhe, tão lenta. Ou excessivamente gorda. E velha.
Ficou paralisado. Surpreso muito mais. Impressionado muito
mais. Ali na cozinha de sua casa o que vira numa boca-de-lobo
de uma infecta rua de São Paulo. Durante todo o resto
de sua Guerra e paz daquela noite a ratazana velha e gorda
ia lentamente do fogão à porta da cozinha.
Em meio ao sono acordou. Fato inabitual. Por
que acordara? Sono completamente desaparecido. Quieto sob
o lençol, ainda indeciso. E súbito um barulho.
Acurou o ouvido. Ficou gélido. Era ruído de
rato roendo. Havia um rato em seu quarto.